Queridos irmãos

Hoje acordamos celebrando a maior das verdades cristãs, aquela sobre a qual a nossa fé se cimenta, se enraíza. É verdade que há um sepulcro vazio e que Ele não está ali, porque Ele está vivo, porque Ele caminha à frente dos seus, porque Ele, junto do Pai, nos envia o Seu Espírito. Porque Ele é a certificação de um amor de Deus que é maior do que a própria morte, que vence aquilo que parecia uma fatalidade: o invencível da morte.

Hoje nós acordamos cantando Aleluia e acordando no nosso coração a maior das esperanças. Porque Ele está vivo, Ele está aqui no meio de nós, Ele continua a caminhar no meio dos seus.

E por isso, como aos discípulos, o nosso coração arde. Hoje é esse dia, em que o coração se enche desse entusiasmo, desse ardor. Porque compreendemos que na Ressurreição de Jesus é a nossa vida que se amplia, é a nossa vida que se ilumina, é a nossa vida que ganha uma outra forma. Ela passa a ser mais de Deus, ela passa a ser o triunfo de Deus.

E experimentamos isso na vulnerabilidade, na fragilidade, no inacabamento, na hesitação da nossa carne. Experimentamos a maior das verdades, aquela que nenhum homem ousou sonhar e que em Cristo nós palpamos, nós tocamos, nós verificamos.

É tão belo este Evangelho de S. João que nós lemos. Porque é como uma cenografia, um momento dramático, uma peça de teatro. Vai esta mulher ao sepulcro e encontra, com as outras mulheres, a pedra rolada, e não sabem o que aconteceu.

A experiência do não-saber é uma experiência que acompanha a vida dos crentes, sempre, sempre. Muitas vezes nós não sabemos e achamos que a nossa ignorância é um obstáculo intransponível que nos separa absolutamente de Deus – ignorarmos, não sabermos como, não percebermos, não entendermos nada. E quando nós lemos as narrações pascais nós percebemos que a ignorância é um traço da própria fé. Temos de olhar para a nossa ignorância como um componente essencial da própria fé.

Porque, se soubermos tudo, não entendemos nada. E é, precisamente, este não saber que abre as portas a uma outra compreensão. Por isso, a ignorância, a dificuldade de entender, a incompreensibilidade que tantas vezes nos fere, para nós deve ser vista como o barro onde a fé se molda verdadeiramente.
As mulheres viram aquela pedra e não perceberam o que é que tinha acontecido. Sabiam que Jesus não estava ali, mas o que tinha acontecido não sabiam, não sabiam, não entendiam.

E foram dizer aos discípulos. Pedro e João vêm a correr.

É interessante que as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres, mas o testemunho das mulheres não tem valor no tribunal, não vale, não valia no tempo. E então, ao lado das mulheres tem de haver o testemunho dos discípulos. Mas é interessante que é o amor daquelas mulheres, que vão piedosamente levar, como uma ternura, os perfumes para perfumar a sepultura, é o amor daquelas mulheres que as torna as primeiras testemunhas da Ressurreição. O testemunho não vale juridicamente, mas vale para a estrada da fé que elas estão a percorrer. A Ressurreição não é uma verdade tutelada juridicamente, é tutelada existencialmente. E por isso, as mulheres são as primeiras videntes do mistério do Ressuscitado.

Aquilo que elas veem não entendem, não entendem, e vão chamar dois homens: Pedro e João. O testemunho de um só também não vale, e por isso vêm dois varões, a correr, para testemunhar. E é interessante que João que é mais novo, corre mais depressa do que Pedro, e chega, fica de fora. Isto é, ele sabe que Pedro deve ser o primeiro, que Pedro é aquele mandatado por Jesus para selar a fé dos cristãos, para dar força, dar unidade à fé dos cristãos.

À beira da Ressurreição cada um de nós percebe alguma coisa, e sente alguma coisa. Mas é Pedro, a verificação de Pedro, que vai dar a confirmação necessária ao mistério da própria fé. Por isso, também hoje, a fé de Pedro continua a ser a rocha onde a nossa fé também se segura, mesmo que a gente corra primeiro e se adiante.

João foi, e de fora olhou para dentro. E encontrou os sinais que envolveram o corpo de Jesus, mas não entendeu nada.

