Queridos irmãs e irmãos,

Neste Ano Santo da Misericórdia nós somos desafiados a pensar no que é a misericórdia. A misericórdia está profundamente associada à experiência do perdão. Um perdão recebido, acolhido, até ao fundo de nós – sentirmo-nos abraçados pelo amor do Pai. E ao mesmo tempo um perdão oferecido, um perdão dado. Em cada Ano Santo, na tradição de Israel, era o momento em que se absolviam as dívidas, todas as dívidas ficavam perdoadas. Era um grande momento de amnistia e era uma espécie de recomeçar de novo.

A misericórdia também é isto, é recomeçar de novo. S. Gregório de Nissa dizia que “A nossa vida é uma sucessão de começos.” E há nesta frase uma sabedoria espiritual imensa que nós precisamos de recuperar para cada um de nós. Porque se vivemos ligados unicamente ao fio do passado, nós facilmente ficamos sequestrados pelo ajuste de contas, pelas coisas que não ficaram bem resolvidas, por aquilo que fizemos, por aquilo que não demos, por aquilo que não nos deram e a nossa vida torna-se um diálogo com uma floresta de fantasmas.

O passado é passado. Por isso, é tão importante ouvirmos hoje o que disse o profeta Isaías, e o que nos diz S. Paulo, que é dizer assim: “Vamos esquecer o passado, vamos esquecer, deixar para trás o passado.” Ou como diz S. Paulo: “Eu estou numa corrida.” Ele utiliza a imagem do atletismo no tempo das maratonas do mundo helénico, do qual Paulo foi um viajante, um morador. Ele diz: “Deixando o que está para trás eu atiro-me para a frente para poder chegar à meta.” E este gesto de deixar é um gesto espiritual prioritário. Nós temos de deixar, temos de fazer cair, temos de esquecer.

Dentro de nós somos muito rezingões e temos de continuar a pleitear e a disputar: “Ah, porque é que não aconteceu assim, porque é que não foi desta maneira, porque é que não foi daquela? E por isto e por aquilo.” Deixa, deixa. Temos de deixar, foi o que foi. Se nós estamos sempre a esburacar no passado perdemos o futuro, perdemos a possibilidade de acolher a novidade da graça que nos transforma. Deixa, deixa. O julgamento do passado não é a coisa mais importante, ao contrário daquilo que pensamos, não é coisa mais importante. O importante, o mais importante é esta oportunidade de vida que o Senhor concede a cada um e que nos pede que concedamos a nós próprios e uns aos outros.

Eu hoje vou começar de novo, não vou viver agarrado ao passado mas vou sentir-me consequência do futuro. O peso no coração de um cristão não é o peso do passado mas é o peso leve daquilo que está para vir, daquilo que está para chegar. Daquilo que Deus quer fazer, quer inaugurar, quer recriar dentro de nós. Essa é a nossa amarra principal. Senão, nós vamos ficar completamente presos a um passado que não nos salva, que não liberta. Há um passado que amarra, há um passado que condena e não damos a abertura, não damos o salto que a fé nos pede para recomeçarmos agarrados, confiados, à misericórdia de Deus.

No evangelho de S. João esta mulher, apanhada em adultério, está para ser julgada, para ser condenada por todos. Gera-se ali um movimento de condenação daquela mulher. Nós sabemos como são as lógicas de grupo, quando nós nos juntamos para condenar alguém não há remissão possível, porque vence esta lógica totalitária do juízo fácil que condena. E Jesus devolve a questão: “Quem de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.” Então, o que é que Jesus faz? Pede a cada um para fazer o exercício de entrar em si mesmo, entrar na sua própria vida, olhar para a sua própria condição, que é uma coisa que nós ignoramos tanto, ignoramos tanto.

Com facilidade julgamos os outros disto e daquilo, e esquecemos o que vai dentro de nós, aquela que é a nossa realidade vital. “Quem de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.” E eles, um a um, vão–se afastando, sem condenar a mulher. E Jesus pergunta à mulher: “Filha, ninguém te condenou? Também eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar.” Esta é a palavra da misericórdia: “Vai, e não tornes a pecar.” Isto é, dar uma nova oportunidade, dar uma nova oportunidade. A vida de cada um de nós, a vida dos outros, que no fundo dependem de nós, da relação connosco, precisa muitas vezes disto, de uma nova oportunidade. E se nós, viciados no passado, feridos pelo passado, recusamos dar essa oportunidade aos outros, nós perdemos os outros e perdemo-nos a nós mesmos. E a nossa vida torna-se muito mais um cemitério, e a gestão das perdas e dos ferimentos e daquilo que não foi, e não rasgamos a nossa vida ao futuro de Deus. “Vai e não tornes a pecar.” Isto é, sente que a vida é de novo colocada nas tuas mãos.

