É no confronto com a Palavra de Deus que a nossa vida de crentes se afina, num processo de permanente discernimento (juízo) interior sobre nós mesmos, sobre a qualidade das nossas relações, sobre os acontecimentos do presente. A Palavra de Deus cumpre-se em nós com uma função cirúrgica, qual bisturi/espada de dois gumes que penetra as entranhas do corpo e da alma: todo o nosso ser, tudo o que somos, sentimos, projetamos, desejamos fica exposto e iluminado perante a Palavra escutada, lida, rezada e meditada.

Precisa a carta aos Hebreus, cujo trecho lemos na segunda leitura: «é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração» (Hb 4). Aqui se funda a nossa liberdade de consciência, a nossa soberania interior, que só Deus pode julgar, atravessar e habitar. A Palavra desmonta-nos e reconstrói-nos, rasga as nossas certezas e levanta-nos em nossos escombros; acusa-nos em nosso pecado e oferece-nos o consolo da misericórdia sem medida. Por ela somos divididos e reunidos: É no espaço da Palavra que a nossa vida de cristãos e de Igreja sempre recomeça, de novo se inaugura e se inventa.

Admiramos a ousadia e o atrevimento, ao mesmo tempo a generosidade de gestos (correndo e ajoelhando-se), daquele homem que aparece, de súbito, no caminho de Jesus. Aquele anónimo dá voz à intensidade do nosso desejo, àquela profunda inquietação de uma vida grande, cumprida, realizada. Que grande desejo o seu, no qual revemos também aquela pergunta vital que, silenciosamente, fazemos, como exigência de um apelo: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?».

Toda a vida humana precisa de um horizonte de grandeza para se medir e para se justificar. A dignidade da nossa vida, o grito interior do nosso desejo pedem largueza: a mediocridade é negação da intensidade do desejo que nos habita. «Que hei-de fazer?» apresenta uma pergunta que trás uma vontade de agir, um fazer prático, e ao mesmo tempo confessa uma incerteza, um não saber como, uma dúvida. Sentimos em nós o desejo de uma vida plena, intensa, definitiva (a vida eterna), mas não sabemos como nos orientarmos, como seguir fiéis um horizonte, como marcar esse desejo com a objetividade de um caminho possível.

Jesus propõe a este homem inquieto um itinerário, que é também para nós. Um itinerário marcado por uma qualidade relacional. Começa por lhe propor uma ética de mínimos, assegurada pelo cumprimento dos mandamentos. E no texto todas as referências aos mandamentos têm a ver com o respeito pelos outros, com a sua dignificação: «‘Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’». Curiosamente Jesus não lhe pergunta se adora a Deus; precisamente porque o amor a Deus passa pelo amor ao próximo. São inseparáveis: não há verdadeiro culto a Deus sem a dignificação da vida humana. E nesta ética de mínimos, e tão necessária é como garantia comum de uma convivência pacífica e digna, o nosso homem é um fiel cumpridor. É, podemos, dizer um bom homem, um homem justo com uma vida irrepreensível, eticamente sem ponta de acusação.

E quando tudo parece arrumado, Jesus provoca-lhe um estremecimento, desafia-o para a ousadia, para um excesso, para uma vida para além da norma, do regrado, do eticamente bem cumprido. Propõe-lhe um caminho de atrevimento, uma audácia que lhe acrescente ainda mais vida. Pois essa vida eticamente bem cumprida é ainda uma vida carente, uma vida egoísta e pobre, centrada no próprio ego, nos seus interesses: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me”» (Mt 10). E um pormenor a salientar: esta audácia de agir é-lhe proposta por Jesus num olhar de sedução e de encantamento: «Jesus olhou para ele com simpatia». Ou noutra versão: «Jesus, fixando nele o olhar, amou-o».

Que intensidade de atração, que encantamento: é um olhar que nos convida a um excesso, suportado pelo amor; um olhar de amante que nos desafia à audácia de um agir, à ousadia de um êxodo, ir vender o que tem, dar aos pobres e seguir Jesus. Sublinho: isto está para além do mandamento, do preceito a cumprir. É da ordem da sedução e do encantamento: é atração e arrebatamento; é desejo que vem ao encontro do nosso desejo mais profundo, que nos convida a sair de nós mesmos e a nos cumprimos no dom, na partilha, na vida que dá vida, precisamente porque partilha o que tem, reparte-se, acrescenta vida a outras vidas mais vulneráveis (reparte os bens com os pobres).

«Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico» (Mt 10). Esta é a história de um belo desejo perdido, de uma profunda inquietação que não teve concretização. De uma procura que não se traduziu em encontro, de uma vida que quis ser grande mas não passou da estreiteza do seu egoísmo, da prisão do ter e da posse (tinha muitas posses/propriedades). Ao recusar desapossessar-se, aquele homem recusou multiplicar vida. E por isso permanece anónimo, sem nome. Tudo termina numa profunda tristeza, num voltar à quotidiana mediocridