Queridos irmãos, irmãs,

Hoje nós revisitamos uma das histórias mais impressionantes do cânone bíblico. Elas vêm em páginas do Antigo e do Novo Testamento. A primeira é a história do pecado de David, no livro de Samuel. Aparece-nos descrita de uma forma tão literária, tão forte, tão intensa, ao mesmo tempo quase tão moderna que nos vimos completamente refletidos na história do rei David.

É muito interessante porque não se explica bem o que é que se passou com David, diz-se simplesmente: “Na altura em que os reis saem a combate, para as frentes de batalha com os seus homens, o rei David ficou em casa.” Ficou em casa, levantou-se tarde e, em vez de começar logo a trabalhar porque estava atrasado, começou a passear-se pelas ameias, pelos corredores, pelo exterior do seu palácio. E aí viu a mulher de Urias e desejou-a. Depois, ele mandou chamar essa mulher, e a seguir tentou apagar o seu pecado da forma mais terrível que foi mandando matar o seu marido, para não se sentir culpado.

E o que nós sentimos é que o rei David, que a Bíblia chama “o rei segundo o coração de Deus” (isto é, foi um rei preparado, foi um rei tão apoiado pela força de Deus, conheceu tantas vitórias, tantos triunfos, era o rei poeta, compôs tantos salmos), a meio da vida passa por um momento de fraqueza absoluta que nem ele sabe bem explicar o que é que está a acontecer.

Muitos autores lendo esta página, este momento, dizem que talvez seja uma crise da meia-idade, uma depressão profunda que se abate sobre o rei David. Ele que começou muito cedo, que tinha já conquistado tudo o que havia para conquistar, a meio da sua vida ele tremeu. Perdeu o horizonte, perdeu o sentido, entrou numa vertigem interna, numa espécie de desconstrução de si mesmo. E, de facto, de repente tudo aquilo que ele construiu parece que se perdia por culpa dele próprio. Como se ele tivesse tecido a sua vida e agora estivesse a puxar os próprios fios.

Depois nós percebemos que este construir e desconstruir, que este plantar e ao mesmo tempo arrancar, que estas crises são grandes oportunidades para a nossa humanidade se construir. Porque não há vida sem crise, não há vida sem crise. Não há vida sem uma problematização profunda. A nossa vida não é apenas linear, a nossa vida tem sobressaltos, tem momentos que nos fazem estremecer, tem coisas que não conseguimos bem explicar como é que entramos aí. Tem avalanches e bolas de neve que nós próprios criamos, problemas que se adensam e de repente, sem darmos conta, somos ultrapassados por eles, e parece que tudo aquilo que construímos se perdeu.

Lendo a história do rei David nós perguntamos: mas como foi possível? Um homem como o rei David? Um homem assim, como é que cai daquela maneira? Ele que era o primeiro, ele que era o rei justo, como é que manda matar um soldado fiel para ficar com a mulher dele? É um crime horrível, é alguma coisa que está para lá de toda a moral, de toda a ética. Como é que o rei pôde cair assim? É verdade que há quedas assim, nem todas têm de ser, graças a Deus, tão terríveis como a da vida do rei David mas todas têm essa dimensão de crise, de problematização da vida, de tempo de interrogação, de tempo diferente que muitas vezes se abate sobre o nosso percurso. Parece que somos outras pessoas a viver outra vida, com outros valores, com outra moral. Parece que vivemos uma vida de exílio, uma vida ao contrário daquela vida autêntica que até aí tínhamos vivido.

Contudo, esse momento que parece um momento completamente disruptivo pode ser também um momento para experimentar, no abismo da vida, experimentar a graça. Porque o pecado leva o rei David a experimentar a humildade, uma humilhação, a reconhecer a sua pobreza, a sua miséria. Ele que era um rei poderoso agora vê-se um homem pecador, um homem pecador diante de Deus.

Quando o profeta Natan faz este processo com o rei David para ele revisitar a sua história e reconhecer-se na parábola que ele conta – o profeta Natan vem-lhe contar aquela história de um homem que tinha uma ovelhinha só, ao lado de um rico que tinha tantas, mas quando o rico recebe um hóspede ilustre manda matar a ovelha daquele que tinha só aquela e a amava como uma filha para banquetear o rico – o rei David fica furioso a dizer: “Esse homem merece a morte” e o profeta diz-lhe: “Esse homem és tu, esse homem és tu.”

Tantas vezes nós próprios achamos que merecemos a morte, tantas vezes nós próprios achamos que não merecemos já ser amados, tantas vezes nós achamos que não merecemos já a esperança, tantas vezes nós achamos que a vida já não é para nós e que nós merecemos todo o castigo, que nós merecemos ficar para trás, que nós merecemos a tristeza, merecemos o peso que carregamos. Este encontro do profeta que vem anunciar a palavra de Deus ao rei David é um encontro que torna o irreversível em reversível. Quando David cai em si o profeta diz-lhe: “Tu não morrerás, o Senhor perdoa o teu pecado.”

