Queridos irmãs e irmãos,

Se fizéssemos aqui como se fazia na catequese à antiga, que era uma espécie de exame de resposta rápida, e perguntássemos quantos são os mandamentos, eu acho que não havia dúvida, todos passávamos ao exame e dizíamos: “Os mandamentos são dez.” Mas se nos perguntassem quantas são as bem-aventuranças, eu não sei se nós conseguíamos ter aqui uma maioria que passava ao exame. E se nos perguntassem mais, se nos perguntassem “Então diga quais são as bem-aventuranças?”, aí então a dificuldade seria maior.

Isto diz muito de um desacerto, de um desencontro, porque as bem-aventuranças são a página mais importante do Evangelho. Santo Agostinho dizia que era o Evangelho breve, que era a síntese de todo o Evangelho. E não faltam, na tradição cristã e não só, autores que dizem: “As bem-aventuranças são o resumo de tudo.” É o resumo de toda a justiça, de todo o amor, de tudo aquilo que um cristão é chamado a fazer. Gandhi, que não era cristão, apaixonou-se pelas bem-aventuranças quando estudava e disse que se se perdesse toda a literatura do Ocidente e apenas permanecesse esta página das bem-aventuranças nós tínhamos o fundamental de tudo aquilo que foi dito, foi escrito, foi buscado, foi sonhado de melhor pela própria Humanidade.

Contudo, dá-se este caso: nós, católicos, sabendo isto, não fazemos da bem-aventurança o programa da nossa vida. E a palavra “programa” é uma palavra muito exata, porque as bem-aventuranças são o programa da vida de Jesus e são o programa da existência cristã. Lendo cada uma destas bem-aventuranças (a pobreza em espírito, a humildade, a capacidade de chorar com os que choram, o ter fome e sede de justiça, a misericórdia, a pureza de coração, a obra da paz, a construção da paz, a capacidade de sofrer por amor da justiça, de ser insultado em vez de insultar, de ser perseguido em vez de perseguir, de dizer a verdade mesmo em seu prejuízo, mesmo que outros mintam a propósito de nós) nós percebemos que cada uma delas desenha o rosto de Jesus.

As bem-aventuranças o que é que são para nós? São a biografia de Jesus, a autobiografia de Jesus. Nós vemos Jesus a viver, Jesus a agir, Jesus a ser. E quando Jesus nos diz “Se tu quiseres estar comigo, se tu quiseres ser cristão faz uma coisa: toma a tua cruz todos os dias, e segue-Me”, nós dizemos “Mas isto é uma coisa muito abstrata”.

O que é que é seguir Jesus? Como é que isso se faz de forma concreta? Como é que eu me oriento? Que mapa, que guia, eu posso ter? Que lei? Que decálogo? Que norma? Que código eu posso escrever, não na frieza da pedra, mas no ardor do meu coração? O que é que eu posso tatuar dentro de mim?

Não tenhamos dúvidas, as bem-aventuranças são aquilo que nos ensina no quotidiano, no dia a dia, nas pequenas e nas grandes coisas, nos momentos definitivos e nos momentos provisórios, precários ou ordinários. Aquilo que verdadeiramente nos guia, a mão estendida de Jesus no concreto da nossa vida, são as bem-aventuranças.

Por isso era tão importante que cada um de nós as redescobrisse e que esta festa de Todos os Santos fosse para nós um desafio muito grande a ir procurar as bem-aventuranças. Na versão de S. Mateus, que nos dá a versão mais completa, são oito bem-aventuranças. O decálogo são dez mandamentos, mas as bem-aventuranças, a Palavra de Cristo, o resumo daquilo que Cristo nos pede são oito coisas, oito bem-aventuranças.

Era importante cada um de nós as ter escritas, escrever. Uma proposta seria cada um de nós, nesta semana, escrever pela sua própria mão as bem-aventuranças, copiarmos, fazermos uma cópia das bem-aventuranças. E pouco a pouco, as rezarmos, as decorarmos, fazermos delas as metas da nossa vida, as metas que dia a dia nós procurássemos que fossem conformadoras da mulher e do homem que nós somos, e pouco a pouco sentíssemos que elas eram a nossa inspiração, que elas são a nossa vida.

Não é por acaso que as bem-aventuranças são oito. S. Mateus, que escreve talvez o Evangelho mais judeu, mais hebraico, porque o escreve num momento em que no interior do Judaísmo se empurrava para fora os cristãos, dizendo “Vocês não são judeus, vocês são uns judeus muito atípicos por isso não podem estar na Sinagoga”, escreve o Evangelho a explicar o que é o Cristianismo também para os judeus. Nesse sentido, todos os números que nos aparecem no Evangelho de S. Mateus não são apenas números, são símbolos, é a guemátria. Quer dizer, os números servem para dizer verdades simbólicas, servem para estruturar de uma forma iniciática o próprio caminho.

