Queridos irmãs e irmãos.

Esta carta aos Efésios diz-nos, de uma forma muito incisiva, aquilo a que somos chamados neste tempo pascal. Diz-nos o autor que “o Senhor ilumine os olhos do vosso coração para compreenderdes a esperança a que fostes chamados”. Esta esperança, à qual o Senhor nos chama, só se vê bem com os olhos do coração.

É o nosso coração que mesmo duvidando, mesmo colocando tantas perguntas, mesmo carregado de tanto medo e de tanta noite, pode entender a dimensão da esperança a que fomos chamados. É interessante ver que, mesmo naquele momento derradeiro em que Jesus se aproxima dos discípulos e se vem despedir deles, alguns duvidaram. Isto quer dizer que as dúvidas fazem parte do nosso caminho até ao fim.

Aqueles que duvidaram naquele momento representam-nos a todos que vivemos sempre nesta incerteza. Queremos, sabemos, conhecemos, mas ao mesmo tempo hesitamos, não sabemos, não queremos ou não queremos sempre. Mas essa dúvida não é um problema para Jesus. É interessante que Jesus investe os discípulos na missão mesmo na dúvida. Alguns duvidaram. Mas Jesus não disse que aquela missão era só para os que acreditavam e acreditam de uma forma firme. Jesus dá missão a todos.

As dúvidas, a dificuldade do nosso caminho, a dificuldade de ver a esperança a que somos chamados, faz parte da nossa condição. Mas temos que continuamente pedir o Espirito Santo para nos esclarecer, para nos iluminar, para nos guiar até à verdade total.

No lugar onde a tradição diz que aconteceu esta cena da ascensão de Jesus aos céus há um pequeno templo. É um templo muito engraçado, porque é um templo cristão, e no fundo os cristãos vão ali, mas é uma família muçulmana que tem a chave. Quando vamos lá visitar, vem essa família muçulmana que abre. De maneira que esta capela está num campo de uma família muçulmana, e pertence-lhe, e isso também é bonito.

Quando chegamos lá, é um templo ao mesmo tempo belo e desconcertante, pelo seu vazio, porque não tem nada. É uma capela circular e tem rocha. Na rocha, essa capela tem apenas uma coisa, tem apenas uma pegada, funda, gravada na rocha. Mais nada. A ideia é extraordinária: quando Jesus subia aos Céus, para Ele se elevar, Ele carregou com mais força num dos pés, para levantar o outro e, quando Ele carregou com mais força, essa pegada ficou gravada. Esta pedra, queridos irmãs e irmãos, é o símbolo do nosso coração.

Jesus deixou esta pegada, este sinal inapagável, este sinal indelével, no nosso coração. Por isso nós sabemos que Ele está sempre connosco, porque há um traço, há um sinal e há esta palavra que nós vamos escutar a vida inteira:

“Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”.

A certeza da companhia, a certeza da presença amorosa de Jesus na nossa vida é a certeza que nos constrói, é a certeza que nos edifica.

Por isso, na Ascensão, nós celebramos duas coisas aparentemente contraditórias, mas que não nos destroem, não nos põem em causa. Por um lado Jesus parte, Jesus desaparece da nossa vista. Por outro lado, Ele está sempre connosco até ao fim dos tempos.

Se pensarmos bem não tem lógica nenhuma. Ele então desaparece e está sempre connosco? Como é que isso é possível? Mas é nesta contradição, entre os que olhos vêem e aquilo que o coração sabe, aquilo que o coração sabe e que os nossos olhos ignoram, que se aloja também o mistério da própria fé.

O importante é cada um de nós sentir a presença de Jesus, não o encontramos ao cruzar da esquina, os nossos olhos não o avistam nas ruas do mundo, nas ruas da nossa cidade. Contudo, Ele é o companheiro que caminha ao nosso lado. Não nos deixa nunca. É a certeza dessa presença que é fonte da nossa vida, desta vida nova que é a vida pascal que Ele veio plantar em nós.

Pe. Tolentino, Homilia do Domingo da Ascensão do Senhor

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