Queridos irmãs e irmãos

Deus manifesta-Se em Jesus que nasce. Mas a grande questão é: Como se reconhece? Como se reconhece a passagem de Deus pela nossa história? Como se reconhece a sua Epifania quotidiana? Com que gramática, com que roteiro, com que guia nós podemos reconhecer a fantástica presença de Deus na nossa vida? Porque Ele está e, grande parte do tempo, nós não O vemos, nem temos capacidade de O reconhecer.

Herodes estava muito melhor colocado do que os magos, para saber que tinha nascido o rei dos judeus. E, contudo, ele não sabia de nada. Aconteceu uma coisa nas suas barbas, aos olhos dele, e ele não viu, não foi capaz de enxergar. Ele tinha os sábios da sua corte, tinha a Escritura que dizia: “O Messias vai nascer em Belém.” O que é que lhe faltava então? Ele tinha tudo. Tinha todos os referentes, toda a sabedoria, todo o conhecimento, mas Jesus nasceu e ele não soube. Essa notícia foi-lhe dada por estranhos, por gente que vinha de longe.

O que é que faltava a Herodes e o que é que nos falta a nós? Perguntemo-lo com franqueza. Falta-nos essa atenção. A atenção, a atenção espiritual, é essa expectativa de Deus, essa espera de Deus, que nós temos de manter no nosso coração, no dia a dia. Nós não vemos Deus na nossa vida, porque não estamos à espera dele. Porque não é por Ele que nós esperamos. Nós não vemos Deus mais perto de nós porque não temos sede, não temos fome dele. Não é por Ele que nós sofremos, não é por Ele que nós nos entusiasmamos, não é por Ele. O mundo e a nossa vida, mesmo uma vida de cristãos, tornam-se uma espécie de deserto, uma espécie de lugar vazio onde há uma música em surdina. Mas onde não se vê o desenho, não se toca a carne de Deus na vizinhança de nós.

Falta-nos a atenção. Como dizia Simone Weil: “Falta-nos essa grande capacidade espiritual, que é a grande oração que nós podemos fazer, que é precisamente essa atenção.” Essa pobreza que tem quem espera, quem vive na iminência, quem percebe que cada instante não é apenas o tempo que corre, mas é a iminência de alguma coisa, a iminência de uma revelação. E falta nós deslocarmos a nossa vida para o interior dessa eminência, habitarmos o tempo como espectativa, como lugar de espera. O tempo como advento.

Os magos: nós sabemos pouquíssimo deles, são figuras que vêm de outro mundo, de outra referência, de outra paisagem, de outro território mental, até de outra religião possivelmente. Mas eles vivem esse advento. Eles veem a estrela porque eles vivem, com o seu coração, à espera da manifestação da estrela. E quando se vive na espectativa vê-se como eles viram e tiveram a disponibilidade de seguir, sabendo muito pouco. O que é extraordinário é que a quantidade de Escritura, de promessa, que Israel tem, no fundo, tornou-se um peso, e não se tornou uma força para caminhar, não se tornou uma força para partir.

Estes magos têm tão pouco, veem uma estrela, um rei que não lhes pertence, mas eles querem vir adorá-lo. E os outros têm tanto e não mexem uma palha. Estão ali em Jerusalém, Belém é a doze quilómetros, e não perceberam nada do que aconteceu.

E nós temos de perguntar: e para nós? As Escrituras para que é que nos servem? As promessas, para que nos servem? O conhecimento, a fé, a experiência, a tradição, todos os apoios que recebemos para a vivência da fé, isso para que nos serve? Que vida eu dou a isso?

Porque, muitas vezes, são coisas para estar, são coisas ornamentais, que ornamentam a nossa vida. Mas será que me definem como homem, como mulher? Será que me colocam no mundo num determinado lugar, de determinada maneira? Será que marcam o meu estilo? Será que me definem, que são a minha identidade?

E é no fundo isto que se joga: os magos vieram de longe, atrás da estrela. E tiveram a humildade de ir perguntar, a estrela apareceu e desapareceu, eles foram perguntar ao rei, esperaram pela resposta, voltaram a reencontrar a estrela, foram, adoraram o Menino e, como diz S. Mateus, “No final, voltaram para casa por outro caminho.”

E é, no fundo, isso que também nos é colocado, no final deste tempo do Natal. Nós celebramos o mistério da encarnação do Verbo e agora estamos a chegar ao fim do tempo de Natal. Nós vamos voltar a casa como? Vamos voltar a casa pelo caminho de sempre, pelo caminho habitual, por aquilo que já trazíamos ou vamos voltar a casa por outro caminho, porque o encontro nos renova, porque o encontro nos coloca de uma outra forma, nos acende por dentro, nos dá uma capacidade de atenção?

Hoje, na festa da Epifania, celebramos a universalidade da relação de Deus. E, se há alguma coisa que marca a identidade cristã, é precisamente a universalidade.

A grande luta que o apóstolo S. Paulo manteve e que foi, de certa forma, uma luta fundadora do que é hoje o cristianismo e da nossa hermenêutica de Jesus de Nazaré, é que a salvação, a promessa, a graça, não é só para os judeus, não é só para o povo da eleição do Antigo Testamento, mas que a salvação é para todos, para judeus e para gentios.

