Queridos irmãs e irmãos,

É domingo, o Senhor ressuscitou! Como os companheiros de Emaús o Ressuscitado torna-Se companheiro da vida de cada um de nós e, ao acompanhar-nos, Ele ressuscita-nos. Nós que chegamos de tantas mortes, de tanta vida adiada, de tanta incerteza, de tanto dilema, feridos por tantos espinhos, tantas perguntas sem respostas, insatisfeitos talvez com aquilo que vivemos, com aquilo que somos ou aquilo que não somos. O Ressuscitado transforma a nossa vida enche-nos de confiança, de serenidade, de esperança e de paz; e é capaz de transformar o copo meio vazio em copo meio cheio. Isto é, é capaz de transformar a nossa sede em louvor, em ação de graças. Sintamo-nos assim reconciliados, abraçados por este abraço de Deus que Jesus representa. Cada um de nós se sinta muito tocado pela Sua presença, pela Sua palavra e pelo partir do pão.

Queridos irmãs e irmãos, na pregação de Jesus, na exposição da Sua mensagem, Jesus muitas vezes recorreu a parábolas. As parábolas não são apenas histórias simples ou histórias edificantes, as parábolas são um caso muito sério de comunicação e de eficácia de comunicação. Porque as parábolas são, não uma linguagem de reforço que vem reforçar, dizer amém, dizer que sim àquilo que nós já sabemos, à nossa visão normal, comum, das coisas. Pelo contrário, a parábola é uma linguagem de crise.

A parábola vem para destabilizar o nosso quadro de valores e de convenções, a parábola vem para colocar em crise o modo habitual de vermos o mundo, de vermos a nossa relação com Deus, de vermos aquilo que Deus nos pede. A parábola é uma linguagem de choque precisamente para criar em nós uma espécie de sismo, uma espécie de estremecimento, de abalo, que nos retire a excessiva confiança, a autossuficiência do nosso olhar, e nos coloque a apreender, nos coloque como discípulos da lógica do Reino de Deus, que tantas vezes é tão distante da nossa lógica quotidiana.

Nesta parábola Jesus começa de uma forma muito interessante. Jesus diz: “Dois homens subiram ao Templo para rezar.” Muitas vezes Jesus conta histórias de duas pessoas. Por exemplo, a história do Filho Pródigo é, no fundo, a história de dois irmãos. E assim por diante em muitas parábolas. Isso o que é que significa? Significa que Jesus quer explorar duas possibilidades, nós podemos ser uma coisa ou outra, e muitas vezes somos uma coisa e outra. “Dois homens subiram ao Templo para rezar”, e então aparece a distinção: ”um era fariseu e o outro era publicano.”

Quando nós subimos para rezar, quando nós vimos rezar, quando durante a nossa semana nós rezamos, mesmo sem querer, mesmo sem ter consciência disso, nós reproduzimos o nosso modo de ver, nós levamos para a oração aquilo que somos. E, muitas vezes, os preconceitos, os interditos, a cegueira do nosso modo habitual de viver é também o problema que afeta a nossa oração.

Este fariseu está no Templo cheio de à-vontades, como se dominasse completamente o espaço. É muito interessante o modo plástico como Jesus desenha a personagem do fariseu. O fariseu está de pé e fala e tem um longo discurso. Quer dizer, é alguém que está completamente no domínio daquela situação. Muitas vezes na nossa oração nós somos assim: nós chegamos, fazemos e vamos embora porque temos um à-vontade completo e já é quase o piloto-automático que nos leva a mandar em Deus como mandamos em tudo o resto na nossa vida. Falamos e dizemos. Este homem está um bocado assim. O fariseu faz uma oração de ação de graças e é uma oração centrada nele: “Senhor eu Te dou graças por mim. Por não ser como os outros que são ladrões, injustos, adúlteros e dou-Te graças por não ser como este publicano.”

A oração do fariseu é uma oração autorreferencial, tudo passa por ele. É uma oração de exclusão, os outros não entram, pelo contrário, ele tem a sua oração bem blindada. “Senhor, dou-Te graças por não ser nada como este mundo corrupto e perdido e danado e enganador. Eu sou o contrário disto tudo, dou-Te graças por poder excluir todos os demais da minha oração.” Depois, ele explica o que faz. E é, de facto, excecional o que ele faz: “Jejuo duas vezes por semana” – os fariseus piedosos faziam isso. E nós sabemos que não é fácil. Atenção, este homem, objetivamente, tem muitos méritos do ponto de vista da piedade religiosa. Jejuar duas vezes por semana não é nada fácil. Ele jejua duas vezes por semana e mais: paga o dízimo de todos os seus rendimentos. Nem a Lei o obrigava a fazer isso. Quer dizer, ele, na sua devoção, no seu zelo ia além da própria lei. A Lei mandava pagar o dízimo de um certo tipo de mercadorias. Ora, ele por zelo pagava o dízimo de tudo. Quer dizer, era uma pessoa que na prática de piedade, na prática religiosa era um cumpridor, era um fiel, e tinha até um cumprimento acima da média. Mas o problema é: todo esse zelo, toda essa devoção para que é que serve? Para que é que serve? No caso dele, servia para excluir os outros. Servia para dizer aquela célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros.”, “Porque eu sou justo, eu salvo-me sozinho, eu dou-Te graças por estar aqui diante de Ti com as mãos limpas do contacto com toda esta miséria do mundo.”

