Queridos irmãs e irmãos,

Um dos verbos mais utilizados em toda a Bíblia é o verbo escutar. Desde o início o Povo de Deus, do qual nós somos expressão, se pensou a si mesmo como comunidade de escuta. Se alguma coisa nós fazemos, se alguma coisa nos representa verdadeiramente é este ato que estamos aqui juntos a realizar de auscultação, de escuta daquilo que Deus nos diz. E abrimos o nosso coração, e dispomos o nosso corpo, e organizamos o nosso tempo, e juntamo-nos uns aos outros numa assembleia heterogénea mas fraterna para vivermos este acontecimento da escuta.

Nós precisamos de escutar, cada um de nós precisa de escutar. Precisa de calar as vozes, calar o ruído, calar os embaraços interiores que muitas vezes são uma cápsula de desesperança à nossa vida e nos blindam num silêncio que não é vida. Precisamos de deixar cair essas paredes interiores e nos colocarmos à escuta, à escuta daquilo que Deus nos tem para dizer. Este gesto é um gesto que nos identifica, é um gesto que nos diz quem nós somos, e é um gesto no qual continuamente nos reencontramos. Podemo-nos perder mil vezes mas a Palavra de Deus é a nossa âncora, é o nosso porto. Escutamos esta Palavra e sabemos quem somos.

O Povo de Deus, quando foi para o exílio, perdeu o Livro e perdeu a tradição da leitura comunitária do Livro, da sua escuta. Quando Jerusalém é reconstruída, no tempo de Neemias e de Esdras, pela primeira vez o Povo se junta passado o exílio para escutar a Palavra de Deus. E é um momento, como ouvimos, de comoção extrema: o Povo chorava porque reencontrava naquela palavra a possibilidade de ser. Porque viver não é apenas somar dias ao calendário, viver é encontrar sentido para aquilo que somos em cada instante. Viver é acreditar, viver é apaixonar-se por uma razão, por uma determinada experiência daquilo que é a própria vida. E isso é a palavra de Deus que acorda em nós. Ao escutar aquela palavra o Povo de Deus sabia que a vida não é só silêncio, que a vida não é só ausência. Mas que na vida, na existência, na história nós experimentamos a vinda de Deus, a relação que Deus estabelece com o nosso coração. E isso foi uma revitalização para o próprio Povo.

Queridos irmãos, este momento também nos revitaliza, também nos emociona, também nos toca. Porque nós sentimos (cada um sentirá à sua maneira) porque Deus coloca no nosso coração a palavra que nós precisamos, mas cada um de nós sentirá que Deus fala, que Deus vem ao nosso encontro, e que esta Palavra, que nós mantemos como nosso património comum, não é apenas uma bela palavra que sobrevoa a nossa história. Mas esta Palavra é a nossa massa, é a nossa argamassa, esta Palavra constrói-nos, esta Palavra faz-nos ser a cada instante.

Jesus também viveu como membro do Povo de Deus. Viveu em Sinagoga, isto é, viveu em comunidade de escuta, em comunidade de leitura e de escuta da palavra. Andava por várias sinagogas, e naquele dia foi também à sinagoga da sua terra e, cheio do Espírito Santo, leu a Palavra de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu.” E depois enuncia a missão messiânica, que é confiada ao Messias e a todo o Povo do Messias: “O Espírito do Senhor está sobre mim para anunciar a boa nova aos pobres, para proclamar a redenção aos cativos, a vista aos cegos, para restituir a liberdade aos que estão oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.”

E depois, quando Jesus fechou o livro, todos os olhos se colocaram Nele. E aquela Palavra, que é ao mesmo tempo uma Palavra de revelação, foi também naquele momento uma Palavra de escândalo, porque aqueles auditores não estavam à espera do que Jesus vai dizer. Mas Jesus diz: “Hoje cumpriu-se esta Palavra.” E quando Jesus diz isto ensina-nos a ler a Palavra de Deus. E a Palavra de Deus deixa de ser apenas uma palavra para ser escutada. Nós vimos aqui para escutar, mas nós vimos aqui também para dizer: “Hoje cumpriu-se esta palavra que escutámos, hoje cumpriu-se. Cumpriu-se em mim, cumpriu-se no segredo de mim, no silêncio de mim, mas também na motivação, na inspiração que eu passo a transportar. Mas cumpriu-se esta Palavra.”

