Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Até onde chega a nossa esperança? O que esperamos, verdadeiramente, da vida? É pelo caminho da esperança que avançamos no futuro, de peito aberto, resistimos ao vazio da vida e ao seu caminhar para o nada. Uma esperança sem limites e um novo estilo de amar, até os próprios inimigos, são a marca subversiva da novidade cristã. Paradoxalmente, o Apóstolo Paulo diz de Abraão que ele esperou contra toda a esperança, contra toda a evidência que lhe assegurasse um futuro seguro; esperou o futuro no vazio das provas e seguranças.

A esperança é aquela dimensão da vida cristã que, em nossos tempos perturbados e de mudanças imprevisíveis, mais precisamos de ativar. Pode correr até o risco, na Igreja e em cada um de nós, de ser a dimensão da vida cristã mais frágil e mais exposta a debilidade. Diz-me a força da tua esperança, dir-te-ei a densidade da tua fé, poderíamos dizer.

Todas as nossas expectativas de futuro se confrontam com o inevitável da morte, a crise de toda a esperança. Não vale a penas fazermos projetos longos porque a vida é breve, sempre demasiado breve para os nossos sonhos e desejos. Todos temos um desejo de perenidade, de prolongamento da vida, de uma vida em plenitude. Gerar filhos, deixar descendência era e é, para a maioria, a forma de perpetuar a vida. Na continuidade biológica, os filhos prolongam-nos, de certo modo. Esse desejo de continuidade estava expresso numa permissão do livro do Levítico: uma mulher que ficasse viúva podia voltar a casar com o irmão do marido para lhe garantir descendência.

Ainda hoje é difícil falar de ressurreição. A maioria não acredita, e mesmo aqueles que acreditam, por vezes, hesitam em expressar a sua esperança. Foi no passado e continua a ser no presente um aspeto problemático da fé; e, todavia, é aí que se decide a novidade cristã: a de uma esperança que é mais forte do que a morte.

À dificuldade, de sempre, de conceber uma vida ressuscitada, plena, inteira, cumprida, há a resposta, descrente e profundamente materialista: tudo acaba na evidência aniquiladora do vazio da morte. Importa dizer que uma esperança para além da morte, a vencer a própria morte, durante largos séculos não existia no judaísmo, e quando existiu era coisa muito marginal, quase facultativa. Outra resposta, também perigosa, é a de conceber a vida eterna como prolongamento desta, mas em estado imortal. Esta ingenuidade ainda existe a dar origem a conceções muito fantasiosas e caricatas da ressurreição.

Nem negação nem ingénua fantasia de um prolongamento. Mas a proclamação de que a ressurreição será o triunfo da vida, da força da vida de Deus em nós, e só Deus pode ressuscitar. A ressurreição será, então, essa graça plena, definitiva, do amor de Deus que dá vida, cria e ressuscita, porque é amante da vida, e não pode permitir que os seus filhos e filhas muito amados sejam destruídos e esvaziados na morte. A ressurreição é como que o certificado de credibilidade e de autenticidade do próprio Deus. Um Deus que não seja capaz de ressuscitar, de restaurar a vida da/na morte, seria um Deus falido, não credível. A ressurreição será o triunfo de Deus em nós, o definitivo da graça que dá vida e vida em plenitude.

Percurso largo, este, para aterrarmos nos textos de hoje. Vem aquela história, caricata, para «entalar» Jesus, para fazer ver que a ressurreição é uma pura fantasia de ingénuos e incrédulos: Com qual marido, dos sete, fica a mulher, depois de todos terem morrido e ela também? Pobre mulher que corre de mão em mão qual objeto de consumo, à espera, em vão, de um prolongamento da vida num filho que nunca chegou…

Todos os sete se serviram dela; ela, pobre viúva, para viver precisava de mais um marido, deixando-se usar: era a inevitabilidade do seu destino. Para viver precisava de maridos que a retirassem do seu estado de viúva pobre, sem proteção. Há uma tentativa de manter a vida, de a prolongar nos filhos, que nunca aparecem. A continuidade biológica não existe, e o reino da morte, por fim, triunfa sobre tudo e sobre todos. Todos morrem. Aquela viúva é o símbolo do triunfo da morte sobre a esperança de uma continuidade biológica.

A resposta de Jesus, desmontando a «caricatura» apresentada pelos saduceus, não alinha com fantasias ingénuas. A vida de ressuscitados tem algo de absolutamente novo, não previsível, de desconhecido para nós. Os ressuscitados «são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus». Anjos, símbolo da transparência relacional, símbolo da comunicação direta, sem equívocos, símbolo da beleza luminosa da vida de Deus em nós. Símbolo da nossa vida cumprida em Deus, inteiramente por Deus. Anjos é um termo para assinalar a novidade absolutamente divina, e que ultrapassa os nossos conceitos e a nossa experiência, da ressurreição.

Dessa dimensão da vida futura, absolutamente divina e gratuita, nada sabemos de factual. A linguagem serve para assinalar e orientar a nossa esperança, não para expressar a evidência de uma realidade. Nascer da ressurreição é nascer absolutamente de Deus, o nosso pleno cumprimento de filhos e filhas muito amados. Nascer da ressurreição será o nosso nascimento eterno como filhos de Deus. Ressuscitados como nascidos definitivamente para a vida.

Pergunto a mim mesmo se uma esperança assim nos habita? Se não vivemos demasiado à maneira dos saduceus, como se o definitivo da vida não existisse, ou então não nos interessasse? A nossa esperança pode correr o risco de parar às portas da morte, de hesitar em atravessar o abismo e o vazio aniquilador da morte. Talvez tenhamos medo de dizer que a ressurreição é o motor da nossa esperança. Hesitamos em falar disso e talvez em viver isso.

Foi a fé na ressurreição que esteve no fundamento da revolta dos Macabeus à ocupação e hegemonia cultural gregas. Porque acreditavam na força criadora de Deus, que não pode deixar na morte aqueles fiéis que em seu nome deram a vida; que se entregam, confiantes, no meio da violência e da tortura do opressor/do ocupante. A esperança da ressurreição, da intervenção triunfante do Deus da vida, leva a relativizar a morte, a atravessar a violência do martírio a resistir à tirania do opressor: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará».

Possa a esperança na ressurreição ser fogo que nos atiça nas nossas resistências e adversidades. Alimentados pela esperança na ressurreição, atrevemo-nos a esperar contra toda a esperança. Que o Senhor firme os nossos pés nessa esperança que, não nos livrando da morte, nos desperta e ergue do seio da morte.

Pe. António Martins, XXXII Domingo do Tempo Comum

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