Há muitas maneiras de olhar para o sepulcro, há muitas maneiras de olhar para o mistério da Ressurreição. A maneira das mulheres que viram a pedra rolada; a primeira forma de João que viu de fora, olhou de fora para dentro, e não entendeu nada; de-pois chegou Pedro, e Pedro entrou no sepulcro. E é, no fundo, isto que Pedro nos ensina: nós temos de mergulhar na morte de Jesus. Nós só entenderemos o mistério da Ressurreição se entendermos, se entrarmos no mistério da morte, no mistério da Paixão do Senhor.

Que morte foi aquela? Qual é o sentido daquela Paixão? Porque é que Jesus morreu? Porque é que Ele deu a sua vida? Só entrando, só meditando, só aprofundando o mistério, o lugar da morte se sente os primeiros sinais, espantosos, desta verdade de vida.

E Pedro vai, e começa a olhar, a encontrar os sinais, que são tão importantes para esta espécie de interpretação do luto, interpretação da ausência. Ele não está aqui, mas deixou os Seus sinais. E os sinais que Ele deixou são como uma espécie de trampolim para atirarmos o nosso coração para mais longe, para abrirmos os nossos olhos de uma outra forma, para tatearmos na ausência o mistério de uma fantástica presença.

E depois vem João, o discípulo amado, que é o símbolo do crente. E ele acompanha o trabalho de Pedro. E há esta coisa espantosa: ele também entra no sepulcro. E ele vê e acredita.

E, no fundo, o que é que a Ressurreição nos pede? Pede-nos estes dois verbos: ver e acreditar. Nós somos chamados a ver, a ver que um sepulcro foi vazio, ver a ausência de Jesus. Jesus foi-nos tirado por aquela morte mas foi-nos dado pela vida que Deus acendeu Nele, de uma forma absolutamente inédita, absolutamente nova. João viu e acreditou.

E aqui começa a história do Cristianismo, na fé que naquele sepulcro vazio nasceu, como uma primavera que irrompeu naquele jardim. Uma primavera que não é apenas a da natureza, mas é a primavera da história, é a primavera do mundo. Tudo começa naquele sepulcro vazio.

Queridos irmãs e irmãos

Quando olhamos para o mundo, para a vida, para a história, muitas vezes ela se parece a um sepulcro vazio. Estão os sinais mas Ele não está.

S. João diz, no princípio do seu Evangelho: “A Deus nunca ninguém o viu.” Nós não encontramos Jesus em lado nenhum. Vamos a correr e é o Seu silêncio aquilo que tateamos. Encontramos as marcas, encontramos os sinais, mas o nosso coração é chamado a interpretar a ausência como um mistério de presença.

E, naquele silêncio, que é o silêncio do mundo ainda, nós somos chamados a tatear o primeiro dos mistérios, e aquele que dá fundamento a todos os outros, que é o mistério da Ressurreição do Senhor. Ele está vivo, Ele está vivo. Mesmo se não O sentimos, mesmo se não O vemos, mesmo se não nos aparece na curva da estrada, nós sabemos que Ele está vivo no meio de nós. E é essa vida que torna tudo diferente, torna tudo diferente.

Para nós, a manhã de Páscoa é o primeiro dia do mundo, é a primeira manhã do mundo. E a Igreja toda, estes dois mil anos de Cristianismo, acontecem numa manhã. Nós não somos o crepúsculo, nós não somos os pós-cristãos, nós não somos os que vivem numa sociedade secularizada, nós não somos os cristãos agora perseguidos. Nós somos a manhã, somos a primeira manhã. A nossa vida inteira cabe na primeira manhã de Páscoa. Ainda é manhã e cada um de nós está a correr em direção ao sepulcro. É esta a história da nossa fé.

E se levamos dúvidas, se levamos interrogações, se levamos respostas por encontrar é normal. Maria Madalena, Pedro e João, levaram no seu coração a grande expectativa de Deus. E a fé é a grande expectativa de Deus, a grande espera pela revelação de Deus.

Queridos irmãs e irmãos

Aleluia. Como dirá o autor da Carta aos Colossenses: “Nós morremos, e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus”, essa vida nova, que agora se vai revelar num tempo novo, marcado por este acontecimento inamovível da história que é a Ressurreição de Cristo.

Hoje, em muitos lugares do mundo, há mulheres e homens a derramar o seu sangue, que oferecem o seu sangue, que são perseguidos por esta verdade. Sejamos dignos desta verdade, sejamos dignos desta palavra “Aleluia”, que de nenhuma maneira é uma palavra banal, que não é uma palavra das nossas línguas, mas é uma palavra recebida.

A grande palavra humana: “Aleluia!” Aquela certeza que o alto se fez baixo. E que, tomando, abraçando o rés da terra, de novo se elevou até Deus.

Aleluia.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

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