Queridos irmãs e irmãos

A verdade da Páscoa é uma verdade inacreditável. A verdade que aconteceu com este homem, Jesus de Nazaré, este profeta filho de Deus, este Messias de Israel, a verdade que aconteceu na Sua vida é uma verdade que nos deixa em sobressalto.

E perguntamo-nos se devemos ou não acreditar. Se podemos ou não acreditar em Jesus. Porque se nos vierem dizer que um homem venceu a morte (esta morte que parece o limite natural de todas as coisas e de todos os seres), se nos vierem dizer que um homem rompeu o cerco e saltou para lá da linha, e levanta-se agora como aquele que está vivo no meio dos seus, nós esfregamos os olhos, beliscamos os braços para ver se é verdade, se pode ser verdade.

A Igreja neste tempo pascal é isso que se pergunta: pode ser verdade isto que nos está a ser anunciado?

É importante que nos debatamos com este problema. Porque a Ressurreição, queridos irmãs e irmãos, é a maior das verdades cristãs. Em certo sentido, é a única das verdades cristãs. Porque é ela que rompe com tudo aquilo que conhecíamos até então, é ela que nos coloca perante um dia novo, perante um tempo novo, perante um lugar absolutamente inédito na História. E mais: é-nos pedido a cada um de nós que seja a partir da Ressurreição, a partir da fé neste acontecimento absolutamente singular da História, que seja a partir deste acontecimento que moldemos agora as nossas vidas, os nossos dias, o tempo que nos cabe viver. Seja a Ressurreição, o acontecimento pascal, que seja o critério, a regra, a medida, o mapa, a certeza, a convicção, o espanto que nos move na vida de todos os dias.

Por isso é tão importante que agarremos a fundo o problema, inclusive na sua dificuldade. Porque o sobressalto com que as mulheres vieram dizer aos companheiros de Jesus (eles foram ao túmulo e viram), o sobressalto que os de Emaús tiveram quando encontraram aquele terceiro viajante no caminho de Emaús e perceberam que era Jesus (e voltaram para Jerusalém e agora estão a contar) é o sobressalto dos doze que estão reunidos, e é o nosso próprio sobressalto.

Nós podemos acreditar na Ressurreição de Jesus. Mas acreditar não como uma verdade sobrenatural, que está no fundo da história, mas acreditar como uma verdade material que perfura o tempo que eu vivo, que perfura e argamassa a história que eu construo. Eu posso acreditar nessa verdade da Ressurreição.
Nós estamos a ler nestas oitavas da Páscoa, o tempo pascal, as narrativas da primeira comunidade cristã, e como a comunidade se debate com a questão da Páscoa.

Há dois elementos que sobressaem em todos os textos:

Primeiro, as dúvidas. É uma verdade tão grande que nos é colocada no coração que nós não temos instrumentos para perceber. Não é uma verdade como as outras, a verdade pascal. É uma verdade tão nova que nos sentimos balançar, nos sentimos duvidar. Jesus aparecia no meio dos discípulos e eles diziam: “É um fantasma. Estamos a sonhar. Não é o que estamos a ver. Não pode ser.” Porque é o impensável, é o contrário de tudo o que sabemos e sentimos. E não acreditavam, e resistiam a acreditar.

Então, temos um dos elementos que caracterizam a aparição do Ressuscitado é: a persuasão que o próprio Ressuscitado faz aos seus discípulos de que Ele está vivo. É Jesus que os convence da Sua vida. É Jesus que nos convence de que Ele está aqui no meio de nós, vivo e presente. E Jesus, perante as dificuldades dos discípulos, não os crítica, não diz: “Essas dificuldades são incompreensíveis, são de todo ilegítimas.” Pelo contrário, Jesus dialoga com a descrença, com a dúvida, com a interrogação que está no coração dos discípulos. E mostra-lhes as mãos e o lado e diz-lhes: “Tocai-Me, vede-Me.” E quando as dúvidas não se dissipam, Jesus diz: “Trazei-Me alguma coisa para comer.” E come diante deles. Há assim como que um processo de persuasão, de convencimento de que podemos de facto acreditar, como uma verdade credível na Ressurreição do Senhor.

Mas, se este caminho de persuasão não nos basta, há o segundo elemento, que é típico destas narrativas do Ressuscitado, e que é o processo a que todos somos convidados neste tempo pascal.

