Queridos irmãs e irmãos

É sempre assim, é sempre assim. Mas há páginas do Evangelho em que ouvi-las constitui uma responsabilização enorme das nossas vidas, porque não é em vão que escutamos esta Palavra e que a escutamos, hoje.

A grande pergunta silenciosa, que é uma espécie de fio condutor desta palavra, é: Como é que o testemunho que dou é um legado de vida? Como é aquilo que eu sou se torna um acendedor de esperança na  vida do outro? Como é que eu me torno um facilitador do encontro com Deus na vida dos meus irmãos, em vez me tornar um obstáculo ou uma armadilha, coisas que também acontecem?

Como é que eu me torno uma ponte que liga em vez de me tornar um muro que divide e separa, que dispersa e afasta?

Como é que eu me torno pastor e partilho dessa condição da Igreja que Jesus Cristo lhe confiou, ser pastor de humanidade em vez de ser lobo uns para os outros, coisa que também acontece? Porque às vezes somos lobo uns para os outros, em vez de sermos pastores que levamos os outros por lugares seguros, por lugares verdadeiros.

Como é que isso acontece nas nossas vidas?

Jesus e o profeta Malaquias falam de situações concretas em que isso não acontece, e fazem o diagnóstico também da nossa vida. Um diagnóstico muito realista, muito concreto.

Porque, muitas vezes, isso efetivamente não acontece, e não acontece porque nós nos sobrepomos. Nós acreditamos mais no poder que no serviço.

Acreditamos mais na imposição de nós mesmos, do nosso eu, àquele milagre silencioso que pode acontecer na vida do outro quando deixamos a liberdade do Espírito acontecer. Quando nós queremos condicionar a realidade dos outros, ou quando apostamos tudo numa vida de fachada e ficamos descansados com isso, em vez de semear. Acreditar na tarefa humílima que é semear coisas. Coisas que nós não controlamos, que não sabemos como vão despertar. Mas quem semeia, semeia numa confiança cega, louca, apaixonada. Mas vai semeando. Às vezes acreditamos mais numa tarefa de controle do que nesta tarefa esperançosa de quem semeia, de quem dá, de quem reparte e não controla o que o outro vai fazer.

A palavra de Malaquias encontra um eco muito forte na palavra de Jesus que critica  aquilo que vê e faz este tal diagnóstico: pessoas que querem o primeiro lugar, pessoas que disputam os privilégios,  que disputam as honras.

E, no fundo, o que é que acontece num mundo assim? Acontece uma redução da vida, acontece uma diminuição da esperança. É um mundo e é uma vida que não é autêntica, não é marcada por uma autenticidade e, por isso, é oca, por isso é asfixiante, por isso é contraditória dentro de si.

E este diagnóstico que Jesus faz, muito geral, muito universal, muitas vezes é o diagnóstico da nossa própria vida. É por isso que andamos a correr, é por isso nos cansamos, é isso que construímos.

Ora, Jesus diz: não pode ser isso, não pode ser isso que nos anima. Não pode ser essa a nossa forma de estar, de ser, porque isso não é fecundo. E há um momento nas nossas vidas em que nos temos de perguntar se estamos apostados em construir relações fecundas, modos de vida, modos de existência fecunda ou, pelo contrário, se não estamos a esterilizar, a desvitalizar, a esvaziar as possibilidades de esperança, de futuro, de sonho, de Reino de Deus que a nossa vida pode vir a ter.

Paulo dá-nos um exemplo maravilhoso, naquela carta aos Tessalonicenses, que hoje nós lemos, de facto, uma parte muito preciosa, em que São Paulo diz : “Eu, no meio de vós, quis ser pequeno.”

Então, a primeira coisa é querermos ser pequenos, em vez de querermos ser mestres e doutores, e andarmos com grandes borlas e filactérios e saudações. Querer ser pequeno. Num caminho espiritual, o querer ser pequeno é a atitude fundamental, a primeira atitude.

Os monges diziam isto: como os pregos constroem um navio, juntam as  madeiras dum navio, assim a humildade constrói um cristão.

E há três coisas que constroem um cristão: primeiro a humildade, segundo a humildade, terceiro a humildade. A humildade tem muito má imprensa, hoje em dia. E nós achamos que a humildade nos tira a afirmação justíssima, e legitima do nosso eu,  das nossas ideias. A humildade não, não é nada disso.

A humildade é aceitar o nosso lugar. E é perceber que é fazendo–nos pequenos, que nós ganhamos a capacidade de uma compreensão mais profunda, e não  entramos numa lógica de competição e de rankings nas relações uns com os outros, mas aceitamos ser pequenos para servir, para cuidar. E São Paulo diz, eu fiz-me pequeno no meio de vós.

E depois usa duas imagens. “Eu fui como uma mãe”, isto é, eu cuidei de vós, eu exerci esse cuidado fundamental, e essa é também uma dimensão importante a cultivar. Sermos pequenos mas exercermos o cuidado, em vez da reivindicação e da exigência, nós podermos cuidar uns dos outros e cuidar com verdadeiro afeto porque só cuida mesmo quem se envolve com afeto em relação àquele que cuida. E São Paulo diz esta frase tão forte: “Eu não quis apenas dar-vos o Evangelho de Deus, eu quis dar-vos a minha própria vida.” E as duas coisas estão ligadas. Uma coisa é dar teorias aos outros e outra coisa é desejar dar a nossa vida aos outros. Há uma diferença muito grande.

Por isso há aqui uma qualificação do nosso testemunho, que brilha só quando nós queremos dar a vida aos outros. Não querermos dar lições, não querermos dar moral, não querermos dar caminhos, dar dicas certas. Mas querermos dar até a nossa própria vida, empenharmos a nossa vida na relação com os outros. E isso muda tudo. Muda porque nos hipoteca aquilo que dizemos, porque estamos ali inteiros, porque a nossa vida também passa por ali. Nas coisas pequenas, nas coisas simples, no fazer de uma comunidade que é aquilo que Paulo está a dizer.

E depois, ele fala da imagem da mãe, da cuidadora, e fala da imagem do pai.

Que ao mesmo tempo dá o espaço, e vive no desapego. As nossas relações têm que ser marcadas também por um desapego fundamental, não querermos pesar sobre os outros, termos direitos sobre os outros – isso vale na família, vale na amizade, vale na multiplicidade de relações que nós temos – e ao mesmo tempo, uma influência por uma autoridade natural que nasce do estar, que nasce do conduzir, que nasce do guiar. Mas que nasce porque, na nossa simplicidade, representamos para o outro uma referência, representamos para o outro, um exemplo. Mas, digamos, sem vincar isso. Sem fazer com que o outro se sinta obrigado a nos tomar como exemplo. Na liberdade. Foi esse o testemunho de Paulo. Ele construiu assim a Igreja e é para nós um testemunho muito grande. Senão andamos iludidos que é isto ou aquilo que vai marcar, que não vai marcar. E depois nada marca. E a vida é estéril, e é um baralho de cartas que cai, e é um sopro. A vida é um sopro que se vai embora rapidamente se não construirmos uma coisa que seja eterna. Construamos coisas que não morram!

O que é que não morre? O que é que nós sentimos dentro de nós que não morreu?

Foi quando fomos verdadeiramente amados. Sem mais nada. Sem porquê. Quando fomos cuidados. Sem que tivessem ligado o taxímetro, ou nos apresentassem a fatura, que nos dessem as lições, sem querer dá-las, sem impô-las, sem gritá-las. Aconteceu, eu vi, eu percebi a verdade do outro, eu percebi o que ele estava a dizer, e esse é um exercício também de paternidade, também de pastoreio.

Queridos irmãs e irmãos, é uma responsabilidade ouvir a Palavra de Deus. Porque ela, como diz São Paulo, não é uma palavra humana, é verdadeiramente Palavra de Deus. Mas como é que esta palavra se torna Palavra de Deus e não mais uma entre tantas palavras que nós ouvimos? Torna-se Palavra de Deus porque toca o coração. Torna-se Palavra de Deus porque ilumina, porque resgata o nosso cansaço e nos faz acreditar. É palavra de Deus porque nos mobiliza, porque enche o nosso coração de paz quando a escutamos, mesmo que sintamos que a nossa tarefa é enorme e a nossa conversão é urgente e necessária.

Mas sentimos que há uma paz que nos está prometida nesta Palavra que Deus hoje traz ao nosso encontro.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXXI do Tempo Comum

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