Queridos irmãs e irmãos

Neste sexto domingo da Páscoa, a Palavra do Senhor coloca-nos perante duas questões fundamentais.

A primeira é: a compreensão de que aquilo que nos é pedido por Jesus é o amor. É o resumo de tudo aquilo que Ele nos pede mas também que, neste longo discurso do adeus, de que nós lemos apenas uma parte, o termo do amor e o mandato do amor é a vontade explícita de Jesus a nosso respeito. O que Ele pretende é colocar-nos a amar, é tornar-nos especialistas no amor, é ampliar a nossa capacidade de amar, é reforçar a nossa vontade, a nossa imaginação, o nosso empenho, a nossa disponibilidade para que o amor verdadeiramente marque as nossas vidas.

É claro que o amor, e este mandamento do amor, é um mandamento difícil. De certa forma, nós não conseguimos pedir, a quem quer que seja, que ame. Podemos pedir muitas coisas mas não podemos pedir o amor. Porque, no nosso entendimento, o amor é gratuito, o amor brota, o amor nasce de uma empatia, o amor constrói-se, o amor surge, ou não surge, o amor às vezes é muito difícil e muitas vezes parece-nos impossível. Porque ficamos secos, porque estamos distantes, ou simplesmente porque na nossa liberdade nós não queremos amar, não queremos amar aquela pessoa, não somos capazes. E, contudo, o Senhor diz-nos: “O que Eu vos peço, e o que Eu vos mando é que vos ameis, vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.”

Não há nenhuma constituição, não há nenhuma lei. Há leis para todas as coisas, mas não há nenhuma lei que mande uma pessoa amar. Porque isso, de certa forma, é pedir-lhe o impossível, é ir além daquilo que é o razoável. E, contudo, nós temos de nos perguntar o que é que Jesus nos pede, quando nos pede isto que aparentemente é irrazoável, isto que aparentemente é impossível. O que é que Jesus nos está a pedir quando coloca como síntese, e como indicador do que Ele nos pede, a proposta do amor, o mandato do amor?

Aqui a leitura de S. João, que hoje também lemos, vem em nossa ajuda, lembrando-nos que Deus é amor. Que quando se fala do amor não se está a falar de uma realidade distante de Deus. Pelo contrário, nós só tocamos em Deus se compreendermos o que é o amor e se praticarmos o amor. Só quem pratica o amor, diz-nos S. João, conhece a Deus e nasce de Deus. Porque Deus é isso, Deus é amor.

Então, a nossa habitação de Deus, tornarmos Deus a nossa experiência, a nossa morada, a fé que temos em Deus outra coisa não é do que o aprofundamento do que significa o amor. Se um cristão, uma cristã, adultos, não têm como grande objetivo, grande finalidade dos seus quotidianos das suas vidas o aprofundamento do amor estão longe, estamos longe do mandato de Jesus e da compreensão daquilo que Jesus nos pede.

Eu lembro-me, na primeira paróquia de que eu fui pároco (também só fui de uma): Foi muito interessante porque eu tinha acabado de me ordenar, tinha 25/26 anos, e pensava que a minha vocação e a minha palavra eram sobretudo para os jovens. E, depois, com grande surpresa minha, eu percebi que os seniores escutavam-me talvez com maior atenção. E lembro-me perfeitamente de uma pessoa, uma mulher, muito avançada nos anos, já com mais de 80 e que, no fundo, domingo a domingo, ouvia falar do amor, da importância do amor, o amor acima de todas as coisas, o mandato do amor; ela veio falar comigo a dizer: “Olhe, está-me a dar uma grande novidade. Eu tenho vivido a minha vida toda, tenho sido uma mulher religiosa, uma mulher de fé, tenho cumprido tudo. Mas, olhando para a minha vida, eu tenho que dizer que não sei o que é o amor, não sei o que é esse mandamento do amor.”

A mim tocou-me, tocou-me imenso esta mulher ter a capacidade de olhar para a sua vida e perceber como estava longe daquilo que é o central que Jesus nos pede. Para dizer a verdade, não é fácil nós vivermos uma vida inteira e permanecermos longe deste núcleo vital da Palavra de Jesus que é, no fundo, a única proposta que Ele nos faz, que é: ama, amem-se uns aos outros como Eu amo cada um, como Eu vos amei.”

De maneira que é muito fácil nós passarmos ao lado. E, contudo, passar ao lado é não ter mergulhado no mistério do próprio Deus, naquilo que Deus nos pode dar. Passar ao lado é não ter sido transformado por esta experiência que é, no fundo, o Cristianismo, é ele não ter feito unidade com a nossa própria vida, é não ter sido ele a marcar o nosso rumo, a marcar as nossas prioridade, a marcar a nossa agenda. Por isso, precisamos, de facto, de refletir muito seriamente no que fazemos a este mandamento de Jesus e como o cumprimos. Nós não o podemos cumprir apenas como um mandato, apenas como um mandamento. Mas temos de cumpri-lo como um modo de existência, como uma experiência.

