Queridos irmãs e irmãos

Para olharmos para a nossa vida muitas vezes temos de encontrar outros pontos de vista, outros ângulos, outras perspetivas. Vivemos tão em cima dos acontecimentos, tão capturados pela sua intensidade, que por estarem tão próximos do nosso olhar e do nosso coração verdadeiramente nós não os conseguimos ver. Por isso é conveniente mudarmos de sítio, mudarmos de posição, olharmos de outro lado para que, nesse distanciamento, ganhemos as condições necessárias para podermos ver aquilo que, por estar tão perto, não avistamos.

É isso que também Jesus faz. Jesus sai de casa e vai para a beira-mar. Este tempo do Verão que começou e que, de uma forma ou de outra, nos permite sair de casa, ir para outro lugar, nem que seja de ir até ao jardim, é também uma oportunidade. Não de evasão da nossa realidade, não é uma vida em fuga que o Verão promove, mas é também uma possibilidade de olharmos para aquilo que vivemos de outro ângulo e, nesse sentido, para  olharmos melhor para a nossa própria  vida.

Jesus, à beira do mar, conta parábolas e as parábolas são também isso. A parábola é uma palavra que se desloca, literalmente. Etimologicamente, parábola quer dizer isso, quer dizer movimento, lançar mais longe – quando a nossa própria palavra, o nosso próprio discurso, ganha uma distância em relação ao tipo de palavra e discursividade que é aquela de todos os dias. E, tal como nós precisamos de casa e sair para a beira-mar ou para a montanha ou para o jardim ou para uma exterioridade em relação à nossa vida, a nossa própria linguagem também precisa de uma coisa semelhante. Isto é, precisamos de nos reencontrar com os símbolos, com um tipo de linguagem que não seja a linguagem utilitária que serve para isto e para aquilo. Confrontarmos, no fundo, com uma palavra que seja capaz de dizer, até pelo seu mistério, até pelo seu enigma, aquilo que normalmente não cabe nas nossas palavras de todos os dias. Por isso Jesus, em vez de falar dos nossos caminhos, das nossas viagens curtas, do nosso viver atropelado, da nossa ofegância, daquilo que conseguimos ou não conseguimos, do balancete interior de todos os dias, Jesus, em vez de falar de Maria, João e de António, e de Tolentino, Jesus fala de sementes.

E diz, não, vamos deixar isto e aquilo, quem tem razão, quem não tem razão, quem fez e não fez…Vamos deixar isso. Vamos falar de sementes. Isto é, vamos recuperar o sentido original da vida. Vamos perguntar porque é que estamos aqui.

Vamo-nos perguntar pelas razões profundas do nosso viver. Que é uma coisa que às vezes na luta do dia-a-dia, no combate, nós não temos esse o distanciamento necessário. O que é que eu quero, o que é que eu sou, porque é que eu ando aqui, porque é que eu persigo isto, o que é o meu desejo?

No fundo, as perguntas profundas, só vêm quando a gente se distancia. Então, em vez de falar da vidinha, falemos de sementes, sementes que o próprio Deus semeia na nossa vida.

Cada um de nós acolhe tantas sementes! Nós somos terra, nós somos essa grande recoleção, nós somos território que é atravessado por tanta coisa, atravessado por tanta coisa que chega até nós, coisas do mundo e coisas de Deus.

No fundo, a grande questão que a parábola de Jesus coloca é: O que é que nós fazemos com aquilo que recebemos? O que temos feito com o que nos é dado? O que é que nós fazemos com o dom?

Toda a vida é dom. Estarmos aqui hoje reunidos, nesta hora, nesta celebração é um dom. A vida foi-nos dada. Nós estamos aqui como representantes, testemunhas, de um grande dom. O que é que nós fazemos com esse dom?

Jesus diz que fazemos coisas muito diferentes e que se podem resumir nisto: ou na fecundidade ou na esterilidade. A nossa vida pode ser estéril e pode ser fecunda.  Isto nós sabemos no íntimo de nós próprios. Como tantas vezes com o dom recebido, nós conseguimos replicá-lo, levá-lo mais longe, da vida não fazemos vida, mas fazemos morte, tristeza, desalento.

O que é da vida fazer vida? Isto é, o que é sermos multiplicadores, bons condutores do dom que nos é dado? É quando a nossa vida é terra boa. É quando na nossa vida temos capacidade de acolhimento e fazemos um caminho com aquilo que nos é dado. A palavra de Deus, o amor de Deus é-nos dado. Temos gosto, capacidade, vontade, de fazer um caminho com isso que nos é dado? Ou é como, digamos, alguma coisa que cai mas não penetra no fundo da nossa vida, do nosso coração, do nosso desejo?

O que é que estamos dispostos a fazer? No fundo, o que é que cada um de nós tem de transformar na sua vida para a fazer passar de um lugar de superficialidade, onde nada entra, porque é uma vida defendida e armada, para uma vida que é uma terra boa, onde a semente pode começar uma história, onde a semente pode ser promessa que se concretiza?

O quê que cada um de nós tem de fazer para passar da superficialidade à profundidade?

É com estas perguntas que Jesus nos deixa. São perguntas vitais na nossa vida, que nós não podemos adiar, não podemos fazer de conta que não estão aí. Trata-se de viver e consumar, de realizar plenamente a vida ou de deixá-la adiada, suspensa, até estragada, a vida entre os espinhos e entre as pedras, a vida que nunca se encontrou com a possibilidade de ser fecunda e de ser plena.

São Paulo, na Carta aos Romanos, dá-nos um dos textos mais extraordinários do pensamento Paulino, que diz isto: como a semente vive um estado de parto, a semente está sempre a rebentar, a nascer, quando é colocada na terra. A nossa própria vida também é um parto. As nossas dores não são dores de morte, mas são dores de parto. Aquilo que nós pensamos é o fim, não, é o começo, é o princípio, é o início. Os nossos gemidos são os gemidos da parturiente que dá à luz. Nesse sentido, a vida não é uma história absurda, uma história sem sentido. Mas a vida é um nascimento. A nossa condição é a condição daquelas e daqueles que geram, que fazem a gestação do próprio mundo, da própria vida. É por isso, queridos irmãs e irmãos, uma palavra de extraordinária esperança.

Nós estamos à porta do Verão. Também nós deixamos a nossa casa e vamos para outro sítio. Também nós nos podemos reencontrar com uma linguagem que seja uma linguagem que fale da vida e daquilo que a vida é. Precisamos disso. Mas a grande questão que Jesus nos coloca é: o que tens feito da tua vida? O que queres fazer da tua vida?

A tua vida é um campo de fecundidade ou um é campo de esterilidade?

O que é que tu tens de transformar para poderes acolher melhor, para poderes fazer um caminho, construir uma história com o dom que em cada dia te visita?

Tu olhas para a tua própria vida como um parto ou olhas como uma morte? Aqui há uma conversão muito grande. Às vezes olhamos para a nossa vida e sentimos as coisas a morrer. Na perspetiva cristã, nós somos chamados a olhar a nossa vida e sentirmos as coisas a nascer, mas para isso temos de converter o nosso olhar.

Marcel Proust dizia que a verdadeira viagem não é aquela que nos leva de um sítio para o outro. A verdadeira viagem é aquela que transforma o nosso olhar. É disso também que Jesus nos fala, da transformação da nossa maneira de olhar a vida, de a  querer e de a abraçar.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XV do Tempo Comum

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