Queridos irmãs e irmãos,

Este detalhe da narrativa de S. Lucas sobre a forma como Maria acompanhava Jesus é precioso para nós. Porque é uma espécie de programa espiritual.

“Maria conservava todas estas coisas no seu coração, meditando nelas.” É isto que nós somos chamados a fazer. Nós acompanhamos Maria em três etapas.

Nós acompanhamo-la primeiro no Advento, no mistério da sua Anunciação. Quando, na sua liberdade, Maria é colocada perante a vontade de Deus que lhe diz através do anjo que ela ia ser mãe, ia ser parceira desta grande aventura que é o mistério da Encarnação e Maria diz: “Sim”, “Fiat”, “faça-se.”

Depois, vemos Maria a colocar o Menino Jesus na Terra, na vida, colocando-o de forma simbólica sobre aquela manjedoura. É a segunda etapa.

E a terceira etapa da maternidade de Maria é esta em que Maria acompanha Jesus, a partir do seu coração. Conservando, guardando o que a Ele diz respeito e meditando, maturando, ruminando o mistério da vida de Jesus.

Maria é exemplo para nós porque, a aproximar-se o fim do ciclo do Natal, o que nós somos chamados é a permanecer. E a forma de permanecer é guardar no coração. Não vamos guardar o presépio apenas numa caixa, não vamos guardar os símbolos num saco à espera do ano novo. Vamos guardar no nosso coração aquilo que vivemos. Vamos ruminar, vamos meditar, vamos estender no tempo o sabor daquilo que, de uma forma tão intensa, nós meditamos no Mistério do Presépio.

E o que é que nós vimos acontecer? Vimos acontecer o Deus connosco, o Deus que toma a nossa carne, que toma a nossa humanidade. Essa é a forma mais extraordinária de bênção que Deus dá a cada um de nós. É colocar Cristo na nossa vida como companheiro daquilo que somos. No fundo mais fundo do nosso coração, de todos nós, mulheres e homens, crianças, adultos há o desejo de uma bênção. Cada um de nós precisa de uma bênção, como a terra seca precisa da água. Uma bênção é aquilo que a própria palavra quer dizer: dizer bem, dizer o bem que nos habita. Nós precisamos sintonizar a nossa vida com a luz de uma bênção que em cada momento nos recoloque na esperança, que em cada momento diga a beleza que nós somos. Mesmo no provisório, no vulnerável, mesmo no meio da imperfeição, que diga não o mal que é sempre óbvio, não o tosco que se vê logo, mas veja a beleza daquilo que nos habita. Nós precisamos desse olhar. Aquilo, por exemplo, que o escultor Miguel Ângelo dizia: “Quando eu olho para uma pedra, para um mármore, eu não vejo um mármore tosco, primitivo, em bruto. Quando eu olho vejo já a escultura, vejo já a obra-prima. E o que eu faço é libertar a forma daquele mármore bruto.”

Quando Deus nos olha não vê o nosso pecado, não vê a nossa miséria, não vê a nossa imperfeição, não vê que nós somos fracos, não é isso que Ele vê. O que Ele vê em nós a cada momento é a obra-prima, e este olhar é um olhar de bênção. Nós precisamos de ser olhados assim, de ser amados assim. Porque, só isso é que nos dá a força e a capacidade de não sucumbir sob o peso da nossa imperfeição e da imperfeição do mundo. Só isso nos dá a força de não nos apagarmos completamente no deserto da nossa própria sede. É este olhar de bênção que Deus nos dá. Dentro de nós há essa sede profunda. Mas não só dentro de nós, dentro de cada homem, dentro de cada mulher há essa sede profunda.

Às vezes nós olhamos para uma pessoa e julgamo-la rapidamente. Olhamos muitas vezes para uma criança: que mal comportada, que isto, que aquilo! E às vezes não pensamos que uma criança de quatro anos já sofreu mais que muitos adultos. Não pensamos nisso, na carga de sofrimento que há naquela pessoa. E às vezes vemos cenas ou vemos gestos que não compreendemos, sem pensar que por detrás daquilo existe uma dor. Nós só conseguimos perdoar quando conseguimos perceber que a dor que o outro provocou em nós é mais pequena que a dor que ele transporta, que o faz ferir os outros daquela maneira. A dor que ele nos provoca é mais pequena do que a dor que o habita. Quando percebemos isso nós somos capazes de perdoar.