Diz-nos o Evangelho de S. Lucas: “Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras.”
A compreensão da Ressurreição, a compreensão da Páscoa não é alguma coisa que cheguemos somando dois mais dois. É compreensão profunda, existencial, espiritual desta que é a mais decisiva das verdades da nossa fé. É um dom do próprio Deus, é no Espírito, é na força do Espírito em nós que o nosso entendimento se abre, e nós tateamos o mistério que nos é dito, que nos é declinado pela Palavra do Senhor. É o próprio Espírito que nos abre a essa compreensão profunda, não é obra nossa é obra de Deus em nós.

Por isso, queridos irmãs e irmãos, nós devíamos estar aqui espantados, trémulos. Podemos acreditar ou não? É ou não verdade? Porque se for verdade muda tudo. Se for verdade que Ele ressuscitou, que Ele está vivo no meio dos seus, isso transforma completamente a nossa vida. Porque Jesus não é o único. Ele quis ser, no meio dos seus irmãos, o primogénito. Não o único, não o exclusivo, mas o primeiro, o primeiro, o primeiro de uma geração. E, nesse sentido, de facto a Igreja nasce no acontecimento da Ressurreição, os baptizados nascem a partir do acontecimento da Ressurreição. É a partir deste acontecimento que nós nos situamos na vida, que nós nos situamos no mundo.

O professor Eduardo Lourenço tem um prefácio a um dos seus livros (Heterodoxia I), denominado Prólogo sobre o Espírito da Heterodoxia, em que ele diz o seguinte: “Em Atenas, quando S. Paulo anunciou aos atenienses, aos filósofos gregos, que Jesus tinha ressuscitado, eles levantaram-se e foram-se embora.” Porque não estavam para ouvir coisas impensáveis. E ele diz: “Contudo, nós cristãos ouvimos esta verdade que é capaz de incendiar o mundo, mas ouvimo-la de uma forma completamente passiva, adormecida.”

Queridos irmãos,

A Ressurreição, a fé na Ressurreição tem de ser o motor de transformação das nossas vidas. Há um antes e um depois da Páscoa. A Páscoa é o limiar de uma Humanidade nova que eu começo a viver em mim, na minha história, na minha vida. Porque Ele ressuscitou, porque Ele ressuscitou a nossa vida tem de ser uma vida outra, tem de ser uma vida outra, tem de ser uma vida que transporta no seu cerne esta verdade. E que faz de nós, como dizia Pedro e como dizia Jesus, discípulos: faz de nós testemunhas desta verdade.

Com a Páscoa a nossa vida passa a valer mais. Porque nós trazemos na nossa carne, impresso na nossa carne, o relato de uma verdade capaz de mudar e salvar o mundo. Trazemos impresso no nosso coração e na nossa carne, não só a verdade da Cruz, mas a verdade do túmulo vazio, a verdade da manhã de Páscoa. Esta verdade que custa dizer, porque é tão grande, é tão maior do que tudo aquilo que até aqui sabíamos.

Na Páscoa começa uma ciência nova, uma sabedoria nova, uma filosofia nova, uma política nova, uma economia nova, uma religião nova, uma vida familiar nova, uma vida de amor nova. Na Páscoa começa uma Humanidade nova, porque parte-se, agora, daquilo que com o Seu corpo o Ressuscitado levantou para nós. E nós não podemos não ver, nós não podemos não viver a partir desta verdade, fica agora bem presente, bem nítida na nossa história.

Queridos irmãs e irmãos,

É esta responsabilidade que nos é pedida: a responsabilidade de fazermos este caminho interior de aceitarmos o problema, de aceitarmos que seja o Espírito a abrir-nos o entendimento e aceitarmos viver este tempo num regime espiritual intenso. Para que o próprio Deus nos ajude a compreender o que é que Ele quis dizer, o que é que Ele nos quis dizer com a Ressurreição do Seu filho. E depois, nós próprios sermos um povo de testemunho, um povo que é capaz de levar esta boa notícia, esta boa-nova, esta palavra que transforma a vida. Há um túmulo que ficou vazio, porque há um homem que ressuscitou. E a partir desta notícia nós redesenharmos, nós recriarmos, nós reinventarmos a nossa relação com o mundo.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III da Páscoa

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