Queridos irmãos e irmãs, nós temos muitas vezes de esvaziar as nossas mãos, esvaziar o nosso coração para que a vida os torne a encher. Às vezes, o que trazemos são queixas, são ressentimentos. Uma vida mal-amada é o peso insustentável do que não aconteceu, do que não foi. Deixemos, deixemos, deixemos. Façamos realmente esta conversão, esta transformação que é uma abertura de coração. Quer dizer, fujamos à tentação de julgar, à tentação de condenar. Mas procuremos a oportunidade, procuremos o começar de novo. E, dentro de nós próprios, procuremos o esquecimento.

Nós sabemos que, em relação ao perdão, muitas vezes o esquecimento é impossível, nós não conseguimos esquecer. Até porque são feridas tão grandes, realidades tão grandes que mesmo que nós quiséssemos não conseguíamos esquecer. O perdão não é esquecer, mas o perdão ajuda a esquecer. O perdão é acreditar que a lógica do amor é superior à lógica da violência, a lógica da resposta. É dar ao outro não o que ele merece mas aquilo que está no coração de Deus, é acreditar no amor em si, ponto final. É acreditar no valor da reconciliação em si mesma, ponto final. E depois, viver assim, viver assim. E aos poucos, quando nós vivemos dessa maneira, nós percebemos que já estamos livres, já estamos desprendidos. Isto é, não estamos ainda agarrados a um passado, a discutir, a dialogar com uma coisa que aconteceu há vinte anos e nós ainda estamos a discutir com isso. Ou que aconteceu há setenta anos, e ainda estamos presos àquilo. E perdemos o hoje, perdemos o aqui e o agora, perdemos a oportunidade da graça que nos é dada, que nos é dada.

“Vai e não tornes a pecar.” Que cada um de nós sinta esta palavra motivadora de Jesus na sua vida e cada um de nós possa dar esta palavra uns aos outros. Este é um exercício da misericórdia.

Queridos irmãs e irmãos, aquela visão maravilhosa do profeta Isaías que vê uma nova terra, que vê uma realidade transformada, que vê como é possível um reflorescimento, uma revitalização, seja de facto uma palavra para cada um de nós. O nosso coração não tem de ser um inverno gelado, cada vez mais gelado, impecavelmente um inverno. O nosso coração é chamado a um degelo e o degelo é a misericórdia. O fim do inverno e a chegada da primavera, isso é misericórdia. Aprendamos, trabalhemos o desprendimento interior, a liberdade interior.

O espírito dá-nos liberdade interior. E é muito difícil, é um ponto muito exigente da nossa vida esta liberdade interior, esta liberdade de coração. Penso que ela só vem num caminho espiritual quando nos colocamos na dependência de Deus, quando suspendemos o nosso juízo e entregamos tudo a Deus. Custa-te perdoar? Entrega a Deus, deixa ser Ele a gerir. Custa-te uma coisa do teu passado? Entrega a Deus, deixa ser Ele a gerir e não penses mais nisso. Custa-te uma relação com uma pessoa? Entrega a Deus, não penses mais nisso. É este entregar e este libertar-se, este desprender-se interiormente, que permite que a nossa vida passe a uma revitalização, passe a um começo, a um recomeço. E como precisamos disso neste tempo de quaresma, neste Ano Santo de Misericórdia, como precisamos da arte de recomeçar. Mesmo quando até a nossa vida parece que está toda bem, parece que tudo flui, parece que é só alegria, só louvor.

Todos nós precisamos de recomeçar, sempre, em alguns aspetos da nossa vida. Por isso, abramos o nosso coração com confiança ao Senhor, e como diz S. Paulo belas palavras na Carta aos Filipenses: ”Só penso numa coisa, esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, lançar-me para a frente. Continuar a correr para a meta em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.” O nosso prémio não é daqui, não é daqui. Às vezes o nosso erro é querer ter já o prémio, o nosso prémio não é daqui, o nosso prémio é dado lá do alto, por Cristo Jesus.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo V da Quaresma

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