Esta é a experiência mais extraordinária da fé, é a experiência mais extraordinária. É nós percebermos que não há uma fatalidade, nós não estamos condenados à fatalidade, e que a nossa vida não é irreversível. Deus torna o irreversível, reversível, Deus consegue purificar o rei David daquele crime hediondo. Deus consegue recuperar a nossa vida, a nossa história, Deus consegue levantar-nos do pó, Deus consegue dar-nos uma outra oportunidade, Deus consegue fazer-nos renascer. Esta experiência de misericórdia, esta experiência de reversibilidade é a experiência fundamental da fé. Porque Deus não apenas nos criou uma vez, mulheres e homens, Deus cria-nos continuamente. Neste momento, neste instante, Deus está a criar-nos, está a recriar-nos, está a dar-nos uma nova oportunidade, está a amassar-nos de novo, está a fazer-nos sair dos nossos lutos, das nossas perdas, dos nossos pecados, da nossa noite. Deus está a fazer-nos sair, está a levantar-nos e é essa a ação de Deus em nós.

É isso que nos encontramos escrito de forma tão inesquecível no encontro daquela pecadora anónima com a pessoa de Jesus. É muito belo porque normalmente é Jesus que toma a iniciativa, é Jesus que vai ao encontro, é Jesus que toca, é Jesus que fala, é Jesus o protagonista da ação. Aqui Jesus é completamente passivo, aquela mulher vem de fora, traz um perfume, entra como intrusa na casa daquele fariseu. E aninha-se atrás de Jesus e começa a beijar-lhe repetidamente os pés, a chorar e a lavar-lhe com as suas próprias lágrimas os pés, a secar com os cabelos; e Jesus deixa, Jesus deixa. É importante nós sentirmos isto: que Deus deixa, deixa que coloquemos junto a Ele a nossa dor, o nosso fracasso, a nossa história problemática, os nossos dilemas. Deus deixa, Deus deixa que nós coloquemos. Reparem, a mulher não diz uma palavra, não diz uma única palavra, não diz nada. Mas o que ela diz é tão forte através das suas lágrimas, através do perfume, através da plástica do seu corpo. O que ela diz é tão forte, ela conta a sua história por inteiro e Jesus deixa ela contar.

Jesus aceita, aceita, aceita e transforma aquela história num novo início, num novo começo. Porque no final Jesus diz: “ Vai em paz, vai em paz.” E é esse encontro que cada um de nós celebra com Jesus. Enquanto não tivermos chorado aos pés de Jesus nós não descobrimos que Jesus tem pés. Enquanto não derramamos lágrimas sobre Ele, nós não descobrimos dimensões de acolhimento, de hospitalidade que Jesus tem para connosco. Este momento da mulher pecadora é um momento de grande descoberta de quem é Jesus.

Por isso, nós descobrimos Deus cumprindo os mandamentos, nós descobrimos Deus procurando ser boas pessoas, nós descobrimos Deus procurando ser bons cristãos. Cumprindo os nossos deveres, fazendo o melhor que está ao nosso alcance, transcendendo-nos a nós mesmos. Mas, nós conhecemos Deus sendo a ovelha perdida, sendo a moeda perdida, sendo o filho pródigo, sendo esta mulher inominada e pecadora. A nossa fragilidade também nos oferece um conhecimento de Deus porque Deus é misericórdia, porque Deus é amor, porque Deus é aquele que diz ao nosso coração “Tu não morrerás, tu não morrerás.” Quando tudo nos condena Jesus diz: “ Tu não morrerás.” E levanta-nos. Quando a Lei nos condena, quando a lei interior nos condena, quando a lei do mundo nos condena, Deus ainda dá ao homem a possibilidade de renascer, a possibilidade de ser. Desta máquina de misericórdia que é o coração de Deus é que nós temos de receber alimento, é aí que nós temos de colocar o nosso coração.

Por isso, confiança, confiança, confiança. Temos de confiar, temos de acreditar. Temos de acreditar que é possível e temos de nascer de novo, a cada momento da nossa vida. Porque Deus é misericórdia, porque Jesus, como diz S. Paulo na Carta aos Gálatas, é “ O novo princípio vital: já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Porque nós somos justificados, somos transformados, somos creditados não numa lei mas num encontro de misericórdia e de amor que Jesus representa, e está sempre pronto a representar, na história de cada um de nós.

Vamos rezar pelos nossos itinerários, vamos rezar pelas nossas crises, e sobretudo por aqueles de nós que atravessam momentos mais dilemáticos da sua própria trajetória. Vamos rezar por eles para que esses momentos sejam momentos de abertura, momentos de confiança, momentos para se lançar por inteiro aos pés de Jesus, momentos para renascer, momentos para ouvir no seu coração: “O teu pecado está perdoado. Tu não morrerás.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XI do Tempo Comum

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