Queridas Irmãs, queridos Irmãos

Vivemos dias intensos de significado, de densidade celebrativa, o Tríduo Pascal. A liturgia, pedagogicamente, fez-nos celebrar e viver os acontecimentos decisivos da passagem do Senhor deste mundo para o Pai, o cumprimento da sua vida. Cada parte, cada acontecimento é uma perspetiva do todo da sua vida entregue por nós. Hoje, a eucaristia de Domingo de Páscoa, volta a celebrar o todo da fé, mas a partir do alvorecer da madrugada desse primeiro dia da semana, a seguir ao grande de sábado. Na Páscoa estamos no coração do Deus que se faz carne, pão, serviço, vida dada por nós, esvaziamento, e, por isso, exaltação, elevação, ressurreição. Habitamos o coração da vida, essa profundidade da história, das coisas, de nós mesmos, que escapa a toda a análise e observação. Habitamos o mistério, a densidade incontável da vida, o seu excesso, o seu transbordamento, o amor incontido que a funda. Nenhuma gota do nosso sangue, nenhuma célula do nosso corpo e de cada vivente, nenhum átomo de matéria, fica fora da Páscoa do Senhor.

Feliz hora em que resolvi celebrar às quartas no final do dia, e disponibilizar-me para escutar pessoas. Foram dias intensos de escuta, acolhendo pessoas que procuram uma palavra de consolo, um espaço de hospitalidade, um gesto sacramental de reconciliação, uma bênção para o bem precário, mas real, de suas vidas, e da presença de Deus nelas, não isentas de dificuldades e de fragilidades. Como também a minha. Com honestidade digo que não recuso a veste da hospitalidade e do acolhimento, da procura por caminhos incertos, não a recuso, e visto-a com inteira generosidade. Porque acredito que Deus tem para cada um de nós um «lugar especial», escrevendo direito por linhas tortas.

Expresso o meu agradecimento, de pastor/Capelão, a todas as pessoas que, vencendo chuva, frio, vento cortante, estiveram presentes, de corpo inteiro, fazendo o corpo da comunidade. Pedi-vos muito, é certo; mas hoje, agradeço a Deus a generosidade do vosso tempo, da vossa participação, a sintonia da vossa interioridade, para além dos gestos, das palavras e das saudações. Também a generosidade da vossa partilha. O meu agradecimento à equipa de liturgia que se entregou, com sacrifício pessoal e familiar, à preparação e concretização das celebrações. Aos leitores, aos cantores, aos ministros da comunhão, a quem se empenhou na organização do espaço, na decoração, aos concelebrantes comigo… Por vezes tiveram de aturar também os seus caprichos do Capelão, os seus silêncios, a sua teimosia… A cada um e a cada uma, o meu muito obrigado. Assim se constrói o corpo da comunidade, e vivemos todos uma ressurreição comunitária.

Foi/é minha intenção procurar dar beleza, simplicidade e profundidade às celebrações, de modo a que cada pessoa se sinta em casa, seja ela própria participante no acontecimento, faça a sua páscoa ao vivo. No respeito por uma linguagem celebrativa comum que não é nossa, mas da qual somos interpretes, não reprodutores mecânicos e acríticos. É com alegria que testemunho um crescimento na participação das eucaristias nos últimos meses. A nossa comunidade renasce, está viva, tem movimento. Conta com gente mais nova, novos rostos, novas presenças. Gente que nos descobre pela primeira vez, a partir da internet, gente que se identifica com a nossa linguagem simples, despojada, que procura ir à densidade das coisas e do mistério que nos envolve. Saúdo todas as pessoas que quiseram hoje celebrar aqui a Páscoa.

