Queridos irmãs e irmãos,

O mistério da Anunciação que hoje nós lemos no Evangelho, às portas já do nascimento de Jesus, lembra-nos esta verdade fundamental: nós somos visitados. A nossa vida é uma vida visitada. Deus vem ao encontro das nossas vidas, Deus bate à nossa porta, nós não estamos sós, não estamos abandonados. Deus é visitação, Deus é o Deus que passa, é o Deus que vem. O tempo do Advento serve-nos para isso, para colocarmos o nosso coração diante desta certeza confiada de que Ele vem, de que Ele é o Senhor que nos visita, de que Ele é o Deus disponível para celebrar com cada um de nós o encontro, o reencontro, re-reencontro quantas vezes forem necessária. Ele está disponível para entrar na nossa história, segurar aquilo que somos, fazer caminho connosco.

Ele vem dizer-nos que a Deus nada é impossível. Ele vem investir de utopia, investir de esperança, investir de uma convicção maior do que as nossas forças, para lá das nossas possibilidades. Ele vem dizer que Ele é o garante, Ele é o fiador de uma esperança que desencrava a nossa vida. Porque a nossa vida está bloqueada em tantas impossibilidades. Olhamos para um lado e é impossível, olhamos para o outro e não há nada a fazer, olhamos para outro e já é tarde, olhamos para outro viesses cedo, olhamos para outro e não é já. A nossa vida, se fazemos uma viagem por dentro de nós, ela está encravada aqui, trilhada ali, ali já passou, ali já era. E nós ficamos num desespero de salvação. E tantas vezes sentimos que já ninguém nos salva, que a salvação já não é para nós, que já não é possível acontecer em nós essa transformação, essa transfiguração de vida que o Senhor promete. Achamos que a promessa de Deus já não é para nós, porque já aconteceu isto e já aconteceu aquilo e já tudo se perdeu.

Ora, o Senhor vem investir de esperança a nossa vida. Ele visita-nos para dizer: a Deus nada é impossível. E mais, Ele quer-nos como parceiros desta verdade que desassossega, que desinstala, que redime, em última análise, a própria história e a história do mundo. Ele quer-nos como parceiros, como quis Maria, como quis Isabel, como quis José, como quis os Pastores, como quis cada uma daquelas figuras que nós colocamos no presépio. Ele quer-nos como partners, como cúmplices, como conspiradores que tornem possível o impossível. Tornar possível o impossível. O que é que isto quer dizer na vida de cada um de nós? Como é que isto se traduz, aonde é que isto nos leva, são estas as perguntas do Natal.

Aqui temos de perceber a mensagem que Deus diz ao rei David. David já conquistou os outros reinos, já está em paz, já conseguiu que Israel seja uma nação, que ele seja um rei reconhecido pelos outros. Ele está num palácio e a Arca da Aliança continua numa tenda. Ele diz:” Eu tenho de fazer um Templo. Tenho de fazer um palácio para Deus.” E Deus nessa noite manda dizer-lhe: “Não és tu que vais fazer-Me, sou Eu que te vou fazer.”

Isto é, vençamos a tentação de meter Deus numa caixinha, meter Deus no quadrado daquilo que nós achamos que é possível. Ele vem rasgar o quadrado. E mais: vem fazer rasgarmos o nosso e dizer: a Deus nada é impossível.

Maria ouviu esta mensagem e disse: “Eu sou a serva do Senhor, eu sou a cúmplice do Senhor, faça-se em mim, a começar por mim, aquilo que é a Sua Palavra.” É esta a nossa resposta final do nosso caminho do Advento, que nós damos com o amparo de Maria, nossa mãe. Eu sou o servo, eu sou a serva, faça-se, realize-se, eu acredito, eu quero, eu estou, eu avanço. Que cada um de nós possa realizar isto no seu coração como programa. Que este Advento não seja uma passagem veloz, rapidíssima, para o Natal. Mas que este Advento se torne para nós a possibilidade de dizermos: “Sim” ao impossível de Deus, de celebrarmos uma aliança com esse impossível. E sentirmos que Ele vem ao nosso lado para começar em nós, a começar por nós tudo aquilo que nós por fragilidade, por angústia, por medo, por desespero, por cansaço declaramos já impossível, declaramos já que não vai acontecer.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo IV do Advento

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