A Comunidade da Capela do Rato considera que a Igreja é a instituição mais antiga com um papel relevante na educação, na saúde e na cultura, e com a maior obra social realizada. Na atualidade, mostra uma crescente consciência da necessidade de evoluir segundo o Evangelho e representar a voz da esperança. Todavia, sobretudo no Ocidente, apresenta-se envelhecida e triste, com um número decrescente de fiéis, tendencialmente conservadora e crítica das novas dinâmicas sociais e culturais. A Comunidade acredita que a participação, corresponsabilidade e sinodalidade não são praticadas efetivamente. Vê uma Igreja frequentemente pouco inclusiva e acolhedora em termos espirituais e em termos humanos, discriminando divorciados, recasados e pessoas com diferentes orientações sexuais, identidades e expressões de género, não dando a atenção suficiente a pessoas com deficiência e pessoas marginalizadas, privilegiando atitudes assistencialistas nas situações de pobreza e institucionalização nos grupos mais vulneráveis. Entende que a Igreja tem uma atitude demasiado hierárquica, clerical, corporativa, pouco transparente e resistente à mudança, protegendo a sua imagem antes de proteger a comunidade de fiéis, como aconteceu, por ex., nos casos de pedofilia; revela alguma soberba na atitude e escuta pouco, desvalorizando os anseios e as expectativas de leigos/as e jovens, relegando-os/as, demasiadas vezes, para o papel de recetores/as passivos/as; não considera as mulheres em igualdade com os homens; é pouco aberta à atualização dos rituais e da linguagem litúrgica; e não assume como um imperativo as causas da ecologia integral. Por fim, sente que o ecumenismo e o diálogo com outras instâncias da sociedade continuam a ser insuficientes.

Para viver uma maior sinodalidade e melhor cumprir a sua missão, a Comunidade da Capela do Rato crê, pois, ser urgente que a Igreja concretize os caminhos apontados pelo Concílio Vaticano II e regresse à essência e à alegria do Evangelho.

Começando pela Igreja em geral, a Comunidade deseja que ao nível da estrutura se reconheça as mulheres como companheiras de caminho iguais aos homens, promovendo a sua plena integração na hierarquia eclesial e a possibilidade de ordenação; se permita que o celibato do clero seja opcional ou, pelo menos, que seja alvo de debate; se escutem as comunidades diocesanas, na sua grande diversidade, na escolha e nomeação dos bispos locais, assegurando transparência no processo; se atualize o catecismo em relação à procriação e sexualidade, bem como às novas famílias, valorizando os critérios do amor, da autenticidade e do conhecimento científico atual; se capacitem os leigos/as para que exista maior partilha de responsabilidades, libertando o clero para uma melhor pastoral do acolhimento e da escuta; se atualize  a linguagem litúrgica congregando tradição e renovação, de modo que a Palavra e os gestos se tornem compreensíveis e se dê um anúncio fresco do Evangelho, proporcionando uma liturgia mais vivida e participada; se adeque a formação dos pregadores aos vários temas da atualidade, nas diferentes dimensões da vida, e no uso de uma linguagem positiva que ligue o Evangelho aos dias de hoje. No que diz respeito à comunidade dos crentes, sonha com uma Igreja que se aproxime da vida concreta de todos/as e acolha a diversidade como lugar do amor de Deus; valorize o diálogo intergeracional como fonte de evangelização, semente e condição determinante para o futuro da Igreja no terceiro milénio; aumente a atenção e o cuidado ao outro no viver quotidiano, fazendo emergir uma espiritualidade mais próxima de Cristo; acolha sem julgar e não exclua sacramentalmente pessoas apenas com base nas suas realidades familiares; escute e dê particular atenção aos pobres, refugiados, marginalizados e às pessoas com qualquer tipo de deficiência, privilegiando as respostas de base comunitária; e que desenvolva mais a formação, o estudo e a leitura da Bíblia. Quanto à relação com a sociedade, espera que a Igreja eleja as “periferias” como o seu centro e promova a inclusão, o acolhimento, a escuta, o diálogo e a fraternidade; aspira, ainda, a uma Igreja que fomente a comunicação e a amizade com outras confissões religiosas, bem como o diálogo na aceitação recíproca da diversidade das tradições (exs. ecologia, fraternidade, não violência), acolhendo celebrações ecuménicas como espaço de renovação.

No que se refere à Igreja em Portugal e à diocese de Lisboa, a Comunidade considera fundamental melhorar a comunicação com os leigos que não estão inseridos em movimentos e associações; promover a interligação entre conselhos pastorais paroquiais de forma a criar uma pastoral urbana com linhas de ação conjuntas; partilhar as responsabilidades diocesanas entre pastores e leigos, encorajando uma maior corresponsabilização dos fiéis em várias funções e, assim, integrar a pluralidade das suas vozes; estimular a disponibilidade para o acolhimento, a escuta e o acompanhamento com ações concretas de integração dos que estão à margem; criar mais momentos de encontro formal e informal entre os presbíteros / bispos, leigos/as e crentes, de várias gerações, de modo a potenciar a leitura dos “sinais dos tempos” e atualizar a linguagem do Evangelho; aproveitar a JMJ para dialogar com os jovens, escutando as suas dúvidas e anseios, respondendo de forma não dogmática e fechada; instigar ativamente uma ecologia integral e investir na construção da paz; atualizar a formação nos seminários, nomeadamente através da integração de mais mulheres (consagradas ou não) e leigos, visando uma perspetiva ampla sobre os temas prementes; apostar numa catequese apelativa e dinâmica para crianças e jovens dada por catequistas capacitados, assim como numa formação teológica e doutrinal contínua de adultos; investir numa formação realista para o casamento; dar uma atenção particular às pessoas com deficiência e desenvolver formas criativas de acolhimento das mesmas; aprofundar o diálogo ecuménico e inter-religioso, nomeadamente  com as comunidades judaica, islâmica, hindu, budista e bahá’í; estimular o diálogo com as diversas instâncias da sociedade, deixando-se interpelar por estas, reconhecendo a pluralidade de posicionamentos cristãos e apoiando a participação política; por último, melhorar a linguagem mediática para comunicar de forma mais eficaz com a sociedade.

Para que o caminho sinodal se concretize com maior plenitude na Capela do Rato, a Comunidade propõe que os grupos sinodais se mantenham e se instituam um conselho pastoral e uma estrutura sinodal permanente, com assembleias comunitárias anuais para definir e rever planos de atividades; haja uma maior participação de leigos/as na preparação da oração dos fiéis e ação de graças, bem como no comentário à Palavra de Deus; se proceda a uma pedagogia da oração e se invista mais na formação teológica dos/as leigos/as e na preparação dos leitores/as; as homilias sejam mais concisas e seja mais explícita a relação entre a Palavra e a vida dos dias de hoje; se reforcem os momentos de silêncio, antes e durante a celebração, para uma maior espiritualidade; se comunique interna e externamente com maior eficácia; se promova, seguindo o lema Uma Igreja para todos, um melhor acolhimento e inclusão de todos/as que procuram a nossa comunidade; se alarguem os grupos que cuidam dos mais frágeis e se melhorem as acessibilidades para pessoas com deficiência e se fomentem encontros informais; pensando no futuro da comunidade, se escute mais os jovens e se promovam encontros intergeracionais; se valorize a arte e a cultura como linguagens de mediação para a dimensão espiritual; se dinamize o diálogo com a sociedade, através de debates e outras atividades cujos temas sejam relevantes para a construção de um mundo melhor; e, finalmente, se continue a investir no diálogo ecuménico e inter-religioso, através de celebrações e eventos organizados conjuntamente.

Comunidade da Capela do Rato
Lisboa, 27 de março de 2022

PAUSA ESTIVAL

A Capela do Rato encontra-se em pausa estival, reabrindo a 16 de setembro.

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