Queridos irmãs e irmãos,

É interessante notarmos na força plástica das imagens que Jesus hoje utiliza: Ele recorre à imagem do sal e à imagem da luz. São imagens muito curiosas porque, tanto o sal como a luz, atuam numa espécie de fusão com a realidade. O sal tem de desfazer-se, deixa de ser sal para tornar aquilo em que ele se desfaz salgado. A luz também é assim, nós não vemos exatamente o ponto da luz, mas vemos a iluminação que ela provoca.

Há assim nestas imagens uma espécie de desafio a nos aproximarmos da realidade, corpo a corpo, pele a pele de maneira que já não possamos olhar como se fosse uma realidade outra, como se fossemos espectadores. Mas estando dentro, sujando as mãos, sentindo que somos uma coisa só. Com o quê? Com o mundo, com a realidade, com a história.

A nossa fé não nos deixa como espectadores da vida, olhando para aquilo que acontece como se o mundo fosse uma realidade estranha à vivência da nossa fé e distante daquilo que Deus pede e espera de cada um de nós. Não, Deus desafia-nos a abraçar o mundo, a abraçar a vida, a abraçar as circunstâncias da história e a sentir que este lugar de contradição, este lugar de desafio, este lugar de luta é também o lugar onde o sal pode ser aquilo que é, pode salgar, e a luz pode ser aquilo que é, pode iluminar. Um cristão precisa de mundo, um cristão precisa de vida, uma fé precisa de concretude. A nossa fé não pode ficar uma realidade abstrata ou uma zona de conforto tão íntima, tão nossa, tão pessoal, tão privada que deixe de exercer um poder transformador.

A nossa fé é chamada a exercer um poder transformador: o poder do amor em relação à realidade. Não podemos ficar, como dizia o Péguy, como aquelas pessoas tão preocupadas por não sujar as mãos na realidade que acabam por ficar sem mãos, sem saber para que é que servem umas mãos. Eu não sei se como cristãos nós sabemos para que é que servem as nossas mãos, para que é que servem os nossos olhos, para que é que servem os nossos ouvidos, para que é que serve a nossa boca, para que é que serve o nosso coração. Para que é que esta máquina humana serve em termos evangélicos, em termos daquilo que o Senhor espera de nós?

Hoje o profeta Isaías e o Salmo 111 que nós proclamamos colocam-nos no centro da nossa atenção a figura do pobre. De facto, o Cristianismo tem desde sempre o desafio de ir ao encontro do pobre. O nosso Cristianismo fica incompleto se não tem uma dimensão social, se não emprestamos à nossa fé uma concretude, um desafio também que se realiza no encontro com os mais pobres, no encontro com o irmão que sofre, no encontro com o irmão que é carente, na pessoa do irmão que passa pelas dificuldades de uma vida.

Ainda estes dias estive fora na Colômbia, conheci lá um escritor, Andrés Felipe Solano, que escreveu um texto muito singular. Ele trabalhava numa revista, tipo Granta, e a revista fez-lhe uma proposta meio maluca que foi ele deixar seis meses a cidade onde vivia e a vida que levava, ir para outra cidade da Colômbia, Medellín, e aí, trabalhar numa fábrica têxtil e viver unicamente com o salário mínimo. Não é que antes ele levasse uma vida rica, os jovens aos 30 anos que escrevem aqui e ali também contam os tostões. Mas se ele tivesse de entrar num táxi não tinha de pensar duas vezes, ou se tivesse de ir comer fora não era um problema, ou se lhe apetecesse comprar um livro ou um disco fazia-o tranquilamente. Mas quando ele se muda para Medellín e passa a viver com o salário mínimo percebe que isso é completamente impossível. E muitas vezes, como ele diz, tem de pensar qual é a coisa que deve escolher: ou comprar lâminas para a barba, ou comprar o remédio para a gripe porque o salário não chega para as duas coisas. Ele diz uma coisa que não me saiu da cabeça desde que a li, ele diz que viver do salário mínimo para a maior parte de nós seria como uma experiência de guerra. Se, de repente, tivéssemos de viver apenas com salário mínimo não sei se nos aguentaríamos. E contudo, temos uma boa consciência em relação ao salário mínimo na nossa sociedade. E muitas vezes são as questões financeiras, a engenharia financeira e económica que pesa, e claro, tudo isso tem o seu peso. Mas não esqueçamos, não percamos de vista a vida das pessoas, a vida dos nossos irmãos mais pobres.

Nesse sentido, a palavra do profeta Isaías é verdadeiramente uma palavra profética: “Se repartires o teu pão com o faminto, se deres pousada aos sem-abrigo, se levares roupa a quem não tem de vestir, se não voltares as costas ao teu semelhante as tuas feridas não tardarão a sarar.” Nós temos de nos perguntar se muitas das nossas feridas, muitos dos nossos dilemas, muitos dos nossos conflitos, muito desta vida que não nos satisfaz também não é fruto de uma vida trancada em si própria, autossuficiente e indiferente àquilo que poderíamos realmente fazer: ir ao encontro dos outros.

Uma coisa que se aprende, por exemplo, na Comunidade de Santo Egídio, e eles são também um texto profético para a Igreja do nosso tempo, é a amizade com os pobres, o valor da amizade com os pobres. Não é apenas fazer assistência social, não é apenas ter o sentido da justiça, isso é o mínimo. Mas é ter amizade com os pobres, cada um de nós conhecer pobres, ter amizade, tratar como da família.

Por isso, uma nota que eu vi que me emocionou também, e temos também de dizer essas coisas, foi a fotografia que ontem o Expresso trazia: o Presidente da República a comer na mesa de um casal de sem-abrigo que refez a sua história. Um Presidente da República não tem apenas de comer nas grandes mesas, nos grandes lugares, ele tem de ir também ao encontro destas vidas últimas. E isso também constituí para nós um desafio a mudarmos muitas vezes as nossas trajetórias e a sermos capazes de nos colocar no lugar dos outros, nos sapatos dos outros, para percebermos a nossa própria marcha, o nosso próprio caminho.

Se o sal não serve para salgar é inútil, ele terá de ser deitado fora. Se a luz não servir para iluminar, porque é que ela é luz? E nós temos com sinceridade, com humildade, mas ao mesmo tempo com confiança e sem descorçoar, também de nos perguntar: o que é que eu tenho feito do meu sal? O que é que eu tenho feito da minha luz?

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo V do Tempo Comum

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