Ao lado dele, está um homem, uma personagem que é o seu oposto. Enquanto o fariseu está de pé com grande eloquência, este homem está de rastos, nem se atreve a levantar a cabeça para o alto. Quer dizer, está numa atitude completamente diferente: não é aquele excesso de confiança, aquela autorreferencialidade. Mas é precisamente o contrário, este homem sente-se o último, sente-se o mais indigno, sente-se o mais pobre, sente-se o mais pequenino, sente-se completamente dependente da graça de Deus, da misericórdia de Deus. Se não fosse a misericórdia ele nem estava ali, não está ali por direito próprio, para afirmar aquilo a que tem direito, aquilo que ele comprou com o seu zelo. Ele está ali trazendo a sua ferida, a sua lacuna, a sua miséria, a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, aquilo que ele não consegue ser. Então, está de rastos por terra, bate no peito e diz apenas isto: “Senhor, tem piedade de mim que sou pecador.” É interessante que no grego tem o artigo, é “o amartólos”: “Senhor, tem piedade de mim que sou o pecador.” É claro que ele não é “o” pecador, é “um” pecador, mas ele sente-se “o” pecador. Isto é, sente-se o mais pecador dos Homens. Está ali apenas num ato de arrependimento, de contrição, de abertura, de humilhação, de humildade, de humildade perante Deus e perante os seus semelhantes.

No final, Jesus lança a bomba, a bomba àqueles que O escutavam. Jesus diz: “Quem é que pensais que saiu justificado do Templo?” E Jesus não tem dúvidas: o publicano é que saiu justificado. “Porque quem se humilha será exaltado.”

Queridos irmãos, é um desafio muito grande para nós a humildade. Nós ouvíamos na leitura do livro do Ben Sira uma imagem estupenda: “A oração do humilde atravessa as nuvens.” Isto é, a humildade coloca-nos numa verdadeira comunicação com Deus, connosco, com os irmãos. É tão importante a humildade. Os monges diziam: “Como o navio se constrói com pregos, um monge, um cristão constrói-se com humildade.” e que na vida de um cristão há três coisas muito importantes: a primeira é a humildade, a segunda é a humildade, a terceira é a humildade.

Certamente na vida de oração a humildade é fundamental. Porque a humildade descentra-nos, a humildade relativiza-nos. A humildade introduz um dinamismo crítico em relação àquilo que nós não vemos, ao egoísmo, à afirmação excessiva de nós próprios que muitas vezes acriticamente acabamos por impor aos outros. A humildade dá a medida certa da nossa vida. Por isso, os humildes têm um entendimento de Deus que é muito autêntico, que é muito genuíno, que é muito verdadeiro. Porque eles colocam tudo do lado de Deus, colocam tudo do lado da sua graça, do lado da sua misericórdia.
A parábola de Jesus é uma parábola de crise, é uma linguagem de crise porque também nos diz isto: não há direitos adquiridos em relação a Deus, não há direitos adquiridos. Eu não posso dizer: “Ah, eu faço isto, eu faço aquilo então eu posso contar com isto.” Não, não é assim, não é desse modo. Contando esta parábola, o que é que Jesus está a afirmar: está a afirmar a reversibilidade. Quer dizer, nós não podemos achar que é irreversível. Um dos traços mais escandalosos do ministério de Jesus foi precisamente esse. Quer dizer, as pessoas piedosas do tempo de Jesus achavam que um pecador era um pecador e ponto final – é um perdido, já não tem salvação possível. Eles eram as pessoas piedosas, eles estavam a esforçar-se, mas para os outros acabou, para eles não há salvação. E Jesus vai às fronteiras buscar, Jesus vai acolher, Jesus vai mostrar que não há irreversibilidade. Não há irreversibilidade para os pecadores nem há irreversibilidade para os justos.

Nós temos de ter um sentido crítico não apenas para com o pecado, mas também para com a crença, porque às vezes a nossa crença é uma máquina de reprodução do nosso próprio egoísmo. É um clube de gente exclusiva e que exclui os outros da sua vida, do seu coração e que de muitas maneiras vai dizendo: “O inferno são os outros”.

Ora, o que esta parábola de Jesus nos ensina é que é sempre o outro que me torna justo. Nós não somos justos contra os outros, nós somos justos abraçando, incluindo, perdoando, alargando o nosso olhar, colocando as coisas em Deus para que seja Deus e não sejamos nós a tomar a palavra final, a decisão derradeira.

Humildade, humildade, humildade. “Todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXX do Tempo Comum

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