Somos a densidade e a intensidade dos nossos gestos. Cada gesto diz a profundidade que nos habita, ou a falsidade e o interesse que nos movem. Há gestos calculados e gestos espontâneos; há gestos feitos para o público, e gestos discretos, silenciosos, que ninguém vê; há gestos mecânicos, rituais, institucionais, e gestos pessoais, próprios, que nos revelam e nos anunciam. Há gestos feitos por interesse e gestos inteiramente gratuitos, sem cálculo. Somos a verdade e a autenticidade dos nossos gestos.

Reconhecemos, também, que a maior parte dos nossos gestos estão codificados socialmente; são expressões da cultura e da formação recebidas, do ambiente social em que nos inserimos. Obedecem a rituais, a protocolos e a formalidades que nos condicionam, quando não nos oprimem e nos sufocam. Precisamos, sempre, de recuperar a densidade e a espontaneidade dos nossos gestos pessoais, aqueles em que nos revelamos e nos comprometemos por inteiro.

A força e a autenticidade dos gestos, e o compromisso da pessoa que os faz, declina-se, em Marcos, no feminino; são gestos de mulheres ousadas, atrevidas, anónimas, que saem do meio da multidão, destacadas pela ousadia da fé e da coragem. No Evangelho de Marcos as mulheres são expressão dos autênticos e verdadeiros seguidores de Jesus, aqueles e aquelas que se comprometem de corpo e alma, sem falsidade nem retenção de si mesmos.

Ao longo da narrativa de Marcos aparecem cinco mulheres com toda a sua inteireza. A primeira a aparecer é a sogra de Pedro que, depois de curada, começa logo a servir Jesus e os discípulos. A segunda é uma mulher marcada por um fluxo de sangue que, rasgando o bloqueio da multidão, aproxima-se de Jesus e toca-o; ela é expressão de uma fé autêntica: «Filha a tua fé te salvou». A terceira é uma mulher pagã e estrangeira (síro-fenícia) que grita pela cura de sua filha, e não desiste de gritar até ser escutada por Jesus. A quarta é a pobre viúva do Evangelho de hoje que o olhar atento de Jesus resgata do anonimato da multidão em seu gesto grandioso de dar tudo o que tem. A quinta é uma mulher que derrama um caríssimo e irrecuperável perfume na cabeça de Jesus, antes da sua Paixão.

Todas elas são mulheres atrevidas e ousadas em seus gestos excessivos, sem retenção nem regateio. Três delas cumprem os seus gestos num profundo silêncio, sem exigência nem palavra. Os seus gestos são a linguagem de todo o seu ser, expressão do seu coração inteiro que não precisa de se justificar. Por isso mesmo, elas assinalam a condição do discípulo fiel. Em Marcos, o verdadeiro discípulo declina-se no feminino.

O Evangelho deste domingo coloca em contraste os gestos solenes, excessivos, protocolares, rituais, falsos e interesseiros dos escribas e o gesto simples, discreto e, aparentemente, insignificante de uma pobre viúva. Uns são os gestos da arrogância, do exibicionismo e da falsidade do poder religioso; o outro é a autenticidade de um gesto singular, tão despojado, no qual uma mulher desprotegida e pobre se compromete por inteiro. Uns gestos revelam a hipocrisia, a exploração e a capacidade manipuladora de um sistema religioso/clerical injusto; o outro a autenticidade de um coração puro, a inteireza de uma vida feita dádiva ao deitar duas insignificantes moedas (dois cêntimos, poderíamos dizer hoje) no cofre do templo: «Muitos ricos deitavam quantias avultadas»; «Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas».

Com toda a clareza, Jesus convoca os discípulos a não se deixarem contaminar pelo fermento dos escribas, pela corrupção e força manipuladora do poder religioso: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes». Este poder sagrado não somente vive das riquezas das grandes fortunas como se alimenta também, perversamente, da exploração e da manipulação dos pobres e dos indefesos.

O próprio Jesus afirma, denunciando o comportamento dos escribas, que «devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas». É uma advertência para todos os tempos e para todos os lugares, pois o Senhor bem sabe que os seus discípulos não deixarão de cair na tentação dos primeiros lugares, da ostentação, do exibicionismo, das vestes rituais a assinalar a importância e a arrogância do poder sagrado. Tentação sempre presente na Igreja (e em todas as religiões), e que em nossos dias se revela e se desmascara à vista de todos.

Assinalando o contraste com as avultadas quantias dos ricos e a ganância dos escribas, Jesus apresenta a pobre viúva como expressão, desconcertante, da atitude do autêntico discípulo: o dar sem medida, um dar mais centrado na qualidade, na dádiva de si mesmo, do que na quantidade, na dádiva de coisas. Por outras palavras, a viúva, em sua dádiva insignificante de duas moedinhas deu toda a sua vida; deu-se por inteiro, sem cálculos. Porque deu da sua carência e não da sua abundância. Porque deu da sua pobreza e não do seu excesso.

Está aqui assinalada a diferença cristã: possam os nossos gestos ser expressão autêntica da nossa dádiva, do dom de nós mesmos. Mesmo na sua pobreza e aparente insignificância.

Pe. António Martins, Domingo XXXII do Tempo Comum

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