Queridos irmãs e irmãos

A escritora Marguerite Yourcenar conta que um amigo dela, que tinha sido combatente, soldado na Guerra de Indochina, uma vez lhe tinha dito: “Se Jesus tivesse morrido fuzilado em vez de ter morrido crucificado, eu acreditaria Nele.”

E ela escreve um texto a contar esta narração que hoje nós proclamamos, a grande narração da Paixão, para mostrar como nós somos chamados a ver para lá das aparências, para lá das formas, e a descobrir sempre a atualidade desta história.

Jesus morreu crucificado, mas também morreu fuzilado, mas também morreu num canto de estrada, mas também morreu num pelotão de fuzilamento, mas também morreu na cadeira elétrica, mas também morreu na cama de um hospital, mas também morreu com cancro, morreu com sida, também morreu abandonado, morreu a morte de todas as vitimas da história.

Porque, se há uma palavra que define a grande narrativa da Paixão, essa palavra é: solidariedade. Jesus morre de forma solidária com a nossa dor, com a nossa humanidade, com a nossa própria morte. Não é por acaso que a última palavra que Jesus diz é este grito, que é uma palavra de um dos salmos do Antigo Testamento: “ “Eloí, Eloí, lemá sabactáni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Ou, como traduzem alguns: “Meu Deus, meu Deus, a que me abandonaste?”

Parece um paroxismo, uma contradição total: como é que o Filho de Deus, como é que o Messias de Deus, como é que Este que é a expressão do próprio Deus, pode viver o abandono de Deus? Mas aí percebemos que, de facto, tudo na vida de Jesus acontece para que possamos reconhecer, na Sua humanidade vulnerável, ferida, oprimida, esmagada pela dor, pela traição, afogada naquelas lágrimas e naquele silêncio, torturada por este sistema judiciário que fez tudo para o eliminar da forma mais tortuosa, que Jesus viveu cada instante da Sua vida em solidariedade com a nossa vida, abraçado à nossa vida.
Por isso, não há nenhuma dor humana, nenhuma, que não tenha expressão nas dores de Cristo crucificado. Não há nenhuma solidão humana, não há nenhum silêncio, não há nenhuma experiência de abandono que não possa ser aproximada do silêncio e do abandono com que Jesus morreu. E por isso, estes braços da cruz que Jesus abre são o grande abraço de Deus à nossa humanidade.

Sintamo-nos, por isso, queridos irmãs e irmãos, a começar esta semana maior, esta Semana Santa que é uma semana em que vamos dia a dia reviver os passos desta grande, infinita narração, que hoje proclamamos. Que esta semana seja vivida para nós numa intimidade espiritual com a pessoa de Jesus, tendo a capacidade de perfurar as aparências, de ir além daquilo que é a cultura, a história e os símbolos de cada tempo. Mas sentindo, sentindo no fundo do nosso coração, que Ele está connosco, que Ele está connosco. A Paixão de Cristo é a paixão do homem e a nossa paixão está expressa na Paixão do Senhor. Ele viveu-a por nós, para nós, em vez de nós.

Uma última palavra: aquilo que emerge no nosso coração quando proclamamos esta história, que resume a grande história pascal, a grande questão é o que fazer com esta história? Cada um de nós, que está aqui presente, é herdeiro desta história, tenha um ano ou noventa. Cada um de nós é herdeiro desta história. Esta história é nossa. O que fazer com esta história? O que fazer com esta narrativa que recebemos de Jesus? Como é que olhamos para a Cruz e sentimos que esta história nos funda, esta história nos edifica, esta história é a raiz da nossa própria história? E isso é também aquilo a que somos chamados, de novo, nesta Páscoa de 2015, a celebrar, a viver, a rezar na esperança e no silêncio, fazendo nossa a vida do próprio Senhor, a Sua vida e a Sua morte.

“Eloí, Eloí, lemá sabactáni?”

Meu Deus, meu Deus, a que me abandonaste? Nós não temos uma resposta. O que sabemos é que, sempre que nós dissermos esta oração, estamos sustentados, amparados pelo Seu abraço.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Ramos

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