Porque todos nós sentimos que esta Palavra nos torna missionários, nós torna apóstolos, nos torna enviados, esta Palavra responsabiliza-nos. E escutarmos juntos esta Palavra é uma responsabilidade que nos une, que nos fraterniza a todos, nos torna irmãos de todos, mas também irmãos de todas as mulheres e de todos os homens. Esta Palavra dá-nos uma arte de viver, dá-nos um modo de ser, de atuar, torna-nos especialistas de humanidade assumindo esta missão neste Ano Santo da Misericórdia, assumindo esta missão da misericórdia: anunciar uma boa palavra, uma boa noticia aos pobres; proclamar a redenção aos presos, de tantas prisões; restituir liberdade; fazer ver, dar vista aos cegos; proclamar a misericórdia do Senhor. Que cada um de nós, queridos irmãs e irmãos, se sinta muito empenhado em cumprir, em dar corpo, no fundo, a cada uma destas palavras, com aquela criatividade, com aquela fantasia que a misericórdia, que a caridade de Deus inspira em nós, desafiando-nos a ser protagonistas desta Palavra.

Jesus começou a Sua vida pública em Nazaré, segundo o relato do evangelista Lucas, precisamente lendo a Palavra e acreditando que ela se cumpre. E o primeiro apelo que a escuta da Palavra nos faz é esse: que nós acreditemos que esta Palavra é uma possibilidade concreta e empenhada nas nossas vidas. Não é uma palavra inacessível, não é uma palavra impossível de realizar, é uma palavra que abre o nosso coração, que nos enche de força, de fortaleza para podermos fazer aquilo que está ao nosso alcance, que é sempre o Deus nos pede. Deus não nos pede coisas impossíveis, Deus pede-nos o difícil, o exigente, o hábil, o possível. O pequeno gesto, aquele que está à nossa mão, aquele que está ao nosso alcance, aquele que cabe nas nossas palavras, aquilo que cada um de nós pode fazer, é isso que Deus nos pede. E Deus pede-nos em ordem ao amor, em ordem à relação.

  1. Paulo conta a consequência de uma comunidade que escuta a palavra do Senhor: é uma comunidade que aceita por um lado a pluralidade, a diversidade, e por outro lado a complementaridade. É preciso fazer essa descoberta da paixão pela diversidade mas também pela coexistência, mas também pela capacidade de nos sentirmos complemento uns dos outros, sentirmos que a missão de uns e o dom de uns é uma riqueza para o outro. Por isso não podemos descartar ninguém, não podemos excluir ninguém. Mas temos verdadeiramente de viver inclusivamente.

Saiu agora uma obra de um grande académico norte-americano, Michael Walzer, que escreve do ponto de vista da teologia política. Faz uma leitura da Bíblia. É um tema importante porque, no fundo, trata-se de saber em que medida é que um texto sagrado tão fundamental como o texto judaico-cristão, que é o nosso, é um instrumento a favor da paz. É um instrumento que não é um motor de guerra mas é uma forma de colocar as mulheres e os homens do mundo inteiro ao lado uns dos outros, confiando uns nos outros. E ele, que se diz ateu e faz uma leitura do ponto de vista científico, muito objetiva, da Palavra, diz esta coisa espantosa, de forma deslumbrada com a Bíblia: “Aquilo que nós aprendemos na Bíblia é isto: há várias teologias, há várias doutrinas dentro da Bíblia. E não quer dizer que não exista até a tentação da supremacia, a tentação da violência ou a tentação do nacionalismo que exclui os outros. Mas, no final, na versão final da Bíblia o que é que nós vemos? Vemos que não se escolhe uma teologia apenas, mas deixam-se várias teologias. Não se escolhe um ponto de vista único sobre Deus e sobre o homem, mas nos livros diferentes há tons diferentes, sublinhados diferentes, há modos diferentes de dizer.”

Por exemplo, a Igreja das origens não escolheu um evangelho único, isto é uma coisa espantosa! Havia vários evangelhos, mas a Igreja podia dizer: ”Não, nós só queremos um evangelho. Só queremos João, só queremos Lucas, não queremos confusões, não queremos várias vozes a contar coisas diferentes. Não queremos isso queremos um só.” Não, a Igreja escolheu quatro precisamente para dizer como a polifonia é importante. Nós precisamos de várias vozes, precisamos da complementaridade. E, no fundo, se há algum caminho para a paz, se há algum caminho para a misericórdia é este. Nunca vamos ter todos a falar a uma única voz, todos a dizer o mesmo, todos num caminho único, mas vamos criar pontos de convergência.

De facto, essa imagem que Paulo usa é uma imagem extraordinária: “nem todos têm de ser pé, nem todos têm de ser braço, nem todos têm de ser ouvido, nem todos têm de ser olho.” E, contudo, nós precisamos de pé, de braço, de todos. Precisamos de todos e levar isto no coração, esta necessidade de todos. Dizermos: “eu preciso de todos, eu preciso de todos.” E perceber como esta diferença me enriquece.

Na primeira leitura ainda há dois aspetos que me parece são também desafios para nós. Um é a consagração do tempo. O sacerdote diz ao Povo emocionado pela escuta da Palavra: “Lembrai-vos que hoje é um dia consagrado ao Senhor.” Um dos nossos deveres como cristãos é também consagrar o tempo, tornar o tempo consagrado ao Senhor. E isso está nas mãos de cada um de nós. Como é que nós santificamos o tempo? Estamos aqui juntos, este é um momento de santificarmos o domingo. Mas também podemos encontrar outros gestos de tornar santo o domingo, como as obras de misericórdia. Visitar os doentes, ir ao encontro dos pobres, falar aos esquecidos, dar de comer aos famintos, vestir os nus, acolher, ouvir, aconselhar. No fundo, ser um dia dedicado, consagrado à tarefa messiânica da vida, ser um dia consagrado àquilo que o Espírito Santo sugere a cada um de nós.

Queridos irmãos, nesse sentido lutemos também contra uma cultura que torna tudo igual. O tempo, a semana, os dias parecem um open space mais ou menos sem grandes mudanças. Não, cada um de nós tem de emprestar um cunho próprio ao domingo, que é um dia santificado. Então, cada um de nós tem de dar ao domingo um cariz diferente. Porque é um dia em que descansamos mais, em que cuidamos da nossa própria humanidade, em que relaxamos do ritmo em que vivemos, em que respiramos de outra forma. Tudo isso é importante. Mas que seja também um dia para o dom, um dia para o encontro, um dia para a relação, um dia espiritual. Porque uma das nossas missões é verdadeiramente essa: de sentir que tornamos o tempo um templo, fazermos do tempo um templo.

E outra mensagem que a leitura nos deixa é, de facto, o dever da alegria. O Santo Padre, o Papa Francisco, quando acaba o Angelus, já se tornou uma espécie de refrão, ele diz sempre: “ Buon pranzo e buona Domenica.” Bom almoço e bom domingo. É interessante, e até pode parecer estranho: “então o Papa a desejar bom almoço?” É uma coisa que normalmente não se espera.

Mas é isso que encontramos no Livro do profeta Neemias quando ele diz: “Ide para casa, alimentai-vos, fazei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. “ Isto é: “Bom almoço, bom almoço.” Isto é, experimentai a alegria. A alegria das coisas que nos alimentam, não são só comidas doces, há tanta doçura no mundo que nos alimenta. “Alimentai-vos, regozijai-vos, experimentai a alegria.” É muito importante, queridos irmãs e irmãos, sentirmos a alegria como um dever, como um dever nosso. Não é apenas uma eventualidade para a nossa vida. Podemos estar, ou não, mais chouchinhos ou mais entusiasmados. Não é isso. Nós temos o dever da alegria. E esse dever é um dever que em cada domingo sai reforçado, sai fortalecido.

Queridos irmãs e irmãos, estamos a começar o ano e, de certa forma, as leituras estão a mostrar-nos o caminho, as atitudes fundamentais. Como é que vamos viver este ano? E, de facto, viver em escuta, cumprindo a Palavra, tornando-a um caminho na nossa vida, aceitando que temos de crescer, aceitando as incitações que domingo a domingo, dia a dia, Deus faz a cada um de nós. Crescer com isso, criar um programa pessoal, familiar, de amigos, de comunidade, como depois também vamos ter para viver este Ano Santo da Misericórdia para que seja, de facto, um empenho de todos. E como diz a leitura: que a alegria do Senhor seja a nossa fortaleza.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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