Minhas queridas Irmãs,

Meus queridos Irmãos,

As festas acabaram, regressamos à nossa normalidade. A vida recupera os ritmos quotidianos de trabalho, de relações, de vida repetida, por vezes custosa, por vezes banal. Entramos no Tempo Comum. O Tempo Comum é o maior tempo da nossa vida, aquele que não tem festas, nem Natal, nem Páscoa, nem outras. É um tempo árduo, de repetição quotidiana de tarefas, de solicitações, de responsabilidades, às quais não nos podemos furtar, nem sair, nem fugir, porque outras pessoas dependem de nós, estão ao nosso cuidado. Tudo isto, aparentemente insignificante, é o tempo comum que não tem a vibração das grandes festas; é o quotidiano da vida.

A nossa espiritualidade cristã faz-se do quotidiano das coisas banais, na fidelidade às pequenas coisas, aos amigos, à família, às pessoas que amamos e que estão em nossa casa; que, por vezes, precisam de nós com cuidados mais necessários e mais exigentes. Que o Senhor nos ajude, a mim e a todos vós, a viver este tempo comum despojado, sem grandes acontecimentos, como o tempo ordinário em que provamos, na resistência de cada dia, a nossa fidelidade ao Evangelho e a nossa fidelidade àqueles e àquelas que amamos e servimos.

Hoje a liturgia apresenta-nos, no início do Tempo Comum, o Batismo do Senhor. É a apresentação pública de Jesus. Depois de ser criança, já com trinta e tais anos, entra na fila dos pecadores e deixa-se batizar no rio Jordão. Entre os doze e os trinta anos, nós não sabemos nada da vida de Jesus. Não sabemos nem podemos inventar. A última narrativa da infância, do evangelho de Lucas, é a ida de Jesus a Jerusalém por volta dos doze anos, quando se perde dos pais e é encontrado no templo. Depois há um total silêncio. Quando, de novo, Jesus aparece em público é já homem maduro.

Do crescimento de Jesus, com quem se relacionou, com quem aprendeu, que escolhas frequentou (se assim podemos dizer), com que mestres aprendeu a viver o judaísmo, nada sabemos. Há um enigma na vida de Jesus. Esse enigma também assinala o enigma da vida de cada um de nós. Acolhemos este silêncio como um enigma que nos é dado para guardar e também para olharmos os outros sem essa pretensão de saber tudo da sua vida. Porque em cada pessoa, a começar pelo próprio Jesus, guarda um mistério, um silêncio e uma história que só a Deus pertence, única e irrepetível, que não tem de ser publicitada nem divulgada.

Podemos dizer que durante esse tempo privado e íntimo, que desconhecemos, Jesus maturou o seu crescimento. De tal modo que quando aparece em público já tem a sua vida completamente afinidade com o Pai: é o belo texto do evangelho de Lucas que hoje lemos. Podemos admitir a seguinte hipótese: o batismo de Jesus que no texto é narrado não é fruto de um mero instante; é preparando por um caminho interior, talvez longo, de tomada de consciência de ser Filho.

Na leitura da Escritura Jesus foi interiorizando e rezando: «Tu és meu pai». Nas relações e nos encontros foi aprendendo a ser irmão, solidário com os homens e as mulheres do seu tempo. Esta consciência de ser Filho e de ser irmão não brotou nele num instante. Podemos dizer que, desde o seio materno e das palhinhas de Belém, Jesus foi preparado, por esse tempo de silêncio e de enigma, para a consciência de pertencer ao Pai e de pertencer a nós, de ser inteiramente Filho para o Pai, e de ser inteiramente irmão ao nosso lado. São estas duas dimensões que quero salientar.

«Quando todo o povo recebeu o batismo, Jesus também foi batizado». Curioso: Jesus não precisava de ser batizado. O batismo era uma proposta de João como sinal de conversão, de mudança de vida, de querer uma renovação. Jesus é já essa renovação, esse caminho novo. Em princípio, não tinha necessidade de se juntar à fila dos banhistas (se eu assim posso dizer), à fila dos pecadores. Jesus é já essa vida nova fundada no amor do Pai. Mas aparece na fila dos batizandos. É uma bela expressão do evangelho de Lucas para dizer que Jesus está inteiramente do nosso lado. As nossas dores são as suas dores. As nossas dificuldades Ele partilha-as connosco; a nossa procura Ele a acolhe; a nossa vontade de mudança Ele a confirma. Jesus é aquele que caminha connosco na aventura da vida, a nosso lado. Ele é povo, está com o povo, no meio dos seus. Não é um sacerdote que se separa do povo. Jesus é um leigo que vive outro sacerdócio, ser Filho entregue ao Pai solidário connosco. Esta profunda aliança de Jesus connosco agrada a Deus.

O evangelho de Lucas narra-nos hoje um acontecimento místico, se assim podemos dizer. As palavras que aqui estão não se atrevem a precisar o que se passou. O que naquele momento se passou foi um acontecimento trinitário, uma expressão do amor profundo entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Jesus está em oração. Em Lucas, os grandes acontecimentos de Jesus são vividos em atitude orante, de entrega ao Pai. «Enquanto orava, o céu abriu-se». Podemos imaginar o céu a abrir-se num dia de intenso nevoeiro quando surge um raio de luz. Todos nós já fizemos esta experiência atmosférica. Experimentei isso nos Açores.

A expressão «o céu rasgou-se» é uma forma simbólica de dizer o encontro entre Deus e o Homem. Nada mais separa a luz divina da terra dos homens. No rasgar-se do céu podemos ler simbolicamente: o coração do Pai abre-se, rasga-se, através do Filho, para acolher esta humanidade carente e necessitada que somos nós, que é cada um de nós. A intensidade do amor do Pai derramado sobre o Filho é o Espírito Santo, em forma corporal «como uma pomba». Não se diz que é pomba, mas como uma pomba. Porque toda a aproximação ao mistério de Deus é por símbolos e por comparações: diz não dizendo, aproxima-se mantendo a distância. A pomba é sinal da paz cósmica, após o dilúvio; é símbolo do amor no Cântico dos Cânticos; é sinal de fecundidade ao evocar a vida que é chocada. Tudo isto são símbolos para dizer a ação de Deus em Jesus.

Narra Lucas: «E do céu fez-se ouvir uma vos: “Tu és o meu Filho muito amado: em ti tenho toda a minha complacência». As palavras mais belas ditas por Deus em toda a Escritura são dirigidas a Jesus: «Tu és o meu filho muito amado». Por outras palavras: «Tenho grande prazer em ti, tenho grande alegria por existires». Isto que Deus diz do Filho e para o Filho, é palavra dirigida a cada um de nós. Hoje, para mim, para cada um de nós, é o próprio Pai de Jesus que diz: «António (podemos colocar a aqui o nosso nome) tu és meu filho muito amado».

A cada um de nós, Deus faz hoje uma declaração de amor com futuro, com promessa. O ato de vivermos e existirmos é prazer e alegria para Deus. Oxalá possa ser também para os outros. Cada um de nós pode dizer-se na sua identidade mais profunda, que é a de ser filho e filha de Deus, com a sua singularidade, as suas feridas, a sua história pessoal, os seus impasses e dificuldades: «Eu sou filho(a) muito amado(a) de Deus. Deus tem prazer e alegria por eu existir, por ser quem sou».

Pe. António Martins, Batismo do Senhor

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