Queridos irmãs e irmãos,

Temos neste passo do Evangelho de Mateus, que hoje lemos, o início da vida pública, da missão de Jesus. Em literatura chama-se o incipit, o lugar onde as coisas começam. A forma como se começa é programática, diz muito daquilo que é a intencionalidade do próprio Jesus. A primeira palavra de Jesus, de certa forma, é o seu programa messiânico, o seu mapa para a ação missionária que Ele vai desempenhar.

Jesus diz “Metanoiete”, a tradução aqui diz “arrependei-vos”, que é uma tradução muito na linha do Antigo Testamento. Mas verdadeiramente, “Metanoiete”, o imperativo grego, quer dizer “Metanoein”. “Metá” quer dizer mudar, ir além e “noein” vem de “nous”, que é o pensamento, a inteligência. “Ide para lá do vosso pensamento habitual, mudai o vosso pensamento, mudai a vossa maneira de pensar, a vossa maneira de julgar.” A primeira palavra de Jesus é este imperativo: “ Mudai a vossa perceção, mudai a vossa compreensão das coisas.” Jesus provoca-nos a uma nova visão da própria realidade. Jesus não vem para somar com aquilo que nós já somos, com aquilo que nós já sabemos, com tudo o que trazemos habitualmente dentro de nós. Jesus não é mais um a somar ao existente. Jesus é tudo isso mas conjugado de uma forma nova, numa atitude nova, com um olhar outro sobre nós próprios, sobre o mundo, sobre o nosso destino, sobre a nossa própria missão.

“Transformai o vosso modo de pensar.” É interessante que nós podemos ler toda a ação messiânica de Jesus a partir deste verbo. Por exemplo, Jesus fez muitas curas, muitos sinais, muitos milagres durante a sua vida pública, e esses milagres, para os doentes a quem essa ação era feita, tinham um sentido literal – os cegos viam, os coxos andavam, os leprosos eram curados. Mas aquela ação de Jesus tornava-se para os outros também uma ação simbólica, também uma espécie de chamamento. E o chamamento era a quê? Era a ver com outros olhos, era a andar de outra maneira, com outra força, com outra vitalidade, de outra forma, era sentir-se purificado de todas as lepras, era sentir-se curado de todos os assediamentos que a morte nos faz. No fundo, é esta transformação vital de nós mesmos que Jesus vem anunciar.

Nós estamos a recomeçar um ano, estamos no terceiro domingo do ano comum, temos um longo caminho pela frente, domingo a domingo, e é importante que sintamos que há algo de novo a começar em nós, que há uma proposta de mudança, uma proposta de transformação que não é feita abstratamente, para o mundo em geral, mas é feita para mim. Eu sou desafiado a ganhar outros olhos, a ganhar uma outra inteligência para olhar-me a mim mesmo, para olhar os outros, para olhar para Deus. É esse o repto de Jesus. Porque Jesus constrói a nossa compreensão do mundo, Jesus constrói uma nova atitude, uma nova arte de ser. Sintamo-nos, por isso, muito desafiados a uma desinstalação.

Para nós cristãos – o Papa Francisco fala muito disso – os nossos grandes pecados acabam por ser a autorreferencialidade. Quer dizer, nós anulamos bastante a força profética, o desassossego destas palavras no conforto de uma religião que é vivida muito pacatamente, vivida como um manual de boas maneiras, como uma ritualidade que no fundo não nos tira do sério, não nos tira o chão debaixo dos pés, não nos põe à prova, não nos faz começar de novo a vida em cada domingo, mas é quase uma experiência de manutenção e não este choque de transformação que nós vemos na palavra de Jesus. Este é o primeiro pecado, uma certa autorreferencialidade, tudo é reconduzido a nós próprios e ao nosso conforto.

Outro pecado é a mundanidade, aquilo que o Papa Francisco chama com esse nome, que é, no fundo, uma cedência ao mundo, uma cedência aos apetites, uma cedência ao consumo, uma cedência ao egoísmo materialista, que não nos faz perceber a palavra de Jesus que diz: “Transformai a vossa forma de pensar, transformai o vosso modo de estar porque o Reino de Deus tornou-se próximo, porque o Reino de Deus avizinhou-se da vossa vida.”

