Queridos irmãs e irmãos

Deus colocou Abraão à prova.

Abraão é o pai dos crentes, é o primeiro dos crentes, é aquele que, inclusive para as três religiões monoteístas – o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo – é, verdadeiramente, o primeiro, o pai dos crentes.

Na história exemplar, na história paradigmática, de Abraão nós vemos, à maneira de um espelho, aquilo que é a experiência crente, a experiência de fé que todos somos chamados a viver.

Uma coisa é certa: não há fé sem prova, não há fé sem provação. Não há fé sem aquela situação dilemática em que Abraão se encontra, e em que, num momento ou outro da nossa vida, também nós nos encontraremos. Porque, o que é a fé? A própria palavra “fé”, fides, quer dizer confiança.

Mas que condições nós temos para confiar? Porque a confiança pode ser mais fácil ou mais difícil. Se, por exemplo, a mim me são dadas garantias visíveis, concretas, para confiar, o ato de confiar é um ato relativamente plausível, verosímil – é-me fácil confiar. Pensemos na história de Abraão, este homem já idoso, casado com uma mulher, Sara, que sofria, padecia de esterilidade. Não tinham filhos e é-lhe prometido um filho, e uma descendência e, de facto, ele vê isso acontecer: ele tem um filho. De maneira que, neste momento, para Abraão acreditar é relativamente simples porque ele vê na sua vida, olhando ele consegue interpretar, as marcas positivas de Deus no seu caminho.

Percebe que há uma aliança, há uma correspondência da confiança que ele tem em Deus, Deus também o recompensa. E porventura, nós, interpretando a nossa história, percebemos as marcas de Deus. Se calhar, para cada um de nós não é difícil acreditar, porque faz-nos sentido. Olhando nós vemos, nós encontramos o dedo de Deus, a marca de Deus em tantas coincidências, em tantas convergências, em tantos acontecimentos que de outra maneira não se explicariam na nossa vida, a não ser a partir da misericórdia de Deus, do amor de Deus por nós. Então, nós olhando para a nossa vida, é natural que a nossa resposta seja uma resposta de confiança e de fé.

Mas acreditar não é isso. Acreditar não é acreditar quando nós temos as seguranças. Acreditar é confiar quando nos é tirado o tapete. Isto é, acreditar pelo absurdo, através do absurdo e contra o absurdo. Porque a confiança é cada vez mais exigente, Deus vai pedindo cada vez mais nesta relação de confiança, e nós não confiamos em Deus pelas coisas que Deus nos dá, mas confiamos em Deus pelo próprio Deus e, nesse sentido, tudo o que Ele nos dá é relativo, ainda que Ele não nos desse coisa nenhuma, nós continuaríamos a acreditar Nele.

Para nós crentes, por exemplo, Santa Teresinha do Menino Jesus dizia isso: é muito fácil acreditarmos em Deus porque toda a nossa perspetiva de vida, aquém e post mortem, é uma vida em que recebemos tantos dons de Deus. Se eu penso que vou morrer e depois vou para o céu, de certa forma são tantas as garantias que me seguram neste caminho de fé, que eu vou como que embalado, sem nunca ter sido para mim um drama, sem nunca para mim ter sido um dilema, uma questão de vida ou de morte, eu ter acreditado em Deus.

Às vezes os não-crentes o que criticam aos crentes é a facilidade com que nós acreditamos. Para nós é fácil acreditar, está tudo enquadrado, está tudo sistematizado, de maneira que é quase um automatismo, é como se fosse um tique nós acreditarmos em Deus, é mais uma coisa que está entre todas aquelas que enquadram o nosso modo de viver.

Ora, a fé é também prova, é também provação. E a prova, no fundo, nasce desta questão: eu estou disponível para acreditar em Deus sem garantias? Eu estou disponível para acreditar em Deus indo para lá das garantias e relativizando-as completamente? É o caso que se pôs a Abraão. Abraão tinha aquele filho, Isaac, era o único filho e recebe esta proposta absolutamente absurda.

Deus diz: “Abraão, sacrifica-me o teu único filho.” Naquele momento, quando Abraão sobe o Monte Moriá para imolar o seu próprio filho. Nós podemos sentir o que era o coração de Abraão, o que é a fé de Abraão, quer dizer: ele não percebia nada, ele não compreendia nada, ele sabia que o que estava a fazer não tinha chão debaixo dos pés, mas continuou a subir aquela montanha, seguro unicamente pela Palavra de Deus e pela certeza que, de alguma maneira, uma maneira que ele não sabia, que ele não entendia, que ele não chegava lá, Deus havia de se manifestar de alguma maneira. E, com o coração todo colocado nessa louca esperança, como diz Kierkegaard comentando este texto do livro do Génesis, com o coração todo atirado para essa esperança que nada sustenta, Abraão subiu o Monte Moriá e ouviu as palavras do Anjo do Senhor: “Abraão! Não me sacrifiques o teu filho, não é isso que Eu quero, o que Eu quero é a tua fé, a tua fé, capaz de ir até ao ponto máximo.”

