Queridos irmãs e irmãos,

Neste dia de Natal temos o prólogo do Evangelho de S. João, este texto com uma densidade teológica, existencial que nos ajuda a descortinar o mistério da própria Encarnação do Senhor.

O que é isto que os nossos olhos veem? O que é isto que a nossa carne contempla? “No princípio era o Verbo, o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.” Este é o resumo daquilo que nós podemos olhar. E o que é que nós tocamos? Do que é que nós nos avizinhamos no mistério do Natal? Avizinhamo-nos de um Deus que Se faz carne, que toma a nossa carne, um Deus que visita a história, que a atravessa, que passa a estar entre nós, que passa a ser um de nós – a nossa carne, o nosso corpo, a nossa vida. Porque, o nosso corpo é este corpo individual que todos temos, mas é o corpo social, é a nossa história, é o corpo biográfico. O nosso corpo torna-se teomórfico. A nossa humanidade torna-se o lugar onde Deus habita, onde Deus esplende.

Então, nós temos de olhar para a nossa humanidade de outra forma, com outros olhos. No mistério da Encarnação, nós percebemos que a nossa humanidade passa a valer mais. Não apenas a minha humanidade individual, mas a humanidade passa a valer mais. Porque, Jesus vem mostrar o valor da nossa humanidade, vem dar-nos um novo olhar, uma nova compreensão daquilo que nós somos, daquilo que cada ser humano é. Vem alargar, finalmente nós podemos ver. Nós podemos ver a glória que está inscrita, que está agora tatuada na fragilidade da nossa condição humana.

Por isso, o tempo de Natal, estes dias de Natal são dias para contemplarmos. Contemplarmos a cena do presépio mas contemplarmos os presépios vivos. Uma rua da nossa cidade é um presépio vivo, as nossas casas, a nossa família é um presépio vivo. As pessoas que passam, conhecidos e desconhecidos, é um presépio vivo. Nós somos chamados a olhar para aquela humanidade que muitas vezes nos é indiferente, muitas vezes até nos agride, muitas vezes damos por desvalorizada. Somos chamados a reolhar, a rever a humanidade, agora com olhos novos, porque ela é o lugar onde está Deus.

Neste tempo do Advento e do Natal nós fizemos tantas coisas e chegamos a este dia muitas vezes até com o sentido: valeu a pena, não valeu a pena. Sentimos que investimos demasiada esperança, que caímos outra vez na armadilha do Natal. Voltei a acreditar e, de repente, este dia vai chegar ao fim. Há mais uma tarde e acaba tudo. E parece: pronto, lá caí outra vez. Porque, talvez possamos temer que o investimento de esperança, de afeto, de dádiva, de serviço, de cuidado que oferecemos nós não recebemos a troca, não vemos para que é que isto serve. Para que é que tudo isto existe, qual é o real valor de tudo isto. Será que não somos uns zombies que se contagiam uns aos outros com este espírito e que depois, no fundo, percebemos que nada disto valeu a pena. Eu penso que as palavras do prólogo de S. João nos ajudam a perceber porque é que vale a pena. Porque é que vale a pena? Porque é que vale a pena sermos dom, porque é que vale a pena até o nosso cansaço, a nossa fadiga? Porque é que vale a pena toda esta mobilização, porque é que vale a pena hoje a cidade estar vazia, porque é que vale a pena tudo isto que se cria?Porque é que vale a pena?

Vale a pena porque na nossa carne nós experimentamos uma diferença. O amor deixa-nos talvez mais cansados, talvez sem forças. O amor traz-nos a fadiga, o cuidado dos outros, a solidariedade. O pensamento dos outros mobiliza-nos, enche-nos de ocupações, muda a nossa agenda, transforma-nos. E esta modificação que cada um de nós experimenta, num custo de fadiga, de cansaço, de cuidado, de dádiva, de prestação de serviço, este custo que o Natal tem na nossa carne é a vinda de Deus. É Deus a vir ao nosso próprio corpo, à nossa própria vida. Esta espécie de desvitalização é o cavar a manjedoura dentro de nós, cavar o berço onde Deus vai nascer. Porque nós precisamos de fazer o caminho de Jesus, o caminho que Ele depois vai fazer na sua vida, porque esta história não acaba em Belém, esta história começa em Belém. E o que Ele nos ensina é a fazermos da nossa vida dom, é a darmo-nos por inteiro, é a sairmos de nós, é a não pensarmos em nós-próprios, em vivermos na alegria, na alegria do dar. Há uma infinita alegria que está no dar e não no receber, há uma infinita alegria que está no servir e não no ser servido, há uma infinita alegria em fazer-se o último, em esquecer-se de si. Há uma perfeita e infinita alegria em sermos pequeninos e ajudarmos a construir sorrisos, a sermos cúmplices dos sonhos dos outros, a realizar a alegria que os outros têm adiada. E nós dizemos: olha, hoje é o dia dessa alegria, é hoje que vais sorrir, é hoje que vais ter aquilo que sonhaste. Seja um brinquedo ingénuo, seja o que for, é a vida que está a ser partilhada, estamos a construí-la uns com os outros. Quando somos capazes de fazer isso, claro que há um custo. Mas, esse custo, que está até na nossa carne e no nosso corpo, é a forma de Deus, é a forma de Deus.

Queridos irmãs e irmãos, por isso o Natal é a festa do brilho e da abundância. Mas o Natal é a festa dos famintos, é a festa dos esfomeados, dos sedentos, daqueles que querem mais, querem mais da vida, querem outra coisa da vida, daqueles que não se conformam apenas com a rotina, com o dia-a-dia, que sentem que tem de haver um suplemento, tem de haver um plus, tem de haver alguma coisa que vá além da medida, que não seja apenas o normal, alguma coisa que nos traga o excesso, o excedente do brilho do próprio Deus, da glória do próprio Deus. Por isso, o Natal é este tempo assim desconforme, exagerado, é o tempo do desejo de Deus, é o tempo para dar espaço a essa fome e a essa sede que temos no nosso coração. Famintos de estrelas, nós que andamos colados ao chão. É tempo para sentir isso e para dar voz, dar corpo, dar lugar à expressão de tudo isso que está no nosso coração. E é assim que a nossa carne ganha a forma de Deus.

“O Verbo fez-se carne e encarnou entre nós e viveu entre nós.” É a isto, irmãos e irmãs, que temos de nos agarrar, traduzindo na nossa carne, na nossa vida, nas nossas relações, nas nossas construções a presença de Deus. Dando ao mundo a forma de Deus. Este é o programa do Natal, procuremos vivê-lo à nossa medida, à nossa dimensão com aqueles que encontrarmos, partilhando, vivendo este milagre que é este dia, mas ao mesmo tempo, tendo a capacidade de o multiplicar, de o expandir, de fazer do Natal uma surpresa que chega a quem pensava ou já não pensava que ele pudesse existir.

Pe. José Tolentino Mendonça, Natal do Senhor

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