Queridos irmãs e irmãos

É com muita alegria que estamos aqui a celebrar a Eucaristia e a viver este momento da nossa comunidade. Eu quis celebrar aqui de uma forma explícita os 25 anos do meu ministério.
Por um lado, porque todos precisamos do amor uns dos outros, do afeto uns dos outros e de ser reconhecidos pelo olhar uns dos outros. Precisamos disso, e um padre também precisa. Mas também para podermos juntos assinalar o que é o lugar do padre, de qualquer padre, no meio da sua comunidade.

Isso é também muito importante porque ao celebrar o padre, o pai da comunidade, aquele que testemunha a comunhão, é a própria comunidade que se celebra a si mesma: a sua vocação, a sua missão, a sua natureza, o seu lugar. Ela que é uma comunidade que se constrói, que é uma comunidade de perdão, de escuta, de aprendizagem, é importante que também seja uma comunidade de festa, um lugar onde a alegria se celebra com muita simplicidade e com muita naturalidade.
Eu agradeço a Deus este ministério para o qual Ele me chamou. A vocação de cada um de nós é a forma que cada um tem de expressar o seu maior amor. E a mim o Senhor chamou-me para desta forma expressar e viver o meu maior amor, com aquilo que viver o amor significa de paixão, de encantamento, de sofrimento, de dor e delícia. É assim que o Senhor me chamou. E o Senhor continua fiel a cada um de nós, Ele chama cada um de nós, porque a Igreja não vive de um ministério só, senão ela é muito pobre. A Igreja vive na diversidade, na riqueza, na complementaridade dos ministérios.

É importante dizer que um padre é um homem feliz, é importante testemunhar que um consagrado pode viver uma vida de grande plenitude, de grande consciência e de grande plenitude. E não por mérito seu, mas por aquilo que Deus dá, pela forma como Deus é fiel. Deus é fiel à sua palavra, à sua ternura, na vida de cada um de nós, de uma forma para lá do que nós esperamos, do que nós contamos. Deus é fiel, e é isto que gostaria de testemunhar à vida de cada um de vós: Deus é fiel, podemos acreditar no Seu amor. Deus é credível na forma como nos ama, na forma como acompanha a vida, a pobreza de cada um de nós. Deus é credível, e por isso cada um de nós pode verdadeiramente confiar Nele.

Vinte cinco anos depois da minha ordenação eu penso que há duas coisas fundamentais que aprendi e que são as lições do meu meio da vida.

A primeira tem a ver comigo próprio, e não é orgulho mas é aquele entendimento que cada um de nós vai fazendo na sua vida, que é assim: Deus não quer que eu seja um padre a imitar outros padres. O que Deus me pede é que eu seja um padre a partir do que sou, a partir da minha originalidade, pelos dons que Ele me deu. Não me deu outros, e por isso eu tenho é que por a render aquilo que sou.

Acredito profundamente que Deus quer-nos cristãos originais, que cada um tem, de facto, a sua originalidade. Não há dois cristãos iguais, não há dois padres iguais. E essa diversidade é uma riqueza muito grande, que expressa a grande riqueza do povo de Deus e do amor de Deus. Nesse sentido, a maturidade é quando não temos medo de ser nós próprios. Somos, ou procuramos ser, com humildade mas também com naturalidade aquilo que somos. Porque aquilo que somos traz alguma coisa de único, porque Deus criou-nos assim, e único para a comunidade.

Nesse sentido, estes 25 anos também foram uma aprendizagem de que vale a pena ser eu próprio, vale a pena em cada lugar dizer o que penso, vale a pena em cada lugar não esconder a minha sensibilidade, a minha forma de sentir, de ver, o meu temperamento. Mas tenho é de expressar aquilo que sou, e viver, e perceber que esse é que é o contributo que eu posso dar à Igreja, que eu posso dar em nome de Deus.

Nesse sentido, eu penso que um padre não se faz numa forma. Temos aqui o padre João Norton, o padre António Pedro, cada um deles, e isto nós olhamos para eles e vemos, um padre não se faz numa forma, segundo uma tipologia própria. Mas aquilo que se quer é dar asas a cada um para que, na verdade de uma tradição e de uma comunhão, ele possa a partir dos dons que Deus lhe deu irradiar, ser aquilo que é. No fundo, aquilo que Deus pede a cada um de nós: “Olha, sê aquilo que tu és e sê com confiança, sê com alegria. És apenas uma parte, é preciso complementar com outros olhares, mas sê aquilo que tu és.”

