Queridas Irmãs e Queridos Irmãos

No caminho de Jesus com os discípulos para Jerusalém, à saída de Jericó, entra hoje um homem marcado pela cegueira, com uma história de exclusão e uma condição de dependência e passividade: é pedinte sentado à beira da estrada. É cego e como tal visto como alguém a quem Deus castiga. O próprio nome Bartimeu pode ter este sentido: filho do castigo, filho da vergonha, filho do contaminado.

A sua cegueira é como que uma parábola da nossa existência crente, que avança entre luz e obscuridade. A maior cegueira é o medo e a falta de confiança, esse corrosivo emocional que aprisiona a nossa existência. Esta cegueira pode acontecer a qualquer um de nós. Podemos perder de vista o sentido que nos faz viver, o rumo que queremos imprimir à vida, as razões por que acreditamos e esperamos. Na vida do próprio crente, a visão clara nunca é uma aquisição definitiva; é um bem sempre a pedir e a agradecer em sua vinda, a renovar continuamente no desejo «que eu veja».

Sublinho três aspetos no texto de Marcos. O primeiro, o grito do cego feito oração. Aquele homem cego ativa uma fina capacidade de ouvir. Vê com os ouvidos e todo o seu corpo, em escuta, sente quem se aproxima. Sabe o que quer: aproximar-se de Jesus que por ali está a passar. Por isso solta do profundo da sua alma um grito de vida, de socorro, de compaixão, de afirmação, de resistência. Há nele a explosão de uma voz incontida, de um reduto de força vital que ninguém pode travar e sufocar.

No grito a sua voz liberta-se, o seu corpo afirma-se. O seu grito é a afirmação de uma vida que pede reconhecimento, aceitação, dignificação. Grita rezando a oração mais simples e mais bela de toda a tradição cristã: «Jesus, filho de David, tem piedade de mim». Não vendo, sabe quem é Jesus, qual a sua identidade. Reconhece que ele é o Messias proclamando-o «Filho de David». E confia em seu grito orante que clama socorro, compaixão, um olhar de misericórdia para a sua miséria humana.

Piedade e compaixão são a base da dignidade humana e cristã. A piedade não é um sentimento pobre, piegas; é uma carência vital, um dom de grandeza incalculável. Essa capacidade de abraçar o irmão com um olhar de ternura, de misericórdia. Todos precisamos de dar e receber piedade; e alguns por circunstâncias de vida mais exposta a perigos, mais fragilizada, ainda mais precisam.

A piedade expressa-se num olhar benevolente, num abraço acolhedor da pessoa em sua dor infinita e tão pessoal, na hospitalidade de um silêncio que protege a nudez da sua vulnerabilidade exposta, num gesto de inclusão que devolva dignidade e sentido ao seu grito de dor. E só uma comunidade que é capaz de construir uma comunhão na dor pode ser capaz de experimentar uma comunhão na alegria.

O segundo aspeto: A multidão que segue Jesus, a comunidade dos discípulos, necessita, continuamente, de conversão. O grito do cego é sufocado pela multidão. As pessoas que acompanham Jesus tentam torná-lo invisível e insonoro; afastam-no do contacto direto com Jesus. O reconhecimento e a integração de uma pessoa com deficiência na vida de uma comunidade não é tarefa espontânea: não acontece sem superação dos nossos medos profundos, dos nossos sentimentos de vergonha e de rejeição.

Podemo-nos rever naquela atitude, tão fácil, tão imediata e tão espontânea, de sufocar o cego. Podemos reconhecer que somos bloqueio no acesso direto de tantas pessoas a Cristo, sobretudo os mais vulneráveis, os que estão marcados por circunstâncias adversas de vida.

Aí está Jesus a corrigir os nossos critérios, a convocar-nos para sermos mediadores, e não obstáculos: «Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Chamaram então o cego». Sim, Jesus pede-nos que chamemos, pela nossa voz e pelo nosso compromisso, outros ao encontro com Ele. Aquela multidão começou por ser um obstáculo e acaba por se tornar mediadora e facilitadora no acesso e no encontro pessoal com Cristo. Aconteceu um movimento de conversão comunitária, uma mudança de critérios de juízo e de ação.

O apelo de Jesus chega ao cego pela voz agora inclusiva, pelos comportamentos reorientados dos discípulos. Que são capazes de dar coragem e confiança ao cego, de o levantar da sua passividade, de o estimular a avançar, a erguer-se, a caminhar por si: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar por ti». E isso é o serviço profético e evangélico da comunidade cristã, em todos os tempos, em todas as circunstâncias: ajudar a erguer, facilitar o acesso a Cristo, encorajar a caminhar por si.

O terceiro aspecto: Saber que alguém nos espera, nos ama, nos quer escutar e encontrar, faz-nos erguer, correr, avançar, pormo-nos de pé: «“Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te”. O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus». Este é o milagre quotidiano da ressurreição: sentirmo-nos amados, esperados, escutados, sabermos isso de Jesus mas também daqueles que acreditam em Jesus e que são nossos irmãos de fé e de caminho. Assim a vida inventa-se, ergue-se, ressuscita, fica marcada pela novidade, pela luz de um sentido, de um caminho possível. Passamos a ver.

Aquele cego passou a ver, a ver um caminho, a ver um sentido, a ver um futuro, quando se sentiu querido, chamado e esperado por Jesus, e se sentiu encorajado por uma comunidade que o levou até à presença de Jesus, para a alegria do encontro. A nossa cegueira cura-se no ressurgir da confiança. E este ressurgir acontece quando nos sabemos amados e esperados.

A fé salva, salva do abismo, do desespero, do não-sentido; mas não salva sem a mediação e a confiança dos irmãos que nos ajudam e facilitam o encontro com Cristo, e nos encorajam a procura-Lo, ainda que tateando e cambaleando. Para que a nossa fé nos salve, precisamos de ser salvos/resgatados, também, pela confiança e pela esperança de quem está junto de nós.

Por mais densa que seja a noite e a sua obscuridade, há sempre uma promessa de luz e de amanhecer, uma promessa de esperança: «Os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria». E as lágrimas de dor podem-se converter em lágrimas de consolação.

Pe. António Martins, Domingo XXX do Tempo Comum

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