Porque se Deus é amor, então o amor é permanecer em Deus, como explica S. João. Então, toda a nossa vida espiritual outra coisa não é do que o mergulho neste oceano de amor que é o próprio Deus. E, depois, a nossa vida não é senão uma arte de traduzir Deus, de refletir Deus, de passar Deus, de comunicar Deus em cada momento da nossa vida.

Quando S. João diz que Deus é amor, e que só conhecem a Deus aqueles que amam, e que só nascem de Deus aqueles que amam, S. João está a dizer-nos uma coisa muito importante. Porque a religião pode ser uma distração muito grande do essencial. E nós podemos viver uma vida muito agarrados às coisas de Deus e muito longe de Deus. Muito agarrados aos arredores, aos ornamentos, aos ritos e muito pouco mergulhando, escondendo, afundando a nossa vida completamente em Deus.

S. João diz: O importante não é a gramática do religioso. O importante não é esta expressão toda, que para nós é tão significativa, e ainda bem que é, mas não pode ser só isto, não pode ser só isto. Nós não sabíamos viver sem a missa dominical. Somos consequência deste momento das nossas vidas, mas não pode ser só isto. No sentido de que isto tem de dialogar com uma realidade maior e essa realidade é de que: só quem ama conhece a Deus e só quem ama nasce de Deus. Então, o nosso caminho, a nossa estrada, a nossa verdade, a nossa vida tem de ser de facto o amor.

Isto pede-nos, a nós cristãos, um exercício muito grande de humildade, reconhecendo aquilo que Pedro reconheceu, com surpresa, mas também com compromisso, quando ele percebeu que, antes de ele batizar os gentios, já o Espírito Santo havia sido derramado sobre eles. Quer dizer: o Espírito Santo vai à frente da Igreja. A Igreja chega depois do Espírito Santo ter chegado. Quer dizer: nós temos também de ter a humildade. A Igreja não é tudo, para lá da Igreja tantos crentes de outras religiões, tantos não-crentes, tantos mulheres e homens de boa vontade são assinalados, também, pelo Espírito. Onde a Igreja não chega, ou ainda não chegou, o Espírito Santo já fez a Sua sementeira.

E como é que nós vemos a sementeira do Espírito Santo? Vemos em tantas mulheres e tantos homens uma capacidade de amar, uma disponibilidade para amar, para estar ao lado dos outros, para servir, para acompanhar, para fortalecer, para exortar, para compartir, para partilhar, para solidarizar-se verdadeiramente. Isso é sinal de uma sementeira que está no mundo e que, para nós cristãos, deve ser uma marca que nos faz refletir, que nos dá um otimismo histórico. Porque nós percebemos que não contamos apenas com as nossas fracas forças. O Espírito vai adiante de nós e já está a semear, no mundo, esses gestos de amor.

De facto, os justos que salvam o mundo, e muitas vezes não sabem que o estão a salvar, são aqueles que multiplicam na sua vida os gestos de amor. Muitas vezes gestos pequeninos, gestos escondidos. Mas nessa vida minúscula, nessa vida sem história, está o sublime de Deus, está o eterno de Deus no empenho, no compromisso com que vivem. Sintamo-nos assim chamados a colocar o amor, a refletir sobre o lugar que o amor tem nas nossas vidas. Nós tantas vezes insistimos em tantas coisas e desistimos do amor. Que coloquemos o amor, e este mandamento do amor que Jesus nos deixou, como centro, como traço axial de aquilo que no tempo nós construímos.

Nesta Eucaristia eu queria rezar por um amigo que não conheci, que se chamava Ricardo, que faleceu há pouco mais de um mês. Hoje a sua família (os seus pais, os seus irmãos, a sua namorada, os seus amigos, familiares) estão aqui connosco, na nossa comunidade, para rezarmos pelo Ricardo. Um homem de boa vontade com o coração cheio de amor e que, muito limitado pela doença, não tinha prisões no seu coração. Não tinha prisões na sua sensibilidade, na sua capacidade de amar, de esperar no outro, de tentar inspirar o mundo também pela sua palavra, pelos seus projetos, por aquilo que ele fazia, tornando a sua doença um lugar habitado pela amizade, habitado pela esperança.

Vamos dar graças a Deus pela sua vida nesta celebração. Vamos perguntar não apenas porque é que ele partiu, que é a pergunta que nos enluta – é uma pergunta natural daqueles que amam. Porque é que aqueles que amamos partem? E partem tão cedo, como foi o caso do Ricardo. Mas, no nosso coração, perguntemos porque é que ele veio? O que é que ele trouxe? O que é que ele mudou em nós? O que é que ele iluminou? O que é que ele contribuiu, por exemplo, para que o amor seja mais forte em nós, e para que este mandamento do amor nós o compreendamos melhor. Porque ele nos indicou talvez aquilo que é essencial, a nós que andamos tão distraídos.

Vamos por isso juntar-nos a esta família, a este grupo de amigos, e rezar juntos, pedir ao Senhor que tenha o Ricardo junto de si, que o leve aos seus ombros de bom pastor e que, na comunhão dos santos e na comunhão da esperança, nós sintamos a presença do Ricardo ao longo das nossas vidas.

Pe. José Tolentino Mendonça, VI Domingo da Páscoa

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