Queridos irmãs e irmãos,

O Santo Padre está, como sabemos, a realizar uma visita apostólica ao Continente Africano, visitando três países : começou pelo Quénia, passou pelo Uganda e agora chegou à República Centro-Africana. Um pequeno país, com cerca de cinco milhões de habitantes, mas completamente devorado pela violência e, em grande medida, uma violência e uma perseguição de natureza religiosa. O Santo Padre recebeu múltiplos avisos e sinais para não se deslocar àquele país, dizem que é a visita mais perigosa de sempre de um Papa, mas ele arriscou e, esta manhã, chegou já à República Centro-Africana.

Estamos a falar dessa visita porque o Santo Padre decidiu antecipar o gesto de abertura do Ano Santo numa semana. Pela primeira vez, a Porta Santa, a primeira Porta Santa a ser aberta, não será como é tradicional, a porta da Basílica de S. Pedro, mas será a porta da Catedral de Bangui, capital da República Centro-Africana. De maneira que, de certa forma, com esta antecipação é também o Ano Santo que começa. Começa, não no centro da cristandade, não no centro simbólico, mas numa periferia. E numa periferia cheia de complexidade, ferida pelo maior sofrimento. Ali há uma porta que se abre.

E nós, cristãs e cristãos, começamos a viver este Advento sob o signo do Ano Santo, sabendo que no coração deste Advento começa o Ano Santo, o Ano da Misericórdia. É-nos oferecido precisamente este símbolo: o símbolo de uma porta, de uma porta que se abre. É importante, cada um de nós sentir que esta porta que se abre na Catedral de Bangui, na Basílica de S. Pedro, que se vai abrir na Sé Patriarcal de Lisboa, esta porta antes de tudo tem de se abrir no coração de cada um de nós. É na nossa vida, é no fundo da nossa alma, é no concreto escaldante da realidade que somos e vivemos que uma porta se tem de abrir.

Temos de abrir uma porta onde possivelmente está um muro, temos de abrir uma porta onde possivelmente tudo está barricado, temos de abrir uma porta onde está o silêncio, onde está o vazio, onde está a solidão. Temos de abrir aí uma porta.

O tempo do Advento deste ano é por isso um grande desafio a cada um de nós a abrir uma porta para Aquele que vem, para Aquele que bate à nossa porta, segundo a belíssima imagem do Livro do Apocalipse: “Eis que Eu estou à porta e bato, se alguém me abrir Eu entrarei, cearei com ele e ele comigo.”

É fundamental, queridos irmãs e irmãos, que cada um de nós sinta isso, que Jesus está à nossa porta e bate, que este é o tempo da nossa libertação, que esta é a oportunidade concedida à nossa vida, que o tempo do Advento que nos prepara para o Natal é uma espécie de alavanca da nossa humanidade. Deus vem ao nosso encontro para que nós possamos ir ao encontro de Deus.

Deus humaniza-se para que a nossa vida se divinize um pouco mais. Para que cada um de nós receba, na sua carne humana, nesta vida de argila, de barro, de sangue, de sonhos, de lágrimas, para que cada um de nós receba com mais intensidade o sopro do Espírito. Esse Espírito que vem de Deus e vem do Filho que está junto do Pai, esse Espírito que em nós testemunha que Jesus está vivo, que Ele caminha connosco, esse Espírito que em nós nos prepara para o grande encontro com Cristo. Este tempo do Advento, sendo uma oportunidade, é por isso um tempo muito espiritual.

Nós, atravessando as ruas da cidade, entrando num centro comercial, já encontramos o Natal feito. E, sem dúvida, sentimos mixed feelings, sentimo-nos divididos. Por um lado, ainda bem que a cidade dos homens e que o comércio dá atenção a estas coisas e perpetua os símbolos cristãos. Mas, por outro lado, aquilo é tão pouco se não for acompanhado por um caminho de humanidade, de consciência, de um abrir de portas, de um abrir de portas mais profundo que a simples reativação ou intensificação do comércio.

O tempo do Advento é, por isso, para nós, uma responsabilidade. É um tempo de profundidade, um tempo de intimidade com Deus, um tempo para crescermos interiormente, um tempo para acender uma luz, e também ficar a olhar e preparar o nosso coração para Aquele que vem. Um tempo de esvaziamento, não um tempo para encher de todo o ruído simbólico. É um tempo de disponibilidade para acolher o Deus que vem.

Pensando nesta porta que cada um de nós é chamado a abrir, eu diria que temos de encontrar uma porta em três níveis da nossa vida.

Primeiro: encontrar uma porta na nossa relação com Deus, abrirmos a porta. Às vezes Deus está perto, mas está do outro lado da porta. Tem de haver uma porta que se abre na nossa espiritualidade, e abre-se porque nós sentimos aquilo que hoje o Evangelho nos diz: sentimos a promessa de Deus como uma promessa que nos é feita.

É muito belo porque, desde o profeta Jeremias até ao Evangelho de S. Lucas, todos falam no futuro, todos fazem uma promessa: “O Senhor vem ao teu encontro, levanta os teus olhos, levanta a tua cabeça porque o tempo está próximo, porque o Senhor vem ao teu encontro.” Quer dizer, há uma promessa de vida feita a cada um de nós.

A nossa vida não está capturada pela fatalidade. Eu não posso dizer: ”Bem, agora já não vai acontecer nada de novo, agora estou perdido, agora já sei como é, agora isto já perdeu toda a graça, agora já perdeu todo o mistério.” Não, a nossa vida é sempre cheia de graça, a nossa vida é sempre visitada pelo mistério. Nós somos visitados por anjos como Maria foi visitada, nós somos seres visitados pela promessa incondicional do amor de Deus na nossa vida.

Por isso, o tempo do Advento é também um tempo para nos sentirmos visitados, prometidos, prometidos à alegria, prometidos ao encontro, prometidos à plenitude e não simplesmente prisioneiros de uma vida rasa, de uma vida medíocre, de uma vida afundada nas suas complicações que já não vai levantar voo nunca. Não, nós vamos levantar voo, nós vamos levantar voo. E vamos levantar voo precisamente na medida em que abrirmos a nossa porta a este encontro com Deus.

Por isso o imperativo de Jesus: “Vigiai e orai.” Este tempo do Advento seja para cada um de nós um tempo para vigiar. Vigiar é um tempo para a atenção, para olhar verdadeiramente porque Deus passa pela nossa vida todos os dias, de tantas formas. O problema é que nós ao fim do dia, ou a meio do dia, não perguntamos mais vezes: como é que Deus hoje passou pela minha vida? Através de que pessoas? Através de que acontecimentos? Através de que pensamentos? Deus passou de forma muito concreta, muito viva, pela minha vida.

Nós temos de fazer esta pergunta porque Ele passa, Ele passa continuamente pela nossa vida e quando passa não nos deixa iguais, transforma-nos se nós abrirmos a porta.

Portanto, dedicarmos a Deus uma atenção, uma vigilância espiritual, termos o nosso coração iluminado, deixarmos uma luz acesa dentro do nosso coração ao Deus que vem.

E depois, a oração. Este é um tempo para multiplicarmos a oração, a oração em família. Por exemplo, juntamente com as crianças, junto do presépio, em cada noite, poder fazer um caminho até Jesus. E cada um de nós, mesmo vivendo sozinho, encontrar com a ajuda dos símbolos uma forma de fazer um caminho na oração, em que rezamos com as palavras tradicionais, com palavras novas, com gestos. Com símbolos encontrarmos uma forma de fazermos um caminho juntos, crescendo na oração.

Nós também aqui, em comunidade como é habitual, com a ajuda do artista plástico Rui Aleixo, vamos fazendo esses caminho em cada domingo do Advento: temos uma imagem e temos uma oração para rezarmos aqui e rezarmos ao longo da semana. Este caminho é um caminho em, que dia a dia, nós construímos o presépio, construímos o lugar para Ele vir, abrimos a porta do nosso coração. Mas sobretudo através da oração, que é aquele momento que nos dá a consciência de que estamos diante de Deus. Eu mulher, eu homem, eu criança, eu doente, eu sénior, eu com saúde, eu ativo, eu na reforma, eu estou diante de Deus. Diante de Deus com a minha pobreza, a minha esperança, eu estou diante Dele. Por isso abro as minhas mãos, abro o meu coração, abro a porta da minha vida.

Depois, uma porta importante para abrir é a porta connosco mesmos, a porta com a nossa vida. Sentirmos que a palavra que Jesus diz, “Levantai-vos, erguei a nossa cabeça”, é uma palavra para nós que muitas vezes ficamos a olhar para os nossos sapatos, quando não a olhar para o nosso umbigo, em vez de abrirmos a porta, em vez de abrirmos uma janela, em vez de olharmos mais longe. Este é o tempo para levantarmos a cabeça.

Isto é, para sentirmos que a esperança é maior, que o chamamento de Deus é maior, que a força de Deus é maior. E se estendermos a nossa mão frágil, se pusermos a nossa mão frágil do outro lado da porta a mão de Deus virá ao nosso encontro.

Sentirmos isso na vida de cada um de nós, e sentirmo-nos chamados ao acolhimento, sentirmo-nos protagonistas desta história. Nós não somos espetadores da Salvação, nós somos artesãos, criadores, artífices, coprotagonistas da Salvação. A Salvação escreve-se com as nossas vidas, com os nossos nomes, com o nosso temperamento, com as oportunidades que cada um de nós tem, e sabe quais são. A Salvação escreve-se aí.

Por isso, este tempo é um tempo também de agitação, é um tempo também para fazer alguma coisa, é um tempo também para sacudir rotinas, é um tempo também para cada um de nós fazer um pouco mais do que aquilo que faz, sabendo o essencial, não perdendo de vista o essencial, que é sempre a verdade mais profunda, que é sempre a autenticidade, que é sempre o abraço que nós sentimos que Deus nos dá e que nós somos chamados a dar aos outros. Porque a terceira porta que nós temos de abrir é esta porta para os outros. Sentindo que a nossa vida é não só uma obra dos outros, mas nós somos dom para os outros.

Nós estamos aqui, queridos irmãs e irmãos, à volta da Eucaristia. A Eucaristia é uma forma sacramental de dizer isto: “A vida é dom.” Nós servimos de alimento aos outros, nós somos o pão que os outros comem, nós somos o vinho da festa que os outros bebem, nós somos a palavra que segura a vida dos outros e é como um fio de luz na noite escura da vida. Nós somos isso uns para os outros e é quando a nossa vida é pão partido, que se distribui e se reparte, que a nossa vida se torna expressão da vida de Jesus, que a nossa vida também se torna Eucaristia.

Queridos irmãos, nós não estamos aqui em Eucaristia, não estamos a começar este tempo belíssimo do Advento para sermos pão que fica no saco e endurece de um dia para o outro, nós estamos aqui para ser dádiva, para aprender de Jesus o que é tornar a nossa vida dom.

O tempo do Natal, tradicionalmente, é um tempo de presentes, é um tempo de pensar nos outros. É muito importante pensar na forma dos presentes e naquilo que os presentes significam, dando, de facto, um sentido. Porque é tão fácil entrar na corrida, é tão fácil entrar no movimento cego, no tráfico sonâmbulo que o comércio nos impõe. O que quer que se venha a fazer, o que quer que cada um sinta no seu coração, qualquer que seja o modo de cada um exprimir o seu afeto, o seu dom, é importante que seja profundo, que seja autêntico, que seja iluminado por Jesus – que seja um abrir de porta, porque às vezes os presentes funcionam como fechar a porta: “Olha, toma lá e não me chateies. Toma lá, e já está. Toma lá e já cumpri a minha obrigação anual.” ou então “Toma lá e dá cá.” Abrir realmente uma porta, escancarar esta porta da misericórdia, neste Ano Santo.

Não podemos esquecer isso: este Advento tem de ser marcado pela palavra misericórdia, por aquilo que a misericórdia significa. Porque Jesus nasceu porque Deus teve misericórdia de nós e deu-nos o que Ele tinha de mais precioso: o Seu próprio Filho. Este Natal cada um é chamado a abrir uma porta santa na sua vida mas fazendo misericórdia, oferecendo misericórdia. Fazendo da misericórdia a nossa arte, a nossa ciência, a nossa sabedoria.

Pe. José Tolentino Mendonça, I Domingo do Advento

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