Porque é que as bem-aventuranças são oito, na versão de S. Mateus? Porque Jesus ressuscitou no oitavo dia. O oito, para nós, é o símbolo do Tempo Novo, do Tempo Pascal. Depois do Tempo, abre-se um outro tempo: o tempo da vida ressuscitada, da vida levantada pelo próprio Deus, da vida garantia pelo próprio Deus contra toda a morte que nos sitia, toda a morte que nos ameaça. Então, são oito as bem-aventuranças, sinal que há uma época nova da história que se abre com elas.

Bismarck, com o seu sentido prático, dizia que com as bem-aventuranças não se consegue conduzir um país. Eu não sei se se consegue ou não conduzir um país, mas sei que se consegue conduzir uma vida, conduzir uma existência, conduzir um modo de viver, conduzir um estilo de viver.

Nesta festa de Todos os Santos o que é a santidade para nós? Podemos pensar ”A santidade é uma coisa muito distante, é uma coisa muito bela mas também muito inalcançável, muito inatingível.” Não, a santidade é a coisa mais quotidiana que existe, é a coisa mais banal que existe, é a coisa mais trivial que existe. A santidade, todos nós a praticamos, todos nós a passamos uns para os outros.

O que acontece é que nós valorizamos tantas coisas na vida, mas não valorizamos o modo humilde, o modo escondido, o modo simples como a santidade, que é uma contaminação da vida de Deus em nós, do espírito das bem-aventuranças em nós, passa de uns para os outros. Como é que cada um de nós, chamado por Deus a ser santo, há de concretizar isso nas suas vidas? Não com o desejo de ser santificado ou canonizado, não é isso. Não é que eu quero ser modelo para os outros, não é isso, mas é procurar tornar a minha vida próxima da vida de Cristo, semelhante à vida de Cristo. Aquilo que S. Paulo dizia: “Escondermos a nossa vida com Cristo, em Cristo.” O ser cristão é isso.

Na Carta de S. João, S. João usa a palavra semelhança e diz assim: “A meta da nossa vida é tornarmo-nos semelhantes a Deus.” Como é que isto se consegue? Vivendo numa tensão, numa abertura permanente, num processo de renovação, de purificação, de transformação interior. Mas o objetivo não é ficarmos como estamos, é tornarmo-nos semelhantes a Deus, é passarmos para uma outra ordem da realidade. Porque Cristo fez-se homem para divinizar o humano, para tornar o humano capaz de Deus. Cada um de nós é capaz de Deus. Capaz de imitar, capaz de se tornar semelhante, capaz de expressar, capaz de ser a boca de Deus, as mãos de Deus, o olhar de Deus, a presença de Deus no meio do mundo. E isso acontece pelo caminho prático, pelo caminho simples das bem-aventuranças.

Vamos hoje fazer este compromisso de descobrirmos as bem-aventuranças, cada um de nós descobrir as bem-aventuranças. Está no capítulo 5 de S. Mateus. Abrir o capítulo 5, copiar as bem-aventuranças, ler as bem-aventuranças, decorar, mas sobretudo viver. Mais importante do que o decorar é viver. Porque esta é de facto a nova Lei, que não é uma Lei mas é uma inspiração para as nossas vidas.

Que esta pobreza de espírito, de coração, que esta humildade, que esta capacidade de chorar com as dores dos outros, a compaixão, que esta fome e sede de justiça, isto é, com o não nos conformarmos com a forma do mundo, mas o desejarmos um mundo melhor, um mundo transformado, mais justo, que esta prática da misericórdia, sermos misericordiosos uns com os outros, que esta pureza de coração, que esta promoção da paz, que esta capacidade de sofrer por aquilo que acreditamos por amor a Jesus seja de facto uma realidade na nossa vida.

O Karl Rahner, que foi um dos maiores teólogos do século XX, dizia “É errado dizermos que somos cristãos. Isso é errado porque parece que já está tudo feito, já está tudo acabado. Nós desejamos ser cristãos, nós estamos à procura, estamos a tentar ser cristãos.” E, no fundo, isso é uma grande verdade para nós. Nós estamos aqui, não para celebrar aquilo que já somos, aquilo que já trazemos, estamos aqui num processo, num caminho, somos a Igreja peregrina, a Igreja que caminha.

E o que é a Igreja peregrina? É a Igreja constituída por mulheres e homens que, na vida de todos os dias, não desanimam, não desistem. É a Igreja corpo de pecadores, que não desistem de acreditar, não desistem de aprofundar. Caindo não desistem de levantar-se, rompendo não desistem de religar, afastando-se, estando afastados de Deus, não desistem de voltar a Ele, um dia. Isso é a Igreja a caminho, a Igreja peregrina.

Que o espírito das bem-aventuranças seja como esta chuva benigna que cai sobre nós e alaga de esperança e de amor as nossas vidas.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Todos os Santos

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