Queridos Irmãs e Irmãos,

Ao longo dos textos que nesta Semana Santa nós fomos lendo, desde domingo passado, em que lemos a Narrativa da Paixão do Evangelho de São Mateus, quinta-feira lemos São João, depois lemos São Lucas, hoje estamos a ler São João, ainda há a possibilidade de ler São Lucas, o Evangelho de Emaús, há um aspeto que é comum a todas as narrações: o mistério de Jesus não é uma verdade pré-fabricada, não é uma verdade acabada. Que está feita, e cai, e é dita, e é assim. Não, é uma verdade que se insinua no claro- escuro, e que pede uma procura, pede uma interpretação.

E, se quisermos, as primeiras comunidades cristãs, muito apoiadas no testemunho dos apóstolos, o que é que fazem? Fazem a interpretação, a hermenêutica dos acontecimentos de que são testemunhas. E, no fundo, esse esforço hermenêutico continua. Nós estamos aqui, dois mil anos depois reunidos em assembleia nesta manhã de Páscoa. O que é que nós estamos a fazer aqui? Estamos a tentar encontrar um sentido. E um sentido não arqueológico, mas um sentido que seja também significativo para as nossas vidas. Mas estamos igualmente à procura de um sentido para estas palavras que nós ouvimos e que são palavras que nos aceleram, que nos fazem correr.

Nós vemos Madalena que vai ao sepulcro. Não encontra, vem dizer a João e a Pedro: «O Senhor não está no sepulcro, alguma coisa aconteceu» e eles saem disparados a correr. E quando chegam lá, também não é que percebam logo tudo. Olham os sinais e ficam perplexos sem saber o que pensar.

E depois acontece isto que é a chave, digamos, da própria experiência cristã: “Viu e acreditou”. Mas o quê que ele viu? Não há nada para ver ali. Viu o que não se pode ver. Viu o vazio, viu a ausência, viu o não estar. Mas na fé, ele interpretou aquele sepulcro vazio como sinal de uma presença, que agora o nosso coração desenha e torna o fundamento da nossa própria vida, que é a presença daquele que está connosco, todos os dias, até ao fim dos tempos.

Queridos irmãos, nós não viemos aqui celebrar uma verdade acabada. Viemos aqui para nos tornarmos buscadores, viemos aqui para ir ao sepulcro como Maria Madalena, viemos aqui para correr, para sentir que o coração nos sai pela boca, porque é uma notícia tão surpreendente, tão nova, que nós temos que perguntar o que é isto? Nós cristãos temos que nos perguntar: mas o que é isto que eu celebro? O que é isto que me transmitiram? Porque é que eu estou aqui? Por uma verdade tão fora de tudo, uma coisa tão inédita. Nunca vista.

O que é isto? O que é isto? E cada um de nós precisa de responder. Porque, no fundo, aquilo que nós vemos acontecer nos textos sagrados é este esforço por interpretar, por dizer o que é isto para nós. Por dizer o que é isto no caminho que nós fazemos.

E, queridos irmãos, a Páscoa não é um momento cultural, não é um momento sociológico, não é um momento de encontro entre nós, não é uma tradição interessante, antropológica.

A Páscoa é uma insurreição, a Páscoa é alguma coisa disruptiva, no modo como a história se constrói habitualmente. A Páscoa é a revelação de uma outra coisa, é uma fenda, é uma brecha, porque há um homem que se liberta da própria morte.

Há um insubmisso em relação à morte. E esse seu gesto, esse acontecimento, desfataliza a história. Torna a história outra coisa. Há um antes e um depois para nós. A história é outra coisa.

E esta manhã não é uma manhã igual às outras. É uma manhã que nos transtorna, que nos transtorna. Porque intimamente nós somos puxados para outra realidade. E nessa realidade nós olhamos para a vida e para nós próprios com outros olhos, com uma outra visão, com uma outra perspetiva.