Nós vivemos este 2018 num mundo em transformação, num mundo com tantas imperfeições, tantas coisas novas, num mundo que é uma espécie de vulcão de acontecimentos. E que atitude nós devemos ter? Nós, cristãos, face aos grandes acontecimentos, face aos pequenos, aos quotidianos, aos da nossa escala que atitude devemos ter? Nós devemos abençoar, nós devemos sintonizar com a fome de bênção e tentar saciá-la, nós devemos dizer o bem que há no outro. E isso passa por mantermos uma relação de esperança, de confiança, de hospitalidade com a própria vida. Porque recusar a vida, fechar-lhe as portas, condicionar apenas a vida ao que já vivemos, às nossas convicções e convenções é muito estreito.

Nós temos de viver na abertura, temos de ser bons condutores desta bênção de Deus que se fez homem, que não nos quer como escravos, mas nos quer como filhos e como herdeiros. Sintamo-nos como herdeiros, e como herdeiros com capacidade de condividir, de partilhar.

Hoje, neste Dia Mundial da Paz, o Santo Padre escreveu uma mensagem baseada nos emigrantes, refugiados e migrantes, homens e mulheres à procura da paz. E, nessa mensagem, o Santo Padre desafia-nos a olhar para os migrantes e para os refugiados não apenas como pessoas que precisam, como pessoas que estão carentes e vêm buscar o pão, vêm buscar o emprego, vêm buscar o nível de vida, vêm buscar isto, vêm buscar aquilo. Ele diz: “Olhemos antes de tudo para os outros como pessoas que vêm buscar de mãos cheias.” O Papa Francisco diz: “Os migrantes e os refugiados chegam a nós de mãos cheias, porque trazem tanta coisa para nos dar, trazem uma vontade incrível de sobreviver, trazem-nos uma coragem perante as dificuldades que nos falta a nós, trazem uma capacidade de se vencer a eles próprios, trazem um desejo muito grande de vida, vida plena. Querem reunir as suas famílias, têm um desejo profundo de paz no seu coração. Não querem maldição, querem bênção. Trazem as suas culturas”

Então nós temos de os olhar não como alguém que vem buscar o que temos mas alguém que vem nos dar o que nós não temos. Por isso, a hospitalidade é sempre uma troca. Quando eu recebo alguém em minha casa, quando eu acolho, quando eu partilho dos meus bens, eu não estou apenas a dar. Muitas vezes o que nós damos na hospitalidade é tão pouco perante a dimensão daquilo que recebemos. Por isso, o Santo Padre diz: “Para este ano eu deixo-vos quatro palavras que são como pedras miliares para o tempo que começa. E essas quatro palavras são: acolher, proteger, promover e integrar.”

Acolher, proteger, promover e integrar. Se nós formos capazes de traduzir estas palavras na nossa vida o nosso ano será um ano de bênção. Será um ano em que nós estamos sintonizados com as coisas fundamentais, em que a meditação do Presépio continua a acontecer na nossa vida.

Queridos irmãs e irmãos, estamos a começar. E Deus ajuda quem começa. Nós estamos a começar o ano, nós somos sempre novos, nós somos sempre inéditos. Não somos apenas a continuação, nós damos saltos, nós avançamos. Não podemos dizer: eu agora estou escravo disto. Não, não. Podes estar e podes não estar, podes dar saltos. A vida avança por saltos. Não conta o que nós fomos, conta o que nós somos, conta o que nós queremos ser. Não conta o peso do passado, conta a alegria do hoje, conta o chamamento do futuro. Por isso, sintamo-nos inéditos, sintamo-nos a começar um tempo novo. O ano que começa não é apenas o calendário, é a oportunidade da vida, é o “kairós”, é o momento da Salvação que pode acontecer. Por isso, cada um de nós invista no tempo a confiança, cada um de nós invista no tempo a bênção. Porque, se eu estou sedento de bênção, o outro também está sedento de bênção. Então, caminhemos para o Senhor de todas as bênçãos em cada dia.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

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