Deixemo-nos narrar e interpretar pelas personagens do evangelho de hoje, segundo S. João. Habitamos a madruga da Páscoa, todos, cada um de nós. É nossa fonte, o nosso destino, o nosso tempo permanente, mesmo na passagem das horas e dos dias. Deixem-me dizer, com outro sentido: «somos filhos da madrugada». Vamos com Madalena, rasgando a noite e antecipando a aurora, com a saudade de quem amamos. Regressamos aos lugares da perda, procurando quem já não temos connosco. Porque não podemos recusar os amores que nos fizeram viver e acreditar no futuro. Mas esses amores podem morrer… Maria Madalena, antecipando a madrugada, regressa ao passado, à memória do amor que já não existe. Esse regresso ao passado devolve-a ao futuro, porque esse amor perdido, Cristo, é amor reencontrado, é amor que a reencontra e a promete.

Pedro e João correm ao sepulcro para ver com os próprios olhos o estranho, a surpresa dos acontecimentos: o corpo do Senhor que se julgavam acantonado num ângulo, qual morto quieto e imóvel, a receber a romagem da nossa saudade, não está lá. Há vazio no sepulcro. Ausência. O inesperado acontece. Não está ali como morto, porque é a Vida que faz viver, que acorda, eleva, desperta. Não está ali. No coração da fé está o Ausente, Aquele que foi resgatado às garras da morte pelo Espírito que dá vida. Nunca sabemos bem como dizer um Cristo outro, não ao dispor das nossas mãos, do nosso toque, da nossa objetividade, da nossa visão materialista e quantitativa. Ele é o Outro que nos faz viver, o Ausente que se torna silenciosamente presente. E a sua presença, «Ele está no meio de nós», nunca deixará de ser ausência, modo de ser de um Deus que não se deixa aprisionar nem agarrar. A ausência é outro modo de dizer e anunciar que o Senhor ressuscitou, não está ao dispor da manipulação, não é objeto nem objetivável.

Na aventura da nossa fé, oscilaremos entre a «não visão» de Pedro e a «visão» do «discípulo predileto». Pedro viu e nada viu. Viu e não soube interpretar nos sinais do que resta da morte, o sudário enrolado a um canto, a presença do Ausente. O Vivente que vai à nossa frente e nos precede nas Galileias da vida. Somos, por vezes, Pedro, cegos perante o mistério que nos envolve, incapazes de inteligir o interior das coisas, da vida, de nós mesmos. De Deus em nós. Ou podemos ser o «discípulo predileto», o mais veloz na corrida, o que chega primeiro ao coração das coisas, o que vê nos sinais da morte a força intangível e incontida da Vida transbordante, sem limites. Viu e nada viu, Pedro; viu e acreditou, João. Assim vamos nós, oscilando entre a cegueira da realidade, e a visão interior do mistério das coisas e da vida, vendo Deus nos sinais desconcertantes do quotidiano, por vezes tão profundamente marcados pela violência, pela morte, pela dor.

Com as palavras e as metáforas de Paulo, vivemos a tensão, tão dolorosa e dilacerante por vezes, entre o pão amassado com o velho fermento e o pão da ressurreição, a nova massa pascal. Somos essa massa que pode levedar com o velho fermento do egoísmo, da centralidade em nós mesmos, da violência; ou a massa que se quer tornar pão eucarístico, vida dada, vida que se ganha quando se consente perder? Ou sentimos aquele resultado de sermos pão ázimo, sem fermento, sem vitalidade, sem força de renovação? Em tempos de radicalização social, somos nós cristãos, sois vós leigos e leigas mergulhados no meio do mundo, fermento de diálogo, de valores comungados, de projetos comuns de justiça, de solidariedade, de paz, de reconciliação e amizade social, ou fermento de ressentimento, de acusação, de extremismo radical e intolerante? Interpela-nos Paulo: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa». A diferença cristã não é guerra ideológica; é martírio de amor (da caridade), corpo de serviço ao corpo da comunidade. Trigo moído para fazer farinha de unidade, de paz e de reconciliação.

Nunca nos esqueçamos que na origem da experiência cristã está um rejeitado, um descartado: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular».

Pe. António Martins – Homilia do Domingo de Páscoa