Queridos irmãs e irmãos,

A aproximação do final do ano litúrgico, que se conclui no próximo domingo com a festa de Cristo Rei, lembra-nos uma verdade que muitas vezes, engolidos pela experiência do tempo, nós esquecemos. Essa verdade é que a experiência cristã é também uma experiência apocalíptica.
Isto o que é que quer dizer? Quer dizer que a experiência cristã olha para o mundo enquanto construção, enquanto representação – esta construção e esta representação que nós conhecemos como provisórias. O cenário do mundo é passageiro. Isto é, tudo aquilo que nós vemos, que nós construímos, que nos serve como lei, como regra, como norma, como cultura, tudo isso tem uma dimensão provisória.

É como se vivêssemos nas verdades penúltimas. E depois, haverá as verdades últimas. Quer dizer, este cenário do mundo, esta ordem do mundo, tem de se confrontar com a verdade definitiva, com o Absoluto, com aquilo que não passa. Esse confronto, esse diálogo do provisório com o Absoluto, é um diálogo que faz estremecer o provisório, que mostra a insuficiência do provisório. Mostra como as nossas obras, as nossas construções, aquilo que nos apaixona, aquilo que nos parece a coisa mais importante e mais prioritária, muitas vezes é relativizado por uma outra ordem, essa sim mais importante.

A verdade é que nós no dia a dia esquecemo-nos muito disso e vivemos como se este formato do mundo fosse para sempre, como se as construções que vemos fossem durar eternamente, como se a nossa cultura, os nossos hábitos, passassem a ser uma regra para todos os homens de todos os tempos e de todas as gerações, e não é assim.

Muito daquilo que nós hoje absolutizamos é absolutamente provisório e será superado, será transformado. Porque isso tem a ver com as coisas penúltimas. E é o confronto, sempre necessário, com a verdade última, com a finalidade última, com aquilo que é eterno, que dá um verdadeiro sentido e uma verdadeira dimensão àquilo que nós vivemos, àquilo que nós somos, àquilo a que nós aspiramos.

Nesse sentido, o Cristianismo é, não apenas foi, uma religião apocalíptica. Porque ele não olha para aquilo que hoje nós temos e aquilo que hoje nós somos como definitivo – isso está em superação, isso será criticado, renovado, reavaliado, no encontro com o Eterno. Ser cristão é saber também isso, é olhar para o mundo, olhar para o presente, olhar para nós próprios, para o nosso próprio mundo, para o nosso próprio presente, e não perder uma dimensão crítica.

Isto é, perceber que isto é o que pode ser agora, ou isto é o que temos agora, mas nem sempre será assim. O último juízo, o último olhar, a última validação, a definitiva, será de Deus. E isso dá-nos um sentido de humildade muito grande. Eu não posso viver a absolutizar as coisas, tenho que manter o sentido do provisório, o sentido do crítico, o sentido da humildade. Sabendo que é assim agora mas poderá ser de outra forma. É o que eu penso, mas eu tenho que me submeter ao juízo de Deus e ao pensamento de Deus. É agora a Lei universal mas só Deus verá, só Deus decidirá o que é que há de restar de tudo isto que agora nós somos e nós vemos.

Para nós cristãos, o critério último de validação é aquele que Deus nos dá na pessoa de Jesus Cristo. Jesus, a sua vida, torna-se o critério da eternidade. Por isso é que nós vemos esta linguagem apocalíptica que diz: “Tudo cairá, tudo soçobrará, o sol já não será o sol, a lua já não será a lua, já não receberemos a luz, as estruturas do mundo todas se alterarão, virão os anjos de Deus e alterarão aquilo que nós vemos de uma forma radical, colocando tudo em causa.” É uma linguagem simbólica muito forte para dizer isto: o nosso presente, o nosso instante precisa ser criticado, iluminado pelo eterno.

Nós temos de construir uma vida que não seja uma vida fechada, trancada, intransigente na sua própria lógica, como se nós tivéssemos a vida na mão, como se nós fossemos os decisores finais. Não somos. Temos de fazer uma vida que ao mesmo tempo não seja uma vida cínica. Isto é, nós não vivemos no mundo desacreditando no mundo, nós não vivemos não gostando da vida, não gostando dos outros porque o nosso coração está noutro lado. Não é isso. Nós amamos a luz do mundo, nós amamo-nos uns aos outros, nós queremos construir alguma coisa com sentido. Sabemos que o Reino começa a ser vivido aqui, mas também sabemos que a chave do sentido não está na nossa mão. Sabemos que a estrutura do mundo é provisória nas suas formas, e sabemos que o último juízo, a última palavra, é a Palavra de Deus.

E isso, a começar por nós próprios, dá-nos uma liberdade muito grande, um desprendimento muito grande. Olhamos para o mundo sabendo aquilo que depois S. João há de lembrar, repetindo o dito de Jesus: “ Nós estamos no mundo mas não somos do mundo.” Este estar e não pertencer completamente, não coincidir completamente, obriga-nos a uma dimensão profética, a uma dimensão crítica em relação ao que temos, em relação ao que somos, em relação ao que fazemos no próprio tempo.

Mas viver criticamente o presente, abrir-se à alternativa de Deus, abrir-se ao juízo de Deus perceber que nós habitamos o tempo do fim leva-nos a duas coisas fundamentais que hoje as leituras também nos lembram.

Primeiro, leva-nos a um centramento na pessoa de Jesus. Nós estamos a ler, domingo a domingo, a Carta aos Hebreus que é um texto político muito forte, muito contundente e que diz, no fundo, o seguinte: Cristo é a superação da ordem política, da ordem religiosa, da ordem social, cultural como nós a conhecíamos. Jesus supera, Jesus é a própria alternativa ao que nós absolutizamos.

Isso obriga-nos também a deixar cair tanta coisa, a relativizar tanta coisa. Porque Jesus não apenas superou o Sacerdócio antigo, Jesus vai sempre à frente. Isto previne-nos da tentação de às vezes aprisionarmos Deus na nossa lógica, capturarmos Jesus – nós é que sabemos o que Deus pensa, nós é que sabemos o que Jesus julga. Não, nós não sabemos e o que sabemos é que Ele supera, que o juízo de Deus é sempre maior que o nosso.

Nesse sentido, nós crentes não nos substituímos a Deus. Ser crente não é ser dono de Deus, é ser um servidor humilde, é ser um enamorado de Deus, é ter a paixão, sentir o amor em si. Adorar quer dizer amar muito, mas amar não é prender, não é limitar Deus. Pelo contrário, é com a nossa pobreza, colocando-nos a nós próprios no lugar, ampliarmos o amor de Deus, ampliarmos a misericórdia de Deus.

Nós estamos às portas de começar o Ano Santo da Misericórdia, e um dos apelos do Papa Francisco tem sido esse continuamente: “A Igreja não pode ser um funil para a misericórdia de Deus.” Nós não podemos afunilar a história e as vidas dos outros numa lógica muito certinha, muito racional, muito prudente mas onde não se faz a experiência da misericórdia. Nesse sentido, é preciso cada um de nós deixar nas relações uns com os outros, na forma como estamos na vida, como estamos no mundo, como estamos perante nós próprios, Deus ser Deus.

Tu, cristão, deixas, permites que Deus seja Deus? Permites na tua vida, no teu comportamento, na tua maneira de falar, de julgar, de reagir aos acontecimentos? Permites que Deus seja Deus? Ou te colocas tu no lugar de Deus como se soubesses, como se esgotasses o pensamento de Deus?

Ora, a misericórdia, o Ano Santo da Misericórdia, pedem que olhemos para Jesus como Aquele que ultrapassa, como aquele que supera. Mas também como Aquele que nos supera. A misericórdia de Cristo é maior que a minha misericórdia. Seria terrível se a misericórdia de Cristo se esgotasse na pequenina, na ínfima provisão de misericórdia que eu trago. A sabedoria de Deus é maior do que a minha sabedoria. Seria uma tragédia absoluta se eu representasse a sabedoria de Deus, ou se eu pretendesse isso.

