Queridos irmãs e irmãos

Nós celebramos hoje a solenidade do Corpo de Deus, a festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, a festa da Eucaristia – esta refeição que tomamos diariamente ou dominicalmente juntos, que é uma refeição ritual, sacramental, mas que é também uma verdadeira refeição e é o grande manifesto da presença de Jesus nas nossas vidas.

Nós podemos dizer, em verdade, que cada um de nós é uma consequência desta refeição, que nos alimentamos dela. Somos construídos e gerados pela Eucaristia. Sem Eucaristia não haveria Igreja, sem Eucaristia não haveria cristãos. Porque é da persistência deste gesto, deste acontecimento, desta memória (que não é só memória do passado, mas é presente e futuro), desta anamnese de Jesus, é a partir daí, que nós somos verdadeiramente gerados, que nós vivemos.

Por isso, há razão para fazer festa. Há razão para hoje a Igreja se ornar, cantar, sentir uma alegria muito especial por esta festa que para nós é tão significativa, é tão fulcral, tão essencial.

A Eucaristia assinala a mudança de regime no quadro religioso. Porquê?

Nós temos essa primeira leitura do livro do Êxodo, que conta a Aliança de Deus com Israel. Essa Aliança, que é uma aliança extraordinária, que foi de certa forma o arranque da história da Salvação, é contudo uma aliança baseada na exterioridade do símbolo. Baseada na exterioridade de uma Lei que é codificada, é escrita na pedra e dá origem a uma Nação – dá origem a um Povo escolhido, dá origem a uma história nacional que é a história de Israel.

Os sacrifícios que se fazem são sacrifícios simbólicos – é o sangue dos cabritos, é o sangue dos cordeiros que é aspergido sobre o povo. A partir daí constrói-se toda a máquina, a dinâmica sacerdotal com o Templo. E constrói-se a partir daí a Torá, a Lei com todas as prescrições que é preciso guardar, que é preciso obedecer. A partir daí, constrói-se todo o sistema de pureza ritual, que teve de facto um papel pedagógico na história da Salvação. Nós sabemos como a religião também vive disso, também vive dessa exterioridade, também vive desse símbolo. Eu diria, também vive dessa aliança que cada um de nós é capaz de tecer, de estabelecer com Deus, a partir das coisas, a partir da matéria.

De facto, as coisas ligam-nos a Deus. O criado liga-nos a Deus. A própria lei, os textos, as palavras escritas, os grandes códigos que a Humanidade foi construindo como esforço de progressão no sentido do amor, tudo isso é uma espécie de Aliança com Deus que nós celebramos.

Contudo, o Cristianismo aparece numa época em que se chega ao fim dos sacrifícios. O fim dos sacrifícios porquê? Porque, pouco tempo depois destes acontecimentos da vida Jesus (em princípio a Páscoa acontece por volta do ano 30/33), no ano 70 o Templo de Jerusalém é arrasado, é destruído. E, de certa forma, o próprio Judaísmo tem de encontrar uma nova configuração. E a nova configuração que encontra já não é a partir dos sacrifícios, porque o sacerdócio acabou porque já não há Templo, já não há Templo.

O próprio Cristianismo tem também de fazer uma reflexão sobre a forma de ligação a Deus. Como é que nos ligamos a Deus agora que já não oferecemos touros, animais, já não trazemos o fruto das colheitas para queimar sobre o altar? O que é que nós colocamos aqui sobre o altar?

O Cristianismo, de facto, nasce como uma religião pós sacrificial. Há um texto cristão, cujo autor nós não conhecemos, sabemos que não é S. Paulo, é posterior a S. Paulo, é um texto cristão de grande densidade, que é este da Carta aos Hebreus, que vai fazer uma coisa sobre as ruínas do Templo de Jerusalém. A Carta aos Hebreus vai dizer isto: “Cristãos, não fiquem a chorar o que foi. Não fiquem a chorar uma religião de sacrifícios, não fiquem a chorar a beleza do Templo, as pedras, o sacerdócio antigo. Não. Cristo é o novo e verdadeiro sacerdote, Cristo é o verdadeiro Templo. Jesus tem um corpo e esse corpo é que é o lugar onde Deus se revela, e Cristo é o Sumo Sacerdote.”, Ele que nunca foi sacerdote, Ele que nunca foi considerado como tal. Jesus é o Sumo Sacerdote, é Aquele que faz uma Aliança entre o Homem e Deus.

A Carta aos Hebreus ajuda-nos a perceber qual é o lugar do Cristianismo nesta nova configuração religiosa, onde há uma deslocação fundamental que acontece: deixamos de ser uma religião sacrificial, uma religião exterior, uma religião fundada à maneira de santuário, uma religião fundada no conjunto dos ritos, uma religião fundada no exercício de um certo tipo de sacerdócio que fazia a mediação entre o Homem e Deus, e passamos a uma religião existencial. Uma religião existencial.

