Queridos irmãs e irmãos

Por vezes as dúvidas dos outros iluminam as nossas próprias dúvidas, aquelas que não conseguimos nomear.

Esta pergunta que os judeus, interlocutores de Jesus nesta página do Evangelho de São João, fazem ao Senhor ajuda ou desperta-nos para fazermos também um caminho em torno às palavras de Jesus.

Eles perguntam: Como é que Ele pode dar-nos a sua carne a comer? E é, de facto, uma pergunta importante para nós que dominicalmente nos sentamos à volta desta mesa para nos alimentarmos do corpo e sangue do Senhor.

É importante que nós perguntemos: Mas como é que é isso? Como é que Ele pode dar-nos a sua carne a comer?

A resposta mais simples que nós cristãos temos para tudo é: é um mistério, é um mistério. Nós não sabemos como é, mas sabemos que acontece.

Ora, por vezes, o mistério é uma forma de adiarmos o mergulho mais fundo que temos que fazer. Por vezes, dizer é um mistério é a mesma coisa que dizer: não é para mim, não tenho de entender, é só uma coisa que eu tenho de aceitar, que eu tenho de consumir, sem perceber, sem compreender.

A mesa da eucaristia foi o grande sinal que Jesus deixou aos seus, o grande sinal. Jesus não deixou outro. O grande sinal é estarmos juntos à volta de uma mesa. Jesus quis que este sinal fosse compreensível, que nós o pudéssemos ler, o pudéssemos entender facilmente, desde os pequeninos até a uma idade adulta avançada.

Nós precisamos compreender o que se passa aqui em cima desta mesa e à volta desta mesa, porque só compreendendo é que nós podemos viver. É claro que a nossa fome de maravilhoso e de milagre prefere muitas vezes partir para mais longe e não olhar para o óbvio. Sem interrogar esse lado de mistério que a eucaristia também tem, claro, eu gostava que nós olhássemos para o óbvio, porque o óbvio também diz coisas fundamentais ao nosso coração e à nossa fé.

O que é que é o óbvio? É a resposta à pergunta que fazem a Jesus: Como é que um homem pode dar a sua carne a comer a outros? Como é que isso é possível?

Isso é possível se nós pensarmos nas nossas mesas, nas nossas refeições. Porque é que nos sentamos à mesa uns com os outros? Porque é que não comemos sozinhos? Eu tenho uma amiga querida que vive sozinha. Uma coisa que me faz sofrer é ela ter dito que comendo sozinha – ela tem dois gatinhos e vive em casa com essa companhia – não há refeição nenhuma que não se lembre que comer é gregário. Comer é gregário. Contudo, a maior parte das vezes, ela come sozinha. E tantos, na nossa sociedade, comem sozinhos. Mas nós sabemos, no fundo de nós, que comer é gregário, Isto é, que comer é um ato comunitário.

E porquê? Porque é que é tão saboroso comermos com a nossa família, com os nossos amigos, aproveitarmos a mesa para sabermos uns dos outros, o que é que tu andas a fazer, combinarmos à volta da mesa questões fundamentais da vida, ou então, as grandes celebrações, os pequenos e os grandes marcos da nossa vida? Porque é  que é tão bom à volta da mesa?

É claro que há petiscos fantásticos, há uma cozinheira óptima, há um cozinheiro muito bom e então é muito agradável estar à mesa. Ora, mesmo quando o cozinheiro é genial, não é isso que nos faz sentar à volta de uma mesa. Porque mesmo quando a cozinha é um desastre, nós continuamos a sentarmo-nos à volta da mesa.

Isto quer dizer que o mais importante não é a cozinha, o mais importante é estarmos à volta da mesa.

E porque é que é importante estarmos à volta da mesa? Porque nos alimentamos do mesmo pão? Sem dúvida! Mas porque nos alimentamos uns dos outros. Nós sentamo-nos à volta da mesa, porque nos alimentamos uns dos outros, porque precisamos de interiorizar a presença uns dos outros, a palavra uns dos outros, o carinho, a presença, o afeto, a amizade, a inteligência, o humor. Precisamos alimentarmo-nos disso. E isso torna-se um verdadeiro alimento para nós.

Quando Jesus se sentava à volta da mesa, e sentou-se muitas vezes ao longo da vida, de uma forma deliberada e quando se sentou à volta da mesa a última vez com os seus discípulos e disse «Este pão é a minha carne, este vinho é o meu sangue que Eu vou entregar por vós», Jesus não estava a fazer uma coisa que não tem nada a ver nossa realidade.

