Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Para introduzir o evangelho de hoje, convido-vos a recordar o texto que ouvimos, em Janeiro, na festa do batismo do Senhor. Uma voz vinda do céu declarava: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência». A voz do Pai, diz-nos Lucas, foi acompanhada por um sinal visível, «em forma corporal, como uma pomba», a assinalar a presença do Espírito, essa força vital de Deus que confirma Jesus como Filho ao nosso lado, na fila dos pecadores. Naquele Filho muito amado, também nós somos filhos e filhas muito amados pelo mesmo amor do Pai. O texto do batismo de Jesus precede o texto das tentações, que lemos neste primeiro domingo da Quaresma.

«Cheio do Espírito Santo», Jesus retirou-se das margens do Jordão para o deserto. «Conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo». Aparentemente parece-nos uma contradição. Levado pela força de Deus, Jesus vai para o lugar da prova, da tentação, do despojamento, da verdade nua e crua da condição humana, que é o deserto. O deserto é esse lugar onde o Espírito nos verifica, nos experimenta e nos confronta. No deserto não há seguranças; aí somos expostos à sede, ao risco das feras. Podemo-nos perder na orientação do caminho. O deserto é um lugar de confronto entre a vida e a morte. Torna-se na Escritura símbolo de todo o itinerário de conversão do Homem para Deus: foi no deserto que o Povo de Deus foi tentado no seu caminho para a terra prometida. Mas o deserto é também o símbolo de todos os nossos itinerários interiores de despojamento, de confronto, de risco e de perigo. São momentos em que pomos tudo e todos em questão; em que, literalmente, entramos em tentação.

Jesus foi tentado durante quarenta dias. No final do texto que lemos diz-nos Lucas que «o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo». «Retirou-se até certo tempo», mas há de voltar, porque a vida humana está, permanentemente, sujeita à tentação. Não nos escapamos nunca de vivermos expostos à prova, no fio da navalha. Temos de decidir entre opções sedutoras e contraditórias, entre «dois amores» que nos atraem. Precisamos, continuamente, de discernir, de pedir a iluminação interior e a clareza para acolher aquela dimensão de vida que mais liberdade nos trás, que mais vida nos acrescenta (a vontade de Deus).

Não vamos imaginar o «diabo» como um bicharoco com um rabinho e uns chifres; isso são representações mitológicas. A palavra «diabolos» significa o que divide, rasga, separa o que deve estar unido. Com rigor, podemos e devemos dizer que o «diabólico» é a rutura interior do coração, a dimensão conflituosa das relações, uma orientação possível de vida. É, como nos diz S. Paulo, a luta entre a vida «segundo o Espírito», de serviço e de acolhimento da verdade de Deus e dos outros, e a vida «segundo a carne», em que quero estar no centro e me quero realizar como senhor do mundo. Isto é o diabólico, é a tentação.

«Se és Filho de Deus manda a esta pedra que se transforme em pão». A tentação que Jesus atravessa é a de se cumprir como Messias pela via da força, da eficácia, da abundância. A primeira tentação narrada é a posse das coisas. Temos em nós mesmos uma dimensão de um desejo permanentemente insatisfeito. Todos nós trazemos um desejo devorador que se pode transformar numa apropriação violenta de bens e pessoas, numa insatisfação permanente de comer ou de prazer. O ser humano não consegue aguentar o limite da insatisfação e acha-se no direito a estar, permanentemente, satisfeito com a abundância de bens. Jesus, renunciando à posse e à abundância, reenvia para outras dimensões, para um outro desejo para além do desejo de comer e de satisfação imediata, o desejo de Deus: «Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que vem da boca de Deus». No desejo de Deus os nossos desejos são vividos como limite, não como possibilidades de realização permanente. A primeira tentação assinala a necessidade de todos nós nos confrontarmos com os limites dos nossos desejos. Não nos podemos cumprir como pessoas devoradoras, que querem e podem tudo.

A segunda tentação tem a ver com o poder, com o domínio sobre os outros: «Dar-te-ei todos os reinos da terra». Esse domínio sobre os outros tem um preço: que Jesus se vergasse perante a lógica do mais forte, do senhor destruidor do servo. Não a prostração perante Deus que dá vida, mas perante o império da violência e da morte. Jesus recusa essa lógica. Podemos fazer um esforço para perceber que até ter recusado, talvez Jesus se tenha deixado seduzir. Toda a pessoa, num momento ou noutro da sua vida, fica seduzida por um reconhecimento público, por um nome na história, por uma influência social ou política, por um domínio sobre os outros. Esta tentação humana, minha e de todos vós, foi também a de Jesus. No limite da tentação Jesus aceita a missão de ser Filho de Deus pelo meio de quem dá a vida, de quem se coloca ao serviço dos seus irmãos: «Só a Deus prestarás culto».

A terceira tentação é a de um Deus mágico, milagreiro, que resolve todos os problemas com um clique. Pensando que Deus resolve todos os nossos problemas pessoais, corremos riscos, não medindo os nossos limites: «Atira-te daí abaixo e espera que os anjinhos façam uma rede, um para-quedas para não caíres». Não brinquemos com Deus; não tenhamos esta mentalidade mágica de um Deus para-quedas que nos pode impedir de cairmos nas contradições, nos limites e nos perigos da vida.

Jesus Cristo (ontem meditávamos nisso na nossa recoleção) é este caminho humano de fidelidade, de obediência a Deus nas provas da vida. As tentações são essa vida ilusória de quem quer fugir do limite, do risco, do precário, em nome de uma vida sempre triunfante, de sucesso e de força: tentações que todos nós temos e que Jesus ajuda-nos a atravessar, a viver e a resolver. Na fidelidade a este Deus que nos quer verdadeiramente humanos para que, com os nossos limites, possamos aprender o que é o amor e o serviço, a vida que se cumpre no dom de nós mesmos.

Pe. António Martins, Domingo I da Quaresma

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