Agora já não temos um santuário, temos um corpo, agora já não temos uma Lei, temos uma consciência, agora já não temos toda a máquina sacrificial, temos a nossa vida. Temos a nossa existência como lugar de encontro, de relação, de experiência, de aliança com o próprio Deus. Nesse sentido, enquanto a velha Aliança fundou um Povo, a nova Aliança funda uma humanidade. Uma humanidade nova, em cada um de nós, e uma humanidade que agora não conhece fronteiras. Não se é cristão por ser judeu ou por ser português, é-se cristão em todas as latitudes, em todas as situações. Porque Cristo não veio trabalhar uma ideia de Povo, Cristo veio trabalhar uma ideia de humanidade. A noção de eleição é substituída pela noção de chamamento. Todos somos chamados.

Como é que Cristo faz isto? Faz isto da forma mais encarnada, da forma mais Sua, através do testemunho do Seu amor, através da dádiva da Sua vida e naquela refeição, na última que Ele tomou. Ele teria tomado muitas refeições dia a dia com os Seus discípulos e com os pecadores refeições abertas que os Evangelhos nos contam. Teria feito refeições consideradas absurdas mas que eram refeições performativas, que sinalizavam a emergência do Reino de Deus – como é a multiplicação dos pães, que é uma refeição feita com uma multidão e que é um grande sinal da mensagem do próprio Jesus e do Seu projeto. Mas esta refeição é uma refeição íntima, a última, aquela que Jesus toma com os Seus Discípulos na véspera da Sua Paixão. E essa refeição é a condensação de tudo, é o resumo de tudo e é a antecipação do próprio destino de Jesus.

Então, os gestos de Jesus tornam-se muito gráficos, nós podemos seguir o curso do Seu gesto. Ele pega no Pão e diz: “Isto é o Meu Corpo que será entregue por vós”, pega no Cálice e diz:” Este é o Meu Sangue, que será derramado por vós e por todos como sinal de uma Nova Aliança.” E é a partir destas frases que em cada dia nós recordamos, que em cada domingo nós recordamos que nós temos a garantia, a certeza de que Ele está sempre connosco, todos os dias até ao fim dos tempos.

Porque, aquele pão se faz Corpo de Jesus, e se faz corpo de uma história que nós vivemos, uma história de relação com Ele, aquele vinho faz-se sangue de uma Aliança que nós experimentamos de tantas formas ao longo da nossa vida mas sabemos que é um laço vivo que nos une a Deus.

Mas quando Jesus diz “ Isto é o Meu Corpo, isto é o Meu Sangue” nós temos de perguntar: O que é isto? O que é isto?

Um primeiro significado é que “isto” é mesmo “isto”. É o que Ele tinha na mão, que é um bocado de pão, um bocado pobre de pão, uma migalha de pão e diz: ”Eu estou neste ínfimo pão.” Quer dizer: Eu estou no ínfimo, Eu estou no mínimo. E se Eu estou no mínimo, estou também no máximo. Eu estou aqui. E, se quisermos, há uma leitura literal que é isto: Eu estou neste vinho que se torna o Meu sangue.
Mas este “isto” certamente é mais, é mais. Porque cada um de nós, quando come o Corpo e quando bebe o Sangue do Senhor, não se liga a Jesus apenas a partir daquele pão e a partir daquele vinho. O que é que nos liga a Jesus? É este “isto” que no fundo é a Sua vida toda, é a história que Ele nos dá a partilhar, é a relação que Ele nos permite, é o que Ele faz no nosso coração, são os sinais que Ele nos dá, são as parábolas que Ele contou onde nos sentimos atores, são os encontros que Ele teve e que hoje nós sentimos que estamos lá dentro desses encontros: que Ele cura a nossa cegueira, que Ele transforma a nossa lepra, que Ele nos coloca a andar de novo, que Ele nos ajuda a viver numa plenitude de ser.

Quando Jesus diz: “Isto é o Meu Corpo, tomai e comei” quer dizer: mergulhai, mergulhai naquilo que Eu sou, mergulhai naquilo que Eu vos dou, mergulhai nesta história de amor e de relação que Eu mantenho com cada um de vós porque aí encontrareis a vida, aí encontrareis a plenitude, tereis este encontro comigo.

Queridos irmãos, celebramos hoje a Ceia do Senhor, esta refeição. Aquilo que nos define: são homens e mulheres de muito lado, de muita família, que se juntam como um só corpo à volta de uma mesa. Esta mesa é uma mesa que representa o passado, representa este gesto, esta refeição de Jesus que se torna não uma refeição mas a Refeição. Mas esta mesa é também o nosso presente, porque ao celebrarmos a Eucaristia sabemos que Ele está vivo no meio de nós, e que as nossas vidas, as nossas vivências, os nossos caminhos, as nossas inquietações, as nossas dilacerações são relevantes, são oportunidades, são caminhos para esta mesa e dialogam com esta mesa. Nós dialogamos com esta mesa.

Nada, nada pode impedir um cristão, qualquer que seja a sua situação, de dialogar com esta mesa. A nossa vida tem de dialogar com esta mesa. Ou a Igreja acredita que os cristãos nascem desta mesa, ou então, se calhar, a Igreja precisa de abrir de novo esta mesa, precisa de encontrar uma largueza – muitas vezes a estreiteza de certos entendimentos doutrinais acabam por limitar esta mesa a alguns. E, nesse sentido, o Papa Francisco tem recordado incessantemente que esta mesa não é um prémio para ninguém, não é um prémio. Esta mesa é o lugar onde o Homo Viator, a mulher e o homem que caminham, os peregrinos da vida, os pecadores, os incertos que nós somos nos alimentamos.

Esta mesa é consolação, esta mesa é reforço, esta mesa é ponto de partida. Esta mesa não pode ser exclusão, esta mesa não pode ser rejeição. Não pode ser a partir da Eucaristia que nós limitamos no corpo dos cristãos os regulares e irregulares, os bons e os maus, os certos e os errados. Não pode ser a partir desta mesa, seja a partir de outra coisa qualquer. Mas não a partir desta mesa, que na intenção de Jesus é a mesa do acolhimento, a mesa que é o nosso berço, que é a nossa manjedoura, a mesa onde nos sentimos consolados pelo amor de Deus, que em Jesus se torna presente para as nossas vidas.

Mas esta mesa, queridos irmãos, é também um lugar do futuro, é também um lugar utópico, é também aquilo que caminha à nossa frente. Porque esta mesa faz-nos antecipar aquilo que ainda não somos. Nós estamos aqui reunidos (infelizmente a Capela do Rato não é um lugar muito interclassista, tem uma predominância de uma classe média-alta, e pronto é o que é) mas esta mesa não é uma mesa que está capturada por um determinado grupo social, esta mesa é transversal, esta mesa é uma máquina de fazer irmãos, é uma máquina de fazer irmãos. É uma máquina de dissipar desigualdades, é uma máquina de aproximar, é uma máquina de fazer comunhão. É uma máquina de criar uma humanidade nova, onde os muros, as assimetrias, as distâncias são todas vencidas a partir desta mesa.

É claro que na vida hoje, no nosso hoje, isso ainda não acontece, mas esta mesa não é uma mesa capturada, sequestrada pelo nosso hoje. Esta mesa é o nosso amanhã, nesta mesa nós colhemos a inspiração para a cidade nova a construir. Nesta mesa nós lavamos os nossos olhos do nosso pecado da divisão, do conformismo, da aceitação de tanta coisa que é um pecado contra a pessoa humana. Nesta mesa nós lavamos os olhos e percebemos que o mundo pode ser de outra forma, o mundo pode ser de outra forma. E o mundo só será de uma forma justa, perfeita, quando os homens todos se puderem sentar à volta de uma mesa e puderem partilhar o mesmo pão, partilhar a mesma carne e o mesmo sangue, partilhar a mesma vida, a mesma existência.

Nesse sentido, esta mesa desassossega-nos, desassossega-nos. Ao mesmo tempo que esta mesa nos consola, que esta mesa nos dá paz, esta mesa não nos dá descanso, esta mesa desinstala-nos. Porque ela diz: “Como é que tu tens tornado este futuro presente? Como é que tu tens aproximado esta mesa? Como é que tu tens moldado a tua vida com as medidas desta mesa?”

Queridos irmãos, esta mesa é o critério da nossa vida, é o critério da nossa vida. Por isso, esta mesa é um programa. Um cristão não tem outro programa de vida senão esta mesa. Por isso, os primeiros teólogos do Cristianismo diziam: “Os cristãos que vão à Eucaristia tornam-se eucaristificados.” Isto é: nós temos a missão de nos tornarmos eucaristia, com o que isso significa, com o que isso quer dizer.

Nesse sentido é que o Cristianismo acende a sua luz e deixa de ser apenas um rito, mais um carneiro que nós imolamos, mais um sangue de cabrito que nós derramamos sobre as nossas cabeças. Não. É a nossa existência. “Tu deste-me um corpo.” E como diz a Carta aos Hebreus, Jesus disse: “Eis-me aqui Senhor para fazer a Tua vontade.” É isso que cada um de nós é chamado à sua maneira a dizer no seu coração.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade do Corpo de Deus

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