E isso é alguma coisa muito, muito, importante. Acho que é uma descoberta muito importante na nossa vida e quando conseguimos fazer com verdade e com naturalidade eu penso que nos tornamos adultos, adultos na fé. Adultos também na fé. Porque às vezes somos adultos em tanta coisa e a nossa relação com Deus ainda é assim a medo, ainda achamos que Deus está sobretudo a nos culpar, a nos castrar, a nos pesar, e é o contrário, é o contrário. Deus está a alegrar-se com aquilo que somos, porque foi Ele que nos fez.

A outra coisa, igualmente importante a par desta, que descobri por cada dia, é que um padre é uma obra dos outros, é uma construção dos outros. Quer dizer, é claro que é uma vida original, é uma vida individual, mas um padre é a expressão da comunidade, e é cada dia. Ele vai sendo, vai-se tornando, a partir dos encontros que tem, das pessoas que conhece, das preocupações que lhe trazem, das histórias que lhe contam, das propostas que lhe fazem, do amor que lhe dão, dos silêncios, das partilhas, daquilo que testemunha. E, nesse sentido, um padre vai-se construindo como uma obra dos outros.

Eu olho para estes 25 anos da minha vida e, claramente, me sinto uma obra dos outros. Não seria o mesmo, não estaria aqui desta forma se não fosse cada um dos encontros, cada uma das pessoas, cada uma das vivências. E isso é tudo dom, isso é tudo graça, não é invenção é graça, é graça recebida.

Nestes 25 anos eu queria partilhar convosco quatro coisas, e quatro coisas para os próximos 250 anos do Cristianismo, não os próximos 25 anos. Eu penso que nestas datas temos sobretudo de olhar para a frente e dizer o que vemos. O que é que eu, Tolentino, vejo aproximar-se como Cristianismo no futuro? Eu vejo quatro coisas.

Eu penso que, a partir disto que nos é proclamado hoje na Carta aos Efésios, nós vamos dar muito mais importância ao alçado de Deus. O alçado de Deus é aquela parte superior dos edifícios que cada um de nós não vê. Normalmente os maus arquitetos atiram para lá o lixo todo, a maquinaria. Como ninguém vê, só Deus vê, eles chamam o alçado de Deus, atiram para lá toda a desorganização do construído. Mas os verdadeiros arquitetos desenham o alçado de Deus, e sabem que aquele alçado, que só Deus vê, é um lugar fundamental do próprio edifício.

Eu penso que, nos próximos 250 anos, nós vamos descobrir e dar muito mais valor ao alçado de Deus na nossa vida. Essa parte que não se vê, essa parte que cada um de nós tem como invisível ao longo da vida, mas que está lá e pode ser vista, e em momentos decisivos cada um de nós vê, e percebe que a parte mais importante do edifício é verdadeiramente essa.

Isto que S. Paulo nos diz, na frase mais comprida do Novo Testamento, e praticamente de toda a Bíblia, em que costura 23 verbos, este arranque da Carta aos Efésios para dizer: nós somos amados, Deus espera por nós, Deus deu-nos toda a riqueza, Deus formou-nos, Deus pensou em nós desde a criação do mundo. Esta certeza, esta confiança que eu chamo o alçado de Deus vai-se tornar cada vez mais decisivo nas nossas vidas.

Depois, um segundo argumento e que tem a ver com aquilo que Jesus hoje nos diz no Evangelho de S. Marcos, Jesus manda os discípulos em missão e diz: “Não leveis nem pão, nem alforge, nem dinheiro, apenas vestidos com uma só túnica. E andai de casa em casa.”

Eu diria que o futuro da Igreja está no caminho. O futuro da Igreja estará na medida em que nós formos capazes de relativizar o nosso sedentarismo, porque também somos muito sedentários, e aceitar o desafio que hoje nos faz o Papa Francisco em nome de Cristo que é de vivermos em saída, vivermos numa dinâmica exodal. E não há saída que não corresponda a uma essencialidade.