Há uma tradição muito bela, ali na zona de Véneto, em Itália, que é: na manhã de Páscoa os camponeses vão ao rio lavar os olhos. E, no fundo, é isto que nós devíamos fazer.

A água que foi derramada sobre nós, é uma água para nos lavar os olhos, para nos dar uma nova visão da realidade. Uma visão que parte de Cristo e deste acontecimento de Cristo. E, tomando este acontecimento, nós vamos agora revisitar a história de Jesus, mas a nossa própria história.

Sentindo que a Ressurreição nos traz a todos implicados, nós estamos implicados nisto. Nós não somos espectadores, somos implicados. Somos parte deste caso, absolutamente inédito, de novidade, de insubmissão na própria história. Há um sepulcro que está vazio. Há um crucificado que ressuscitou. Há um homem que saiu da fatalidade da história, nasce e morre.

Há um homem que nos diz que a vida pode ser outra coisa. E é isso que nós estamos a tentar compreender. A tentar compreender. Nós estamos aqui a tentar compreender o que é isto. E, no fundo, o nosso caminho cristão não é outra coisa do que tentar decifrar o mistério, tentar dizer mas o que é isto, e o que é isto para mim, o que significa isto para a minha própria vida.

Há uma das antífonas mais repetidas neste tempo Pascal: Resurrexit, sicut dixit. Ressuscitou, conforme disse, como disse.

Mas há um copista medieval que introduziu, talvez por engano ou talvez neste esforço de interpretação, introduziu uma mudança e, de facto, às vezes os erros levam-nos mais próximos da verdade. E ele escreveu: Resurrexit, sicut dilexit. Ressuscitou conforme amou, não apenas conforme disse, mas conforme amou.

Cristo ressuscitou conforme amou. E este mistério da sua Ressurreição é um mistério que nós temos que tatear dentro do amor. Só se entende dentro do amor. Porque amar é dizer ao outro: tu não morrerás.

É este amor, a consciência filial de Jesus, o amor do Pai, esta fidelidade que leva Deus a dizer a Jesus: Tu não morrerás.

E é aquilo que leva Deus a dizer a cada um de nós: tu não morrerás. É dentro do amor, é dentro do pacto que é o amor, este amor garantido pelo próprio Deus, que nós entendemos também o significado profundo da Ressurreição.

Sintamos isso, queridas irmãs e irmãos, sintamos que é isso que Jesus revela a cada um de nós. Esta voz de Deus que diz ao nosso coração: tu não morreste, tu não morrerás. Isto é, o desânimo, o cansaço, a fatalidade, a desesperança, a desistência, isso não pode triunfar no teu coração. Tu não morreste. Tu não morrerás.

Essa garantia que Deus dá. Esse levantamento. Essa recusa de um destino de morte.

Queridos Irmãos, celebrar a palavra do Senhor é, por isso, o maior dos compromissos. Eu iria dizer o único compromisso. O nosso comprometimento é, no amor, entender tudo. Descobrir tudo. Perceber tudo. Dentro da lógica do amor.

É isso que nós celebramos em Cristo pascal.

A escritora Marguerite Yourcenar, no texto que tem sobre a sequência da Páscoa, a dada altura, reflete um bocadinho sobre o significado de tudo isto se passar num jardim. O túmulo de Cristo é colocado num jardim. Depois no próximo domingo, por exemplo, vamos ver Maria Madalena que confunde Jesus com um jardineiro. E ela diz: porque que a mais inédita das verdades humanas se passa num jardim? Porque é que o ressuscitado, primeiramente, é confundido com um jardineiro?

Ela diz, é evidente. Porque Ele não tem deixado de semear no nosso coração. E é isto que é importante que nesta eucaristia aconteça. Cada um de nós sinta semeada no seu coração, esta insurreição, este levantamento, esta certeza da palavra de Deus que lhe é confiada.

Tu não morreste, tu não morrerás.

Pe. Tolentino, Homilia do Domingo da Ressurreição do Senhor

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A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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