Esta afirmação faz tremer o mundo. Porque, se eu começo a construir uma lógica de vida em que já não é apenas para uns, mas o que eu vivo é para todos, isso obriga-me a uma largueza de coração, a uma largueza de horizontes, a uma capacidade de abraço, a uma capacidade de inclusão, a uma deslocação e uma relativização das fronteiras que não é fácil. Não é fácil.

Quando nós vemos, no Cristianismo das origens, uma tensão, um conflito latente e muitas vezes explícito, entre os judeus-cristãos – aqueles cristãos que dizem “para se ser cristão, tem de ser-se judeu, os homens têm de se circuncidar, as mulheres têm de viver determinadas práticas, não há outra maneira de ser cristão senão ser judeu, primeiro” – e quando Paulo vem dizer: “Não, para ser cristão não é preciso primeiro ser judeu. Para ser cristão pode-se vir de qualquer condição. Ser cristão consiste em definires a tua vida, definires profundamente a tua vida, não já pela raça, não já pelo sangue, não já pelo lugar do teu nascimento, mas pela tua ligação ao acontecimento Jesus, ao Seu nascimento e à Sua Páscoa”, esse é que se torna o teu momento fundador, o teu momento identitário, sejas homem, sejas mulher, sejas judeu, sejas grego, sejas escravo, sejas homem livre. O que passa a definir a tua vida é a tua relação com a pessoa de Jesus Cristo, com o acontecimento de Jesus Cristo.

Queridos irmãos, isto foi uma revolução. Mas esta é a revolução cristã, no sentido de dizer que a proposta de salvação é sempre uma proposta em aberto, é sempre uma proposta que toca a todos. Nós não somos o novo Povo de Deus, com novas fronteiras, semelhantes às do Povo de Deus antigo, nós não viemos substituir Israel, não somos os substitutos dos judeus. Não, os judeus continuam a ter o seu papel, mas o cristianismo veio alargar as prerrogativas de Israel a todo o mundo, a toda a gente, a todos os povos, a todas as culturas, a todas as condições. Nesse sentido, o universalismo tem de ser uma arte que cada um de nós pratica. O universalismo tem de ser alguma coisa que nos abrasa. Porque eu percebo que estou perante um cristão quando esse cristão pode, é chamado, deve, comer de tudo com todos. É uma coisa muito simples, ritual, não tem um interesse decisivo. Mas, por exemplo, enquanto os judeus têm, de facto, restrições alimentares e restrições de mesa – não comem o seu Shabbat com impuros, podem convidar alguém, mas não comem – e, da mesma forma, a outra religião monoteísta, o islão, e fazem, à volta da mesa, um lugar de afirmação identitária, os cristãos são os que estão disponíveis, que estão abertos a fazer comunhão, a fazer comunidade com qualquer pessoa, em qualquer lado, em qualquer latitude.

E isto, queridos irmãos, não é uma bela teoria, não é uma bonita abstração, não é um interessante ideal, tem de ser alguma coisa que no quotidiano nós vivemos, porque isso é que é a Epifania. Porque é que nós falamos do eclipse de Deus? Deus desapareceu, Deus não se vê, Deus não está em lado nenhum, não encontramos Deus nas escolas, nas universidades, nas empresas, na economia, nos media, nas famílias – é o eclipse de Deus. Porque é que Deus não está? Não está porque nós não o mostramos, porque nós não o trazemos, porque nós não o fazemos vivo, porque nós não nos colocamos nesta perspetiva universalista.

Dois mil anos depois, este continua a ser o tema da agenda cristã: o universalismo. Porque é aqui, de facto, que, cada vez mais, vamos aprofundando a mensagem de Jesus, a pessoa de Jesus, a poética de Jesus e procurando traduzi-la nas nossas vidas. Que cada um de nós se sinta responsável para que a luz, a estrela, possa brilhar em todos os corações, em todos os corações.

Aquilo que o Papa Francisco tem dito incessantemente, e de tantas maneiras – não desistir de ninguém, não descartar ninguém, não considerar o outro, quem quer que seja, descartável, mas poder voltar a colocar o outro na roda da vida – isso é o presépio a acontecer, isso é o cristianismo a maturar.

Queridos irmãos e irmãs, que maravilha é podermos viver o Natal, anualmente termos este tempo de Advento e Natal, que nos recentra naquela verdade essencial, que nos faz trabalhar interiormente, que nos deixa em sobressalto, nos treina para a atenção, para a escuta, para o Deus que vem e nos lembra que nós temos é de abrir as portas para receber de Deus o próprio Deus. E isso é uma coisa maravilhosa que, anualmente, a liturgia torna presente nas nossas vidas. Mas é muito importante que, como diz a frase final do Evangelho de Mateus, nós regressemos à nossa terra por outro caminho, pelo caminho que o Presépio nos ensina, pelo caminho que Jesus nos mostra. Porque, queridos irmãs e irmãos, não há só o caminho que nós estamos já a viver, há um outro caminho. Que outro caminho é este, do qual Jesus é o guia para a minha vida, para a tua vida? Possivelmente são caminhos com traduções muito diferentes. Mas, há um outro caminho, pelo qual cada um de nós é chamado a regressar.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo da Epifania do Senhor

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