E o Reino de Deus o que é? É a presença de Deus, é a possibilidade de Deus, é a hipótese de Deus que é colocada com toda a força, com toda a disponibilidade na nossa vida. Deus faz-Se presente e nós o que é que vamos ser? O que é que vai acontecer a partir disso? Jesus diz estas palavras e parte para junto do mar da Galileia e ali, junto daquelas vidas, vai chamando e dizendo àqueles pescadores: “Vem e segue-Me.” E eles deixaram tudo para seguir Jesus. Uma mudança de pensamento é isto: é deixar o nosso quadro habitual de resolver a nossa vida para resolvermos a nossa vida com Jesus, a partir de Jesus, a partir do chamamento que Ele nos faz. Este “Vem e segue-me” que Jesus diz àqueles pescadores em específico, não é apenas para eles. A vocação não é apenas pensarmos a vocação do matrimónio, a vocação religiosa, a vocação dos padres. A vocação é a nossa vida, é a nossa existência. Nós temos em cada dia de nos sentir chamados, convocados, porque em cada dia Ele passa pela nossa vida. Claro que há a condição com que vamos viver e dar forma à nossa existência, mas a vida de um cristão é toda ela vocacional, é toda ela vivida como escuta de Alguém que chama por nós.

Se no dia a dia muitas vezes parece que ninguém diz o nosso nome, parece que nada nos chama, parece que apenas a vida nos engole ou que vivemos em modo de voo, em modo de pausa, a verdade é que se estivermos atentos no fundo do nosso coração, na realidade da história, nas suas circunstâncias pequenas e grandes nós vamos ouvir a voz de Jesus que passa pelo mar da Galileia da nossa vida e repete: “Vem e segue-me”. E o que é importante é nós termos aquela disponibilidade que os discípulos tiveram, deixaram tudo para seguir Jesus.

Não tenhamos dúvidas, nós temos de deixar para poder seguir. O nosso mal é querermos compactuar: sim e sim e sim e sim e às tantas, de todos os nossos “sins” não se diz um “sim”, não se diz um “sim” que seja verdadeiro. Os discípulos tiveram de deixar para seguir Jesus e nós também temos de deixar para seguir Jesus. Seguir Jesus implica deixar algumas coisas que para cada um de nós possivelmente são coisas diferentes, possivelmente nem são coisas materiais, não são coisas espaciais. São atitudes, são vícios, são círculos viciosos, são modos – é tanta coisa! São coisas que nos prendem e que no fundo nós temos de deixar para seguir verdadeiramente Jesus. Há uma radicalidade na vivência cristã que nós próprios também temos de experimentar. Um cristão é um cristão. Não é um puzzle de coisas e de valores e de memórias diferentes. Não, um cristão é um cristão.

Está agora nos cinemas este filme de Scorsese,  “O Silêncio”, que adapta o belo romance de Shusaku Endo também com esse nome. É um filme muito rico que dá conversas muito interessantes. Mas uma verdade evidente é que um cristão é alguma coisa que não se consegue apagar. Ali no filme é impressionante que nem no pecado, nem sequer na apostasia, quando pelas circunstâncias históricas, pelo medo por tanta coisa nós negamos Deus, Deus nos nega. Deus não nos nega. O cristão acaba por ser alguma coisa irremovível, o elemento cristão é alguma coisa irremovível dentro de nós. Por isso, mesmo aqueles que são apóstatas podem negar a Deus e negar a Jesus mas verdadeiramente continuam à luta com Jesus, continuam naquele combate sem fim com o desejo de Deus.

Um cristão é uma coisa muito séria e para nós a memória dos mártires e a memória de todos aqueles que nos precederam também nos deve dar o alento para não reduzirmos o ser cristão apenas a uma característica, mas fazermos dessa condição um foco de vitalidade que fertiliza a nossa vida, que nos dá uma criatividade de ser que potencia aquilo que somos, que nos rasga à sede e ao desejo de infinito que nos torna buscadores, exploradores de sentido em cada dia. Ser cristão é um acelerador de partículas. Nós já não estamos mais parados, não estamos mais estagnados. Estamos sempre em movimento, estamos sempre em caminho. Jesus passa pela nossa vida e diz “Vem e segue-Me” e esse é o nosso caminho.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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