Queridos irmãs e irmãos

Hoje, nesta Festa da Exaltação da Santa Cruz, nós somos chamados a colocar os nossos olhos na Cruz do Senhor e a percebê-la não só como um facto único da história da Humanidade, um facto que nos faz abrir os olhos, um facto que vem ao inverso, que contraria a ordem do mundo pela espetacularidade da sua dádiva, ou para alguns, do seu absurdo, que nos faz escancarar a mente perante a Cruz do Senhor. Mas percebê-la não como um acontecimento inédito que diz respeito unicamente àquele profeta, messias, Jesus de Nazaré, mas percebermos a Cruz como medida do que nos é proposto viver. Percebermos a Cruz como caminho que nos é dado, objetivamente, para percorrermos. E fazermos disso o critério, o modo, o estilo, a gramática da nossa própria vida.

O que é que nos diz a Cruz do Senhor? Uma das mais extraordinárias explicações é, sem dúvida, a deste hino da Carta aos Filipenses que hoje nós proclamamos na segunda leitura. Este hino, que nos aparece na Carta de Paulo aos cristãos de Filipos, possivelmente era até um cântico anterior, uma profissão de fé, um credo que a comunidade cristã já tinha na sua Liturgia e que S. Paulo quando escreve aos Filipenses assume esse cântico para lembrar. É interessante o que S. Paulo coloca como moldura para esta rememoração que propõe aos cristãos de Filipos. S. Paulo diz “Irmãos, tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”, isto é “Irmãos, colocai no coração aquilo que habitou o coração de Jesus”, “Irmãos, vivei à maneira de Jesus, pensai e senti como Jesus pensou e sentiu”. E o que é que eram os sentimentos de Jesus? Então nós temos isto que S. Paulo relembra: “Cristo, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus mas humilhou-se a si próprio, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de homem”. Mas não ficou apenas como mais um homem ou o primeiro, o Príncipe dos homens. Ele humilhou-se ainda mais aparecendo como o último dos homens. Obedecendo até à morte e morte de cruz. Assumindo a condição de escravo. Este texto foi, na história da teologia cristã, da doutrina cristã, a base para o que se chama um pensamento quenótico. Kenosys, em grego, quer dizer queda, humilhação, esvaziamento.

O Cristianismo não é nós sermos uns inchados espiritualmente. “Ah, eu sou o maior, eu tenho uma fé, eu acredito em coisas sublimes, eu sou melhor moralmente do que todos os pecadores. Eu tenho isto, eu tenho aquilo”. O Cristianismo não é uma arte de inchar, é uma arte de esvaziar. A verdade é que nós esvaziamos pouco. E esvaziar o que é que quer dizer? Quer dizer realizar no seu coração aquele movimento que é típico do amor. Porque o amor, se nós pensarmos bem, não é outra coisa senão um esvaziamento de si. Aquilo que o amor pede a cada um é que se torne um mendigo, um suplicante, é que se coloque ao lado do outro como quem serve, como quem se coloca de joelhos, como quem se baixa, como quem se torna o último. O amor é o contrário da afirmação do poder. A afirmação do poder em que somos primeiros, em que dominamos, em que pensamos. O amor em que somos o servo , em que lavamos os pés, em que servimos, em que nos colocamos humildemente, e até com humilhação, ao pé do outro.

Qual é a utopia cristã? Qual é a proposta cristã? Eu diria, a insolência da proposta cristã qual é? É acreditar que aquilo que até pode acontecer entre duas pessoas, que é amarem-se e descobrir nesse amor que não podem viver sem a outra, que têm de viver numa doação, numa dádiva, numa entrega em relação aquela pessoa concreta, seja mulher seja homem… ou que aquilo que nós experimentamos num  pequeno círculo, da nossa família, por exemplo, em que sentimos a voz do sangue chamar, e estamos ali de uma forma incondicional, aconteça o que acontecer nós estamos com aquelas pessoas, por aquelas pessoas… ou até com os nossos amigos, que são irmãos que nós escolhemos e por quem nós damos tudo, com quem estamos sempre nas horas boas e nas horas más… nós podermos alargar esta experiência do amor a todos, a todos. É uma insolência, isto é, é alguma coisa impensável. Porque amar os nossos nós compreendemos, mas agora amar os estranhos, amar os nossos inimigos, amar os que nos perseguem, amar os que nós não conhecemos, amar os que estão fora do nosso círculo, amar os que pensam diferente de nós, isto é, fazer do amor, fazer daquilo que colocou Jesus na Cruz, que é o amar sem medida, fazer desse amor sem medida a medida da nossa vida é a proposta que Cristo nos faz.

Isto é vivermos num estado de paixão, vivermos nesta paixão de Cristo a nossa vida inteira. E não apenas em relação a esta pessoa que é a minha mulher, ou o meu marido, ou o meu amigo, ou o meu filho, ou a minha mãe, mas em relação ao mundo, em relação aos outros. Ser esta a minha forma de viver, a minha forma de ser. Porque Cristo veio ao mundo não para condenar o mundo mas para o salvar. E Deus enviou o seu Filho ao mundo não para O perder mas porque O amava sem medida. Cada um de nós é chamado a ser testemunha deste amor sem medida que Deus tem pelo mundo e tem pela pessoa humana. Sermos testemunhas deste amor assim, incondicional, inservil, desmedido. Esta é a utopia cristã. O Cristianismo precisa de cristãos tocados por um amor assim, abrasados por um amor assim, aquela civilização do amor que tem sido no magistério social da Igreja o grande propósito. Nós temos de ser fermento de uma civilização do amor. Não é uma abstração, não é uma ideia bonita para repetir, não é um chavão retórico. É um exercício, é um compromisso concreto que nós temos de tomar.

Queridos irmãos, Cristo está levantado da Cruz. Para quê? Porque é que nós cristãos fizemos de um crucificado o grande símbolo que nós não podemos deixar de ter diante dos olhos? Porque é que nos ajoelhamos? Porque é que veneramos? Porque é que amamos Aquele dependurado numa Cruz se não for para ter no nosso coração os sentimentos que O habitaram, se não for para decalcá-lO em nós até que Ele se confunda com o que somos, com o que fazemos, com o que pensamos e com o que sentimos?

Queridos irmãos, a Exaltação da Santa Cruz não acontece fora do mundo, não acontece nas páginas dos jornais, não acontece na abertura das notícias, não acontece por aí. A Exaltação da Santa Cruz acontece no segredo do nosso coração quando nós dizemos sim a Jesus, sim ao que Ele nos propõe como caminho, como vida.

Pe. José Tolentino Mendonça, Festa da Exaltação da Santa Cruz

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