Quer dizer, nós arrastamos muita tralha que se torna um obstáculo ao anúncio, nós próprios precisamos da lição do viajante. Se eu carrego a mala com muito peso não vou dar um passo. Tenho de colocar na mala apenas aquilo que eu preciso e, sobretudo, tenho de encher a mala de confiança em Deus, de confiança na Providência, naquilo que Deus fará por mim quando eu acho que não tenho, que não posso. Se nós queremos partir em viagem carregando todas as eventualidades, preparado para tudo o que nos possa acontecer, não saímos da porta. Temos de sair levando, sobretudo, a leveza de uma confiança total na ação de Deus.

Nesse sentido, a Igreja precisa sair, precisa sair. Nós precisamos ser uma Igreja missionária, uma Igreja missionária. E uma Igreja missionária que fala sobretudo pela atração. Os momentos mais fortes do Cristianismo foram quando o anúncio se fez por atração. Aquilo que Jesus diz de forma misteriosa no Evangelho de João: “Quando Eu for elevado da terra atrairei todos a Mim.” É preciso que a Igreja se torne atraente, atrativa, e isso acontece quando? Quando ela sobretudo vive do testemunho, não vive a moralizar, não vive a carregar, não vive a dar lições, não vive a cantar de alto. Mas sobretudo dá um testemunho de alegria, um testemunho de simplicidade, um testemunho de beleza.

A beleza tem isso, a beleza atrai-nos. Nós não sabemos porquê, porque é que este Anjo de Berlim da Lurdes de Castro nos emociona, nos toca, nos diz sempre alguma coisa nova. Porque ele atua pela atração, não pela retórica, não por estar a nos dar uma lição.

Nesse sentido, nós precisamos tornar-nos missionários do testemunho, aceitando que vamos ter de ser muito mais leves, de ser muito mais essenciais.

E nesse sentido é o terceiro desafio e que tem a ver com a história do profeta Amós. Amós era um profeta e foi, imagine-se, pregar para o Santuário, para o Templo. E o sacerdote do Templo diz: “Olha lá, no Templo não há profetas, vai lá pregar para a estrada onde é preciso, o Santuário não precisa de profetas.”

Ora, eu acho que um grande desafio é nós percebermos que o Santuário precisa de profetas. Isto é, que nós, na Igreja, precisamos de nos abrir a uma palavra que nos desinstala, a uma palavra que nos desacomoda, a uma palavra crítica, a uma palavra que transporta o Espírito e nos abre a novas linguagens, a novas gramáticas. Nós não podemos, comodamente, representar os que podem estar aqui, não podemos dizer: “O Povo de Deus são estes fiéis, e o resto são os infiéis.”

Nós temos de encontrar outra dinâmica interna e viver numa desinstalação, deixarmo-nos ler, reinterpretar criativamente pelo Espírito da profecia. E, nesse sentido, a Igreja terá, de facto, a força para encarar as feridas, coisas que são difíceis hoje de ver, coisas de que não se fala no interior da comunidade, coisas que são um tabu interdito. Se calhar nós precisamos de conversar sobre tudo isso com espírito de profecia, e não podemos achar que por estarmos no Santuário nós temos de mandar embora os profetas do nosso seio, pelo contrário, precisamos acolher, nós próprios, os profetas no nosso interior.

O quarto desafio que eu vejo para o futuro do Cristianismo, e da Igreja em particular, é aquilo que o Salmo 84 que hoje nós proclamamos nos diz, que eu diria assim: acreditarmos no poder do coração, acreditarmos na força da compaixão, na força da misericórdia, na capacidade que a Igreja tem de curar, de reconciliar, de dar paz, de estabelecer laços, de aproximar, de romper fronteiras, isto que o salmo diz tão bem: “Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade, abraçaram-se a paz e a justiça, a fidelidade vai germinar da terra e a justiça nascerá do céu.”

Eu penso que é esta missão que nós precisamos de adotar, de adotar para nós. É na medida em que colocarmos no meio da vida da Igreja também o afeto, o poder do coração, a misericórdia, o abraço, o encontro que, de facto, nós podemos testemunhar aquilo que Jesus Cristo faz na vida de cada um de nós.

Queridos irmãs e irmãos, vamos com confiança celebrar a Eucaristia, que é sempre expressão do mistério da Igreja. Só nós podemos celebrar a Eucaristia, mas nós somos fruto, somos consequência da Eucaristia. Que os desafios que esta Eucaristia em particular coloca à vida de cada um de nós possam ajudar cada um neste processo de nascimento que não acaba nunca.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XV do Tempo Comum

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