Queridos irmãs e irmãos,

Penso que é consensual elogiar a nossa autonomia, a autonomia pessoal – cada um de nós se sentir com capacidade de levar a sua vida por diante e fazer responsavelmente as suas escolhas, viver segundo o seu jeito, a seu modo, a sua arte, a sua vocação. Cada um poder desenvolver as suas competências dessa forma autónoma é alguma coisa muito boa nas nossas vidas – sentirmos que a responsabilidade da nossa vida é nossa e que nós temos de responder, e que ninguém vai viver por nós as várias etapas da nossa vida. Somos nós, muitas vezes na nossa irredutível solidão, no nosso silêncio, que temos de dar o passo em frente. E construímos a nossa vida para assumir a responsabilidade que a existência significa.

Viver significa agarrar nas próprias mãos a vida e levá-la por diante. O grande perigo é nós acharmos que somos completamente autónomos, que dependemos apenas de nós, que vivemos em função de nós e que a nossa missão e a nossa vocação fundamental se esgotam no cuidado de nós próprios e na afirmação pessoal nas diversas áreas que compõe a nossa humanidade. Porque, se pensarmos bem, a nossa vida em todos os seus momentos fundamentais foi um dom, foi um dom. Foi objeto de uma conspiração amorosa para que nós pudéssemos ser, para que nós pudéssemos viver.

Ainda esta semana tive a alegria de ser mais uma vez tio-avô. E, a preparação do nascimento da criança que nasceu, o envolvimento de toda a gente, o correr, o andar de um sítio para o outro, fez-me recordar aquilo que está na origem da vida de todos nós e que às vezes nós temos uma dificuldade enorme em trazer à nossa memória: talvez na etapa fundamental da nossa vida, que é a nossa entrada na vida, nós não fomos os protagonistas. Erámos o alvo de toda a atenção, de todo o cuidado, tantas mãos se juntaram, tantas vidas se juntaram para que aquele momento pudesse ser um momento feliz, um momento de chegada tranquila. Mas, naquele momento, nós fomos completamente criados pelo amor dos outros, pela ternura dos outros, pelo profissionalismo dos outros que geraram a nossa vida.

Então, há esta memória fundamental em todos nós que é: Como é que tu nasceste? Como é que tu chegaste? Como é que tu começaste? Mas não só não foi apenas há 80 anos, há 50 anos que aconteceu isto, se olharmos bem está sempre a acontecer.

Por isso, na leitura do profeta Ezequiel, o pastor que representa Deus diz: “Eu cuido diretamente das minhas ovelhas, eu vou cuidar delas, pego-as ao colo, trato da ferida da que anda doente, robusteço e encorajo aquela que está forte. Sou Eu.” Há uma rede de cuidados da qual muitas vezes nós não tomamos consciência, porque olhamos para a vida de uma forma automática. Por um lado, como se tivéssemos direito a tudo, como se o nosso dinheiro comprasse todos os serviços e todo o amor que nos rodeia. Muitas vezes achamos que o pão sai do nosso saco em casa, que as coisas que enchem o nosso frigorífico saem diretamente do nosso frigorífico, que as pequenas e grandes coisas do nosso quotidiano não têm por trás uma rede de cuidadores da nossa própria vida. E não apenas em relação à vida presente, ao aqui e ao agora. Na Carta de S. Paulo aos Coríntios, neste magnífico capítulo 15, S. Paulo diz: “Assim como por um homem começou a existência no mundo, a nova vida, a nova criação também começa por Jesus Cristo.” E Ele vem para dar uma nova criação, para ressuscitar-nos e para garantir que Deus seja tudo em todos. Então, na nossa origem e na nossa escatologia, no nosso meio, nós somos objeto desse cuidado permanente. Por isso, penso que há uma gratidão à vida, há uma gratidão aos outros, um reconhecimento de que, de facto, somos objeto de um amor que muitas vezes nós não temos olhos para o ver, para o saudar, para dizer obrigado, obrigado, obrigado. Por todos os dias, por tudo aquilo que recebemos incessantemente, incessantemente. Se é verdade que às vezes nos lamentamos e nos queixamos: falta isto, falta aquilo, poderia ser de outra maneira, isto foi feito desajeitadamente, não era o que eu merecia. Mesmo assim, o bem supera em larga medida o lado desajeitado ou o lado mais cru da própria existência. Por isso, nós precisamos de aprender a gratidão e de dizer mais vezes obrigado, tomando consciência da rede que nos sustenta, que é uma rede que não é apenas económica. Achar que é a dimensão económica, é o nosso porta-moedas, que resolve o cuidado da nossa vida é tão pouco, é tão pouco. Porque essa é apenas uma parte, é apenas uma mediação, é apenas uma condivisão do dom. Porque, o cuidado mais importante é impagável, o cuidado mais verdadeiro, aquele que nos embala, aquele que nos dá colo não tem preço, não tem medida. E precisamos agradecer, precisamos agradecer e tomar consciência de como Deus cuida de nós, como somos cuidados, como a nossa vida é estimável – é inestimável a nossa vida. E nós somos embalados diariamente nesse amor. Não vivamos como se tivéssemos direito a tudo, como se tudo nos fosse devido, mas expressemos mais vezes o nosso reconhecimento tomando consciência de que, por um lado, nós somos os protagonistas da nossa vida, mas há tantos coprotagonistas sem os quais a nossa vida não seria possível que verdadeiramente o nosso coração se tem de encher de reconhecimento.

A consciência de que somos cuidados tem de nos tornar cuidadores da vida uns dos outros, se não a vida é uma oportunidade perdida. Se não nos tornamos cuidadores perdemos a vida, perdemos a vida. É isso que Jesus nos diz neste capítulo do Evangelho de S. Mateus, onde Ele diz, quase de uma forma crua, como se fosse um juízo universal, o juízo final. Porque tem de haver um momento em que nós percebemos: ou acertei ou falhei. Não vamos andar sempre a enganarmo-nos, não vamos andar sempre numa bolha de ilusão. Há um momento, e na vida de todos nós esses momentos acontecem, em que se despertam sorrisos ou se acordam lágrimas em que nós percebemos: eu perdi a minha vida ou valeu a pena ter vivido, valeu a pena ter estado ali, valeu a pena ser quem era, valeu a pena o caminho que eu fiz porque pude ser, pude servir, pude cuidar. E é, de facto, a dimensão do cuidado que é para Jesus o ponto que nos deve servir para perceber se a nossa vida valeu, ou se a nossa vida em algum momento ficou para trás, em algum momento se perdeu. Jesus é muito concreto, Ele diz: “Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e Me recolhestes, era peregrino e Me vestistes, estive doente e viestes visitar-Me, estava na prisão e fostes ver-Me.”

Podemos dizer: isto é para interpretar simbolicamente. E é também simbolicamente porque muitas pessoas nos dão de comer. Para mim, às vezes um texto, uma palavra, é como um pão. É tão saborosa ou mais saborosa do que o pão que como. E aquilo que nos dá de beber, e aquilo que nos veste é uma rede também simbólica, é. Mas também, é literal, é literal e nós não podemos esquecer isso. Quer dizer, nós cuidamos uns dos outros de forma simbólica, damo-nos uns aos outros e essa dádiva é muito importante. Mas a literalidade destas palavras que Jesus repete às ovelhas e aos cabritos devem entrar-nos verdadeiramente no coração.

Porque, às vezes, andamos perdidos com muitas coisas, muitas coisas importantes, muitas coisas urgentes, muita coisa que nos enche, muita coisa que nos envaidece. E depois? O essencial da vida, a luta pela sobrevivência, os momentos de crise, os momentos decisivos da vida dos outros nós falhamos, nós falhamos. Porque não damos de comer, não damos de beber, não vestimos, não visitamos, não acompanhamos o dilema, os momentos dilemáticos crucificantes da vida dos outros. E, se não estamos lá, é a nossa vida que perdeu a sua função. Nós não nos tornamos conspiradores para que o grande milagre da vida possa acontecer, deixamo-nos como um pão que fica no saco e fica duro de um dia para o outro, até ter de ser deitado fora porque já não tem utilidade. Não deitemos a nossa vida fora. No último domingo do ano, Jesus vem dizer-nos isto: não deitemos a nossa vida fora, tornemo-nos artesãos deste cuidado fundamental, desta assistência à vida, tornemo-nos parteiros da vida todos os dias fazendo a vida acontecer, trazendo a vida cá para fora, alimentando a ovelhinha fraca, encorajando aquela que caminha, reparando, restaurando, recosendo, alimentando, vestindo.

Sabem, às vezes os nossos amigos oferecem-nos imagens que depois nos ficam na cabeça, eu tenho a certeza de que este amigo já se esqueceu daquilo que fez. Mas eu todos os dias tenho pensado nisso. A semana passada, em Roma, num dia depois de jantar, fomos passear ali pela praça de S. Pedro, e estão muitos sem-abrigo a dormir debaixo das colunas. Íamos a conversar, aquelas coisas importantes que os padres e os teólogos conversam, e ele olhou – e depois eu também olhei – para um homem que estava a dormir, estava muito frio, o homem tinha um cobertor mas tinha os pés de fora, os pés assim espetados de fora. E ele deixou-nos e foi e tapou os pés ao homem. E nós ficamos: “Mas o que é que estás a fazer?” E ele chegou ao pé de nós, olhou para o que fez e viu que o outro pé ainda estava por cobrir, e foi outra vez cobrir o pé daquele homem que dormia com os pés destapados.

Aquele gesto eu não me esqueci e penso nele todos os dias. Já não me lembro do que estávamos a conversar, mas lembro-me que ele deixou a conversa para fazer a única coisa que era importante: que era ver quantos pés estavam destapados e tapar os pés daqueles que dormiam na rua. Às vezes pensamos: o que ele teria de fazer era levar o homem para outro sítio. Não, o que temos de fazer é oferecer um copo de água, é dar uma palavra de alento, é limpar uma lágrima, é tapar um pé que está ao frio.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXXIV do Tempo Comum

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