Aceitar que Jesus nos supera, que Jesus é maior que o nosso coração, que é maior que as nossas palavras. Isso obriga-nos a uma contenção, a uma liberdade muito grande e à liberdade mais difícil que é a liberdade face a nós próprios – face ao nosso eu, às nossas certezas, aos nossos tiques. Ganhar essa liberdade e perceber: Cristo é maior, Cristo é maior e eu tenho de me confiar a Ele, tenho de aceitar que Ele me supera, que Ele vai à minha frente. Tenho de ser discípulo, não mestre de Jesus, tenho de ser Seu discípulo – vivermos aceitando que Jesus nos supera.

De certa forma, aceitar que o Espírito Santo é maior do que a Igreja, que o mistério de Deus é maior do que aquilo que nós sabemos acerca Dele – essa é a verdadeira dimensão mística – e percebermos que somos servidores da sua compaixão, servidores da sua misericórdia.
Um segundo aspeto, que nos lembra o profeta Daniel. É dizer “Num tempo em que a provisoriedade, a fragilidade, a vulnerabilidade do mundo se acentuam.” (e nós olhamos para o nosso mundo e percebemos isso), o que é que está a emergir com esta violência toda? É a insuficiência do mundo, é a sua ferida, é a sua dor, é a sua guerra, é o seu desencontro, é a sua incapacidade de fazer pontes, é a sua loucura. Mas num tempo como este qual deve ser a nossa atitude? A que é que cada um de nós é chamado? O profeta Daniel lembra-nos o chamamento fundamental dizendo: “Os sábios resplandecerão como a luz no firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.”
Então, o que é que nos é pedido? Uma grande sabedoria, uma grande sabedoria. Este tempo que nós vivemos, um tempo tão difícil, com desafios tão exigentes, com cenários tão contraditórios, tão paradoxais, este é o momento de sabedoria. Não é o momento para perdermos a cabeça, mas é o momento para arrumarmos a cabeça, é o momento para fazermos um verdadeiro discernimento espiritual, é o momento para nos firmarmos naquilo que é importante, é o momento para buscarmos uma prudência que não é só nossa mas também vem de Deus.

Uma verdadeira sabedoria total, que não é apenas a sabedoria que a ciência, que o conhecimento nos dão, mas é também uma sabedoria humana, uma sabedoria espiritual. Este é o momento em que o mundo precisa de homens sábios, de mulheres sábias que no pequenino da vida, no pequenino da história e no grande, possam apontar caminhos de sabedoria.

Os caminhos de sabedoria que sejam ensinar a muitos o caminho da justiça. É essa capacidade de transmitir: transmitir valores, transmitir esperança, transmitir este sentido profundo de uma justiça que sem a caridade é sempre incompleta, fica sempre aquém da sua missão. Mas aqueles que souberem transmitir e ensinar uma justiça assim, esses permaneceram na eternidade como estrelas acesas no céu.

Queridos irmãs e irmãos, o cenário do mundo é passageiro. O mundo é agitado por uma violência muito grande. Nós sabemos que o mundo, na sua construção, é provisória, e tem de ser criticado por aquilo que é eterno, que é o que Deus nos mostra, este amor radical que Deus nos mostra na vida de Jesus Cristo.

Mas é-nos confiada uma missão, e essa missão resume-se bem nas palavras que hoje Daniel nos lembra: vivermos com sabedoria, procurarmos uma sabedoria do alto para a nossa vida. Não ficarmos a reagir apenas às nossas emoções, procurarmos uma verdadeira sabedoria e ensinarmos a muitos uma justiça que seja verdadeiramente justa, transformadora, iluminadora do mundo.
Porque, aquilo que nós fazemos com amor, aquilo que nós investimos de amor, de sagueza, de fraternidade, isso não é abalado, isso não passa, isso é o princípio da eternidade que nós colocamos no aqui e no agora da turbulência do mundo.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXXIII do Tempo Comum

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