Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

«Nenhum profeta é bem recebido na sua terra», diz Jesus aos seus conterrâneos, na sinagoga de Nazaré. Dizemos nós, com o nosso provérbio: «Santos da casa não fazem milagres». Parece haver uma lei universal que desautoriza quem se destaca no meio do grupo. Aqueles que se demarcam da lógica identitária da tribo ou do clã, cai sobre eles uma rejeição, por vezes até uma extrema e homicida violência. Entre os familiares, entre os de casa, entre os próximos, tudo é tão conhecido, tão previsível, tão controlado, que não há lugar para a novidade profética.

O evangelho de hoje é a continuação do domingo passado. Para que não nos esqueçamos do contexto, o texto começa, precisamente, onde acabou o do passado domingo, com a afirmação de Jesus, após a leitura da passagem de Isaías: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Toda a vida de Jesus se cumprirá como libertação dos cativos, vista para os cegos, boa nova aos pobres, graça e misericórdia de Deus para todos. Ele é a Escritura feita carne e cumprida.

Há um pormenor significativo a ter em conta na leitura que Jesus faz de Isaías. A passagem do profeta termina com a frase «proclamar um ano aceitável ao Senhor (um ano de graça, de jubileu, de perdão) e um dia de vingança do nosso Deus». Ora Jesus não lê a última frase; a sua leitura seletiva, excluindo a referência à vingança de Deus, é a confirmação de que toda a sua vida será caminho de misericórdia e de perdão, encontro com os excluídos, amnistia aos fora-da-lei. Jesus recusa uma conceção de um Deus vingativo e punitivo, presente em algumas passagens do Antigo Testamento e em certa mentalidade religiosa ainda resistente. O Deus de Jesus Cristo será inteiramente Pai de misericórdia, um Deus de perdão e jamais um Deus de violência punitiva. Por isso Jesus, no silêncio seletivo da sua leitura, apresenta-se como um profeta de paz e de reconciliação. Um profeta da graça de Deus e não da vingança nem do castigo.

As suas palavras são de graça, e os seus conterrâneos e ouvintes ficam maravilhados. Há um clima de entusiasmo, de adesão, de contentamento. Mas este início de uma bela receção acaba numa violenta rejeição, com tentativa mesmo de homicídio: «expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo». Numa leitura ligeira de Lucas parece não haver motivo para tanta violência. Ou por outras palavras, o que aconteceu naqueles corações, por um momento maravilhados, para se tornarem corações violentos e homicidas? O que teria desencadeado tamanha e incontida violência e rejeição nos conterrâneos de Jesus?

Parece também que o próprio Jesus pôs-se a jeito, provocou o conflito, criou intencionalmente uma crise. Deixa-nos alguma perplexidade que Jesus não tenha cavalgado a onda favorável do início e não tenha acolhido aqueles sentimentos iniciais de maravilhamento para com as suas «palavras de graça». Na subtileza narrativa de Lucas, vemos Jesus a desmascarar os sentimentos interiores daquela gente, a dar voz ao que lhes ia no coração de não aceitação e de recusa. Jesus faz aflorar a violência profunda que habitava nos seus corações. Por isso Ele é sinal de contradição, porque revela as profundas contradições, as profundas violências que atravessam o coração humano e qualquer grupo fechado na sua identidade. Jesus põe a nu as nossas contradições.

O primeiro sinal é a desautorização da sua novidade profética com a expressão: «Não é este o filho de José?». Como se os seus conterrâneos estivessem a dizer: «Conhecemo-lo bem, sabemos quem é, a sua origem, a sua paternidade». Há aqui uma arte subtil para desacreditar Jesus. Basta dizer que ele é uma pessoa comum, domesticada, controlada na sua identidade, que todos conhecem; basta dizer que ele, por ser filho do carpinteiro, não tem genealogia nem linhagem de prestígio que o legitime como diferente dos outros. O primeiro assassinato, que é simbólico, é o de esvaziar a sua autoridade, de tornar banal a sua diferença, de o tornar indiferenciado, igual a todos os outros. Assim esvaziam a sua originalidade, a força de novidade que nele habita. Porque nos incomoda, porque nos agride, porque nos desinstala. «Nenhum profeta é bem recebido na sua terra / santos de casa não fazem milagres».

Jesus avança no desmascaramento dos pensamentos dos seus conterrâneos. Ele denuncia todo o grupo com uma identidade fechada, que exclui as diferenças, quem é diferente. A assembleia da sinagoga de Nazaré parece ser um grupo muito fechado, violentamente resistente à abertura para quem é estrangeiro, para quem é diferente. Essa é a profunda diferença com a cosmopolita Cafarnaum, terra de cruzamento de raças, de povos, de identidades, terra de fronteiras abertas, de encontros de identidades diferentes, terra hospitaleira e cosmopolita. Assim se compreende a referências ao livro dos Reis em que Elias vai ter, fora das fronteiras de Israel (na região de Sidónia), com a viúva pagã de Sarepta; ou Eliseu acolhe o general inimigo de Israel, o sírio Naaman, e o cura.

Esta denuncia profeta de uma identidade nacionalista/tribal fechada provocou escândalo. Enfureceu os seus conterrâneos. Jesus é o cumprimento de um Deus acolhedor dos estrangeiros, aquele que nos reconcilia com os inimigos, que nos convida a incluir quem é diferente, quem não pensa e sente como nós. Jesus é o profeta que denuncia a estreiteza dos grupos fechados, as tentações identitários, xenófobas e fanáticas de todos os grupos que defendem com intransigência a sua identidade. Esta profecia é tão necessária nos tempos atuais, dentro da própria Igreja, nas sociedades de hoje marcadas pelo reforço das fronteiras e pela violência crescente aos estrangeiros, e mesmo com perseguição às minorias com identidades diferenciadas. Jesus revela e denuncia o perigo das violências identitárias que se escondem em qualquer grupo fechado. Por isso foi posto fora da cidade, precipitado no precipício, numa declarada intenção de homicídio.

«Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho». Traço irónico de Lucas, em que Jesus segue o seu caminho, na fidelidade à sua missão de ser Filho e Irmão, na coerência consigo mesmo. Mas desde este momento inaugural já está traçado o seu destino de cruz, de rejeição, de condenação e de morte fora da cidade. Esse é destino do profeta, e de toda a vivência cristã que quiser testemunhar a força alternativa do evangelho. Debilidade, talvez, no nosso cristianismo contemporâneo, pouco ousado numa sociedade demasiado normalizada e formatada.

Pe. António Martins, Domingo IV do Tempo Comum

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