Queridos irmãs e irmãos,

S. Mateus pensou colocar este discurso de Jesus no alto da montanha, onde Jesus está sentado como um legislador. Há claramente a intenção de criar um paralelo entre Jesus e a figura de Moisés, entre a antiga Lei, no Decálogo, nos Dez Mandamentos e a nova Lei com as Bem-aventuranças.

Mas a verdade é que as Bem-aventuranças são mais do que uma lei. Não são apenas uma norma. As Bem-aventuranças são um chamamento, um apelo, a possibilidade aberta de um encontro, mas também um reconhecimento à vida de cada um de nós, àquilo que já é, àquilo que o amor de Deus potencia em nós, àquilo que cada vez mais, progressivamente, se há de manifestar na vida de cada um de nós. Nós somos chamados à felicidade, nós somos chamados à Bem-aventurança.

Mas, se repararmos bem, as Bem-aventuranças são porventura o mais fascinante e exato autorretrato de Jesus. Em cada uma das Bem-aventuranças é como se nós, cristãos, pudéssemos contemplar um traço, uma característica do rosto de Jesus. Porque foi exatamente assim que O vimos no meio de nós. Foi exatamente assim que O reconhecemos. Pobre em espírito, com uma capacidade de acolher a todos, de precisar de todos.

Ainda este domingo nós ouvíamos Jesus a dizer: “Zaqueu! Desce depressa porque Eu preciso de ficar em tua casa.” É esta atitude de Jesus, a atitude de precisar dos outros, de depender dos outros, de abrir o coração ao dom que está muitas vezes sepultado entre as cinzas da esperança da Humanidade. Jesus coloca-se à espera desse dom. Nós vimo-Lo assim pobre, a bater à porta das nossas casas, chamando pelo nosso nome como chamou pelo nome de Zaqueu.

Nós vimo-Lo no meio da multidão. Ele é humilde, humilde e manso de coração. Ele não Se impõe, a Sua voz não se sobrepõe às dos outros, Ele não manda calar. A Sua voz é como a torcida que fumega, é a pequenina luz no meio da floresta do mundo.

Nós vimo-Lo a chorar sobre Jerusalém, a chorar a morte do Seu amigo Lázaro, a chorar a dureza do coração dos homens.

Nós vimo-Lo sedento e faminto de justiça. Nós olhamos para Jesus e encontramo-Lo devorado por uma outra realidade, insatisfeito, inquieto, desassossegado, a querer outras coisas, a desejar mais para cada um, percebendo que o nosso destino não acaba aqui.

Nós vimos Jesus misericordioso. Vimo-Lo deixar todos para ir à procura da ovelha perdida e, quando a encontrou, Ele trá-la aos Seus ombros. Vimo-Lo qual a mulher que procura uma moeda que se perdeu, Vimo-Lo varrer a casa, acender uma luz, vimo-Lo a encontrar a moeda perdida e festeja-la. Vimo-lo à maneira do pai misericordioso tomar a iniciativa de vir ao encontro do filho pródigo.

Nós vimos Jesus puro de coração, puro de coração. O contrário do cinismo, o contrário do niilismo, o contrário do pessimismo, o contrário das reservas, das defesas, da autossuficiência. Vimo-Lo transparente, vimo-Lo autêntico, vimo-Lo simples como uma criança a cada momento.

Conhecemos Jesus como Aquele que constrói a paz, Aquele que derruba murros de inimizade e aproxima corações desavindos. Vimo-Lo sofrer e sofrer de uma forma radical, oferecendo-Se Ele mesmo em sacrifício, de forma radical, por amor da justiça.

De maneira que estas palavras são para nós cristãos, antes de tudo, o retrato de Jesus impresso no nosso coração. Mas são o Seu retrato para nós sabermos como transformar o nosso rosto para nos tornarmos semelhantes a Ele.

O que é a santidade? A santidade é tornar-se semelhante a Deus. E como é que nós nos tornamos semelhantes a Deus, nós que somos poeira e sombra de um sonho que passa? Nós tornamo-nos semelhantes a Deus traço a traço por este guia, este mapa, por este guião que Jesus nos deixou que são as Bem-aventuranças.

É muito interessante aquilo que diz S. João: “Vede com que admirável amor o Pai nos amou em nos chamar Seus filhos e somo-lo de facto.” E depois diz: “Nós veremos a Deus porque nos tornamos semelhantes a Ele.” É quando nos tornamos semelhantes a Deus, quando nos tornamos o retrato de Deus, quando nos tornamos a Sua pegada, o Seu vestígio, a Sua memória, a Sua evocação, o Seu sinal. É aí que nos tornamos semelhantes a Deus e O vemos tal como Ele. Isto é, vemo-Lo por toda a parte, vemo-Lo por todo o lado.

Hoje nós celebramos a festa de Todos os Santos. Quem são? Aquele que vê, o vidente, no livro do Apocalipse aquela multidão de mulheres e homens, aquela multidão que não se pode contar vinda dos quatro cantos da terra, pergunta: “Quem são estes?” O Senhor pergunta a ele: “Quem são estes?” e ele responde: “Senhor, só Tu o sabes.”

Há um poema do Jorge Luís Borges em que ele fala dos justos que estão a salvar o mundo. Conta de um homem que está a ver as provas de um livro e esforça-se por não deixar passar um erro, daquele que cultiva com amor um pequeno jardim, daquele que faz gestos que não se vêem. E ele diz: “Estes justos estão a salvar o mundo mas não sabem.”

A dimensão fundamental da santidade é uma dimensão que nós não sabemos. Porque não se trata de identificar como santo. A santidade é anónima, a santidade não se dá por ela, não se pensa que é santidade. Ou o próprio não pensa, só no coração dos outros é que nasce a pergunta. Quando diziam a Dorothy Day que ela era santa ela dizia: “Não me digam isso! Não me afastem dos outros!” A santidade não é um pódio, não é os primeiros da classe, não são os avançados, aqueles que são colocados à parte, puros. Não, os santos andam a lavar os pés à Humanidade. Os santos andam a carregar os seus pesos, os santos andam a fazer rir, os santos andam a levar o saco das compras, os santos andam mais devagar para ir ao lado dos outros. Os santos falam, os santos calam, os santos cozinham, os santos jejuam, os santos fazem festa, os santos visitam prisões e hospitais. Os santos são os semelhantes a Deus, os semelhantes a Deus.

Queridos irmãos, nós podemos querer ser muita coisa e ter prioridades na nossa vida e metas. E sem dúvida vamos todos ser coisas muito diferentes, vamos sendo e já fomos, e atingindo o patamar das coisas importantes. Isso não interessa. Não tenhamos dúvidas, a única tarefa, a única é mesmo a santidade. A única coisa que conta é a santidade, a única coisa que fica é a santidade, a única coisa que nos é pedida é a santidade, a coisa mais preciosa que nos é oferecida é a santidade.

Por isso, celebremos a santidade na vida de todos os dias, demos valor à santidade. Às vezes damos valor à inteligência, damos valor ao poder, damos valor à riqueza, damos valor à beleza, vamos dando valor a isto ou àquilo e às vezes é um equívoco muito grande. Nós temos de dar valor aos gestos de santidade porque são eles que suportam o mundo e são eles que tornam o mundo semelhante ao coração de Deus.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Todos os Santos

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PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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