Queridos irmãs e irmãos,

As leituras deste dia de Natal reforçam muito a dimensão da visualidade. Nós vemos o próprio Deus, o Deus invisível pode-se tocar, o Deus invisível pode-se ver, o Deus transcendente torna-se próximo, vizinho da nossa vida. Por isso, o motivo da alegria é esse:  Nós vimos! “Todos juntos soltam brados de alegria porque veem com os próprios olhos o Senhor que vem a Sião.” E depois, no prólogo do Evangelho de S. João de novo: “Nós vimos a Sua glória.”

Queridos irmãs e irmãos, o Natal fica incompleto se cada um de nós não vir, se cada um de nós não puder ver, não puder tocar o mistério de Deus. O Natal é a anti-abstração, o Natal é a anti-generalização, o Natal é a singularidade. Cada um de nós com as perguntas que traz, com as questões que transporta, com a situação de vida que vive é chamado a ver Deus. A ver naquele Deus connosco, naquele Menino de carne e osso, naquela criança, naquele Filho que nos foi dado. Cada um de nós é chamado a ver a realização da Promessa e é chamado a compreender um Deus que vem ao seu encontro.

Jesus não vem ao encontro da Humanidade, vem ao encontro de mim, de ti, de cada um de nós. É um convite a esse sentimento profundo de que a nossa vida agora é uma vida acompanhada. A nossa vida agora é uma vida que já não é mais na solidão ou na noite. Como dizia o profeta Isaías: “Ao povo que andava nas trevas surgiu uma grande luz.” É isso, queridos irmãs e irmãos, que hoje nós celebramos. Este Deus que vem para que eu O possa ver, para que com os meus olhos, com a minha carne, com a minha inteligência eu O possa entender, eu O possa acolher no meu coração e sentir que Ele vem para trazer-me o mais precioso dos dons. Esse é que é o grande presente. E é esse presente que S. João enuncia desta forma: “A todos os que acreditam Nele Ele deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” E é isto, queridos irmãs e irmãos, o mistério do Natal. É esta capacidade que Deus dá a mulheres e homens frágeis, imperfeitos, inacabados, inseguros e incertos como nós, a capacidade que Deus em Jesus nos dá de nos tornarmos filhos de Deus. Isto é, de vivermos uma vida divina, de vivermos uma vida que não é só a expressão da nossa carne e do nosso sangue, não é só o nosso bom ou mau feitio, não é só isto que somos e trazemos e repetimos. Não é só isso agora, nós não somos só nós, nós temos o poder de nos tornar filhos de Deus. A cada um de nós é concedido esse poder. Quer dizer, cada vida, cada uma das nossas vidas é ainda mais sagrada. A cada uma das nossas vidas é dado horizonte, é dado infinito, é dada uma capacidade de ser maior do que aquela que só por nós próprios poderíamos contar.

Temos o poder de nos tornarmos filhos de Deus. Isto é, nas pequenas coisas da nossa vida, na multiplicidade dos encontros, nesta teia que nos tece nós temos a possibilidade de ser divinos, de transportar Deus no nosso seio, de dar à luz Jesus como Maria deu à luz, ela que se torna símbolo da própria Igreja. Nós somos chamados a trazer à luz Jesus Cristo, a torna-Lo presente, a contar com essa vida infinita, com essa capacidade infinita de amar. É possível, é possível, é possível. E no fundo, o Natal o que diz a cada um de nós é:

“- É possível, é possível.

– Mas eu já sou tão velho.

– É possível.

– Eu sou casmurro como o boi ou como o jumento do presépio.

– Mas é possível, o boi e o jumento lá estão, é possível.”

É esta possibilidade de uma vida transformada, de uma vida de Deus refletida, espelhada na nossa humanidade que o Natal vem tornar presente a todos os que acreditam, a todos os que têm no seu coração um fio de fé, a todos aqueles que perguntam “Porque não?”, a todos os que olham com espanto e silêncio para o Menino do presépio.

Deus vem dar-nos a possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus e essa é a alegria. É a alegria que hoje nos invade, é a alegria que levamos uns aos outros, é a alegria que é servida às nossas mesas, é a alegria que é servida no nosso abraço, nos nossos votos, nas nossas saudações, nas mensagens trocadas, nos presentes que trocamos. É essa alegria! A alegria de acreditar que é possível, a alegria de vencer o fatalismo da nossa humanidade, da nossa idade, do nosso temperamento, da nossa biografia, da nossa história. É possível, é possível. É essa Boa Nova que torna belos os pés daqueles que a anunciam.

Queridos irmãs e irmãos, um grande dia de Natal, um dia santo de Natal, um dia que torna cada um de nós mais santos. Que nos sintamos instrumentos, canais da santidade de Deus que quer chegar à nossa vida.

“A todos aqueles que acreditam Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus.” Queridos irmãs e irmãos, nós somo-lo de facto, cada um de nós é essa possibilidade, é essa hipótese que o menino do presépio vem inaugurar para cada um de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Natal do Senhor

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