Queridos irmãs e irmãos

Celebramos hoje a solenidade da grande Basílica de S. João de Latrão. Mesmo o Papa, vivendo ao lado da Basílica de S. Pedro, e normalmente tendo uma referência com a Basílica de S. Pedro, S. João de Latrão é a sua basílica, é a igreja, é a ecclesia onde o Papa oficia em nome próprio. Hoje, em todo o Ocidente, celebramos a festa dessa igreja, da dedicação dessa igreja, do primeiro dia da consagração dessa igreja, porque ela é o símbolo da unidade de todos os cristãos, de todos os católicos no mundo que têm na figura do Papa o sinal da comunhão entre si. O Papa é a grande figura da comunhão no mundo católico e em redor dele juntam-se as várias igrejas das dioceses por todo o mundo. Em Roma nós encontramos a Basílica de S. João de Latrão. Aqueles que já tiveram a possibilidade de visitar a basílica sabem que é uma coisa espantosa, é uma obra de arte e de arquitetura, um verdadeiro museu. Como são espantosas as basílicas de Roma: Santa Maria Maior, Santa Maria in Trastevere, para não falar em S. Pedro ou S. Paulo Extramuros… Nós também, à nossa medida, temos igrejas extraordinárias, mesmo na nossa cidade, a começar pela nossa Sé, os Jerónimos. Temos igrejas espantosas. Temos aqui esta nossa igreja. Por todo o mundo, quando vamos um pouco em viagem, em visita, encontramos igrejas e templos extraordinários. Uma das expressões da fé católica é também esta expressão concreta, os lugares onde os católicos se reúnem para rezar. Historicamente, e em termos artísticos, isso ganhou um peso que é um grande património da Humanidade.

Mas não tenhamos ilusões: há um equívoco, uma ambiguidade muito grande, que não se resolve, entre o que Jesus diz que é um templo e a construção que nós temos do templo. As igrejas cristãs, a começar pela Basílica de S. João de Latrão, não é verdadeiramente um templo. Jesus põe fim aos templos. As basílicas, as igrejas que se constroem, é aquilo que se pode fazer depois do fim. Este lugar onde estamos, ao qual temos tanto amor e que é tão bonito em si, esta pequena capela que era a capela de um palácio, que agora foi desagregada do palácio e se tornou o lugar da nossa comunidade, é um lugar a que temos tanto amor. Mas não tenhamos dúvidas: a fé não depende deste lugar. Não depende deste lugar físico nem de nenhum lugar físico. Isso é uma revolução que o Cristianismo veio trazer, porque a religião estava sempre, até Jesus, associada a um templo, a um lugar. O lugar é que era sagrado. No Antigo Testamento, a Shekhinah, a glória de Deus, habitava no santo dos santos do Templo. Por isso os judeus tinham de ir anualmente a Jerusalém, porque só ali tinham a possibilidade de encontrar Deus.

Quando Jesus, nas vésperas da sua Paixão, faz este grande sinal de entrar no Templo de Jerusalém, começa a derrubar as mesas dos cambistas e dos vendedores, e depois diz que destruirá aquele Templo, para os judeus é como se fosse um raio que caísse. “Mas como é que é isso? Este Templo levou cinco décadas a construir, como é que tu o destróis assim em três dias?” Depois, S. João diz-nos: “Mas Jesus falava do templo do seu corpo.” Aqui está, de facto, a grande revolução que o Cristianismo instala: falar do templo, na linguagem de Jesus, na gramática de Jesus, é falar do corpo. Quer dizer, é falar da vida, é falar da existência. É inseparável a experiência de Deus do nosso corpo e da nossa existência. Esse é que passa a ser o lugar sagrado. Não há lugar mais sagrado no mundo do que a vida de uma mulher e de um homem. Não há nem lugar mais belo, nem mais santo, do que qualquer homem e qualquer mulher. É o lugar mais sagrado do mundo porque é o lugar onde Deus está, na Sua forma mais plena, na Sua cintilação, na Sua expressão. A vida do Homem é o lugar de Deus. Claro que os templos têm a sua beleza, têm a sua história. Os templos são importantes, e queria falar um bocadinho disso também nesta homilia. Mas o que Jesus vem trazer é isto: é a tua vida o lugar de Deus.

No funeral da Sophia de Mello Breyner, há uns anos atrás, o frei Bento, que fez a homilia, lembrava que a Sophia de Mello Breyner muitas vezes (e nós sabemos até que ponto ela era uma apreciadora da beleza da grande tradição, das grandes basílicas) pedia: “Quando é que vamos rezar uma missa junto do mar ou num bosque?” Esta necessidade que ela tinha de sair do templo é uma necessidade cristã. A nossa fé não está dependente já de um templo. A nossa fé está, sim, dependente do reconhecimento, humilde e esperançoso, de que na nossa vida Deus está, Deus habita. O coração, o corpo de cada um de nós é a morada do próprio Deus.