Queridos irmãs e irmãos:

Nós estamos em tempo da Quaresma e o tempo da Quaresma é um tempo para exercitar a fé, é um tempo muito prático, muito concreto. Porque nós dizemos que acreditamos em Deus, porquê? Porque estamos bem, porque nada nos dói, porque não temos grandes dilemas, porque não somos assaltados por grandes dúvidas, porque não somos ameaçados, não somos perseguidos, porque somos poupados, no fundo.

Nós acreditamos em Deus, porque somos poupados? É isso a nossa fé? Ora, como lembra S. Paulo, na Carta aos Romanos: “Deus não poupou o Seu próprio filho.” Isto é, a fé não é um casulo, não é uma capsula, não é eu sentir-me defendido. A fé, muitas vezes, é eu passar para o meio da luta, é eu, pelo contrário, sentir-me exposto, é eu, pelo contrário, sentir que o meu coração está em carne viva, que não tenho respostas, que não consigo, que não chego, mas é aí, no meio desse duelo que tantas vezes travamos connosco mesmos, com o mundo, com a existência, é aí que a fé se reforça, que a fé se constrói. Não como um caminho amparado por muletas, mas como um caminho trilhado na confiança de que Deus Se há de manifestar. Aquilo que Abraão respondeu ao filho Isaac, quando o filho lhe perguntou: “ Pai, nós vamos imolar ao Senhor, fazer um holocausto, mas onde é que está o animal?” Não havia animal, só havia o pai e o filho, “mas onde é que está o animal?” E Abraão responde ao filho: “No cimo do monte, Deus providenciará”.

E no fundo, queridos irmãs e irmãos, a fé é isto, é esta certeza que no cimo do monte, isto é, no fim de um caminho, cujo sentido nós só tateamos, só entrevemos, não conseguimos agarrar, no final desse caminho Deus providenciará, Deus proverá.

Nesse sentido, Abraão, de facto, é um exemplo de fé, de fé para todos nós, e uma fé que aceita a prova, uma fé que aceita a provação.

O caminho que estamos a fazer, um caminho ao encontro da Páscoa do Senhor, desta Páscoa 2015, mas da grande Páscoa do Senhor que é, no fundo, o grande encontro da nossa vida, é um encontro que pede muito de nós. Os discípulos começaram a história da sua relação com Jesus, começaram por muitas razões, começaram porque queriam o Messias, porque queriam um salvador, começaram porque estavam num período das suas vidas em que precisavam de uma grande causa, uma grande palavra, iam com Jesus porque também eles tinham ambições, também eles estavam à espera de uma recompensa, e quando perceberam que, no fundo, a grande lição de Jesus é a lição da Cruz, é esse paradoxo que a Cruz significa, toda a vida encerrada naquilo que uma cruz significa, e o abraçar a Cruz, eles tinham medo, e pensavam: “Mas nós vamos acompanhar este homem, numa empresa, numa aventura que a gente não sabe o fim? Ou percebe que tudo isto vai acabar mal, tudo isto não pode dar certo.”

E pensavam deixar Jesus, e é precisamente neste momento de dúvida, de dificuldade, de escândalo em relação à Cruz, que se dá o momento de transfiguração. E a transfiguração o que é? A transfiguração é um reforço da confiança. Os céus abrem-se e ouve-se a voz de Deus: “Este é o meu Filho muito amado, escutai-O. Isto não é uma palavra louca, é a minha palavra. Ele é o meu Filho, tenham confiança Nele.” E, no fundo, a transfiguração o que é? É uma prova que reforça a nossa confiança em Jesus.

Queridos irmãs e irmãos:

Nestes exercícios quaresmais, é fácil nós cairmos, é fácil nós termos feito os nossos propósitos de Quaresma, de caminho, e perante as dificuldades nós soçobramos, e desistimos, e achamos que não vale a pena, e conformamo-nos, no fundo, a uma vida, que é uma espiritualidade de sofá, uma espiritualidade completamente acomodada, que não nos dá luta.

É fácil nós deixarmos cair os braços, e é fácil nós olharmos para a Cruz como um acontecimento da vida de Jesus, não como um acontecimento da nossa vida, que serve de modelo para a nossa vida. Nesse sentido, esta festa da Transfiguração, que nos celebramos neste segundo domingo da Quaresma, é precisamente para reforçar a nossa confiança e dizer: Tu que calçaste as sandálias de caminhante, tu que tomaste o bordão dos peregrinos, tu que olhaste para a tua vida não com desânimo mas com esperança, tu que te prometes a uma coisa maior do que a vida comezinha e banal e que já te é tão fácil, tu que insistes em renovar, tu que acreditas que é preciso renascer, tu que aceitaste a palavra de conversão na tua vida, tu que ouviste na Quarta Feira de Cinzas “converte-te e acredita no Evangelho”, tu acredita porque é o próprio Deus que diz: “Esta é a voz do meu filho muito amado, escuta-O”.

Nesse sentido, esta festa da Transfiguração é, para toda a Igreja, um reforço de que vale a pena caminhar, de que neste segundo domingo da Quaresma nós estamos fortalecidos, estamos chamados, comprometidos a fazer um caminho, no fundo, de fidelidade a Jesus, que nos abra a uma sincera, a uma autêntica celebração da Páscoa.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Quaresma

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