Jesus estava a partir da nossa realidade, estava a usar a gramática que nos é mais próxima, a dizer: O que Eu fiz não foi senão viver para vós. Viver para vós, entregar, dar a minha vida é tornar-me alimento, é deixar-me ser, é colocar-me ao serviço.

Isso é fazer da Sua carne comida, isso é fazer da Sua carne alimento.

Nós estamos à volta da mesa para nos alimentarmos de Jesus.  Hoje celebramos a festa da Eucaristia. A Eucaristia não é uma migalhinha de Jesus, um bocadinho de Jesus que é distribuído por cada um de nós. Não. A Eucaristia é Jesus inteiro que se dá a cada um de nós. Jesus inteiro. Nós temos de nos alimentar da sua palavra, da sua paixão, da sua revelação, do seu estilo de viver, da sua alegria, do seu entusiasmo, do que Ele nos deu a ver, das coisas únicas que só Ele nos deu a ver. Nós alimentamo-nos disso. Isso torna-se para nós força, torna-se energia, torna-se para nós capacidade de ser.

É por isso que nós não conseguimos viver sem eucaristia. É por isso que nós Igreja nascemos e renascemos sempre à volta desta mesa. Porquê? Porque Ele é o nosso alimento, porque Ele nos alimenta.

Alimenta-nos porque se faz dom. As palavras que Jesus diz: A minha carne é verdadeira comida.

Eu penso, e pergunto-me: e a nossa carne? Estarmos juntos dominicalmente para celebrarmos o dom que Jesus dá de si, a oferta, o transformar a vida em alimento, o transformar a vida em comida, o transformar a vida em dom que Jesus fez o que nos leva a nós a fazer? Será que a nossa vida é alimento? Será que a nossa vida é comida?

Porque não é automático, não é automático O nosso corpo será comida para bichinhos, um dia. Mas, de resto, nós podemos viver uma vida inteira sem que o nosso corpo seja alimento para ninguém. Nós podemos viver no egoísmo, na indiferença, no deixa-me em paz, numa zona de conforto que impermeabiliza a nossa vida. Não deixamos ninguém tocar, ninguém nos pede nada, ninguém nos conta nada, ninguém vem ao nosso encontro  porque também nós vivemos dentro de uma cápsula, nós vivemos a guardar e resguardar, a proteger a nossa vida.

Quando nós fazemos isso a nossa vida não se torna comida para ninguém. É uma vida inteira óptima, fantástica, mas não é pão. Essa vida não é pão.

Quando Jesus diz “a minha carne é comida”, o grande desafio Dele é que eu torne a minha carne comida, que eu torne a minha vida oferta, que eu torne a minha vida dom.

Por isso, já os Padres da Igreja, os primeiros teólogos, diziam : «O cristão que celebra a eucaristia sai eucaristificado». Isto é, Jesus contagia-nos com o seu exemplo.

O que nós temos que fazer é celebrar a eucaristia na vida. Isto é, de dizer: Olha, eu sou pão para ti, usa, come, leva, reparte, alimenta-te, eu estou aqui, eu posso, eu vou.

É, no fundo, esta disponibilidade para servir que torna a nossa vida uma vida semelhante à de Jesus, semelhante à de Jesus.

Queridos irmãs e irmãos, à volta da mesa Jesus dá-nos a grande prova de amor, mas também a grande lição. A eucaristia é uma lição. Uma lição insistente que Jesus nos dá. Nós vimos aqui aprender com Jesus como se faz e todos precisamos de aprender como fazer dos meus dias, como fazer do que eu tenho, como fazer do que eu sei, como fazer do que eu sonho, do que eu desejo, como fazer da força que eu transporto comida, verdadeira comida. Como tornar a minha carne verdadeiro alimento. É, no fundo, esse o verdadeiro desafio que Jesus faz a cada um de nós.

Nós sabemos que o pão pode ficar duro no saco. O pão fica duro no saco. Se o pão não é colocado sobre a mesa e não é servido, ele endurece e perde-se.

E nós podemos perder a nossa vida. Podemos perder a nossa vida. Por isso, a palavra do Evangelho: quem quer ganhar a vida, tem que perdê-la, tem que se dar, tem que se entregar.

A grande lição de Jesus é essa: Entrega-te. Entrega-te. Torna-te alimento, faz-te pão. Oferece-te. Dá-te. Porque só assim é que nós percebemos a plenitude. A plenitude divina da nossa humaníssima vida.

Pe. José Tolentino Mendonça

Homilia de 22 de Junho de 2014, na Capela do Rato

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