O Cristianismo nasce num momento fraturante da história religiosa judaico-cristã, que é o momento da destruição do Templo. No ano 70, as tropas do imperador entram em Jerusalém e arrasam o Templo. Aquele momento é vivido pelo Judaísmo como o fim da história, em que acaba o Judaísmo. E perguntam: “Mas como é possível rezar? Como é possível oferecer a Deus a nossa vida sem os sacrifícios, sem o Templo, sem a máquina cultual?” Os cristãos lembraram-se que tinha sido o próprio Jesus a antecipar a destruição do Templo, isto é, a desativar o Templo. Jesus entra no Templo e desativa-o. Quando Jesus entra no Templo e diz “Eu falo do templo do meu corpo”, aquele corpo grande que é o Templo já não é aquilo. Já não é aquele lugar da relação com Deus mas passa a ser o corpo do sujeito, passa a ser o corpo individual. Depois os cristãos vão explorar esta reflexão. Por exemplo, um texto como o da Carta aos Hebreus vai dizer que o único sacerdote é Cristo. O sacerdócio que vem de Aarão, séculos e séculos, aquela grande máquina de sacrifícios, tudo isso passou. O grande culto deixa de ser uma máquina sacrificial feita num lugar, feita segundo uma determinada gramática religiosa e passa a ser própria existência. A vida é o lugar da adoração de Deus, da descoberta de Deus, da procura de Deus. A Carta aos Hebreus diz: “Senhor, não me tornaste sacerdote, não me deste um Templo mas deste-me um corpo.” A cada um de nós Deus deu um corpo. Deus deu uma vida, que é o conjunto daquilo que somos, os nossos sentidos, a nossa interioridade. Deus deu-nos uma vida para aí buscarmos o lugar de Deus.

Por isso, queridos irmãs e irmãos, nós hoje celebramos a festa da dedicação da igreja de S. João de Latrão, mas não celebramos já um templo, porque celebramos o templo, em cada domingo, das pedras vivas que somos nós, cristãos. Como nos lembra ainda hoje a passagem de S. Paulo na Carta aos Coríntios: “Sois vós as pedras vivas.” Isto significa o quê? Significa que a nossa religião, a prática religiosa, passa muito por assumir a nossa história, assumir o que somos. Não é alienarmos a nossa vida a troco de um conjunto de práticas, um conjunto de ritos que a gente vai fazer. Não, os ritos estão ao serviço do encontro connosco próprios, os ritos estão ao serviço da consciência e do reconhecimento que fazemos da nossa vida. Os ritos estão ao serviço da esperança com que Deus quer contaminar aquilo que somos.

Por isso, queridos irmãs e irmãos, a nossa vida é a autobiografia de Deus, a nossa vida é o lugar onde Deus se conta, onde Deus se narra, onde Deus se relata. Por isso é tão importante nós estarmos aqui, estarmos de corpo inteiro, não como quem vem a um templo mas como quem está em casa, como quem está em si, como quem entra dentro de si, como quem se reencontra com a sua história. Nós estamos aqui para respirarmos, para nos alimentarmos, para vivermos. E isso é que é mais importante do que todas as pedras. Às vezes, a história e o património são um atrapalho, um impedimento, são coisas maravilhosas em si mas podem ser pura tralha que esmaga a vida. Porquê? Porque temos o peso de uma tradição que nos faz esquecer o óbvio. O óbvio é que Deus ama de forma única cada um de nós e quer que a sua glória seja o homem vivo, que nós possamos viver plenamente – esse é que é o grande templo, o grande lugar.

Muitas vezes a palavra de Jesus que fala do templo do Seu corpo, e depois de S. Paulo que por diversas vezes fala do templo que é o nosso corpo, foi lida unicamente em chave moral para, no fundo, nós termos de defender a pureza, e uma pureza ritualista, que tem a ver com os templos antigos, mantermos uma pureza no nosso corpo, porque isso é que faz de nós um templo. Claro que é importante a pureza de coração, é evidente que é importante, mas essa frase de Jesus e de S. Paulo é para entender em chave existencial. É a nossa vida que é o lugar de Deus. Nesse sentido é que nós temos a capacidade de transformar o tempo, a história, num templo, num lugar de encontro, num lugar onde ensaiamos uma relação, num lugar onde se constrói verdadeiramente uma história. Isso é, sem dúvida, o elemento mais importante.

Queridos irmãs e irmãos, ao celebrarmos a Basílica de S. João de Latrão, no fundo, estamos a celebrar as nossas vidas e o que significa a nossa vida como lugar de Deus. A grande pergunta é como é que na vida que eu sou, como é que na história que eu construo, como é que na história Deus se revela? Como é que eu O encontro? Como é que eu estabeleço uma relação, não apenas implícita com Deus, mas como é que eu estabeleço na minha vida, na minha história, com a pessoa que eu sou, como é que eu estabeleço uma relação vivificante com o próprio Deus? Esse é que é o tema, essa é que é a questão que cada um de nós é chamado a aprofundar, a construir. Vamos rezar assim uns pelos outros e celebrar esta grande beleza que o Cristianismo traz à vida humana, que é dizer: “Olha, tu és o lugar onde Deus vive, és o lugar que Deus escolheu para viver no mundo.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade da Dedicação da Basílica de São João de Latrão

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