Alfredo Teixeira, compositor e Professor da Faculdade de Teologia (UCP)

Quinta-feira Santa: O olhar, esse lugar de encontro

Respondendo ao desafio de sugerir algumas obras musicais para o ciclo do Tríduo Pascal, procurei, na memória da minha leitura da poesia litúrgica de Frei José Augusto Mourão, algumas palavras iluminadoras: «Páscoa de páscoas». Elas são o mote para esta breve partilha.

Começo por uma obra singular: «Lagrime di San Pietro», obra escrita por Orlando di Lasso, ao serviço da corte de Munique. Parece um estereótipo, mas esta obra magna foi escrita na etapa final da vida do compositor. Orlando di Lasso escreveu o prefácio desta obra no dia 24 de maio de 1594, que dedicou ao Papa Clemente VIII, três semanas antes da sua morte, que ocorreu no dia 14 de junho. Já não conheceu a magnífica edição impressa, nem as posteriores interpretações. Perscrutou-a no interior do seu génio musical, num momento em que a debilidade – sobretudo de ordem psíquica –, tomava conta do seu corpo. No entanto, esta é a sua obra mais extensa, tendo em conta o arquivo conhecido. Trata-se de um ciclo de vinte madrigais espirituais a sete vozes, com um motete final, construído a partir de uma obra literária de Luigi Tansillo. O nome do poeta não constava na lista dos humanistas mais conhecidos, na época. Em todo o caso, conhecido o suficiente para que o seu nome viesse a ser incluído no «Index».

No espírito próprio dos madrigais espirituais, a linguagem amorosa que envolve o poeta e sua amada, desloca-se para a relação entre Maria e Jesus ou Pedro e Jesus. Como é próprio do espírito madrigalesco, a composição poética explora muitos recursos metafóricos para intensificar um discurso «afetuoso». Não se trata de uma obra que corresponda ao hieratismo da liturgia romana. Não é música ritual. É algo mais próximo do exercício de piedade, no qual o crente encontra em Pedro, e nas suas lágrimas, o confronto com a sua própria humanidade, na procura de redenção. A obra dilata o tempo dos olhares que se tocam – de Pedro e Jesus, os nossos.

São particularmente abundantes as metáforas do olhar, janela da dor, da contrição e do compadecimento. A essas sugestões literárias, Orlando di Lasso responde com um idioma musical que sugere um diálogo polifónico entre o «claro» e o «escuro». Neste jogo de sombra e luz, o drama humano é lido na claridade redentora do dom do Salvador. É intenso, sob o ponto de vista expressivo, mas, ao mesmo tempo, contido. É, talvez, esse jogo de escalas que nos conduz à experiência de um particular fascínio, entre a inquietude e a apaziguamento. A expressão portuguesa «lavado em lágrimas» pode traduzir, de forma alusiva, a experiência espiritual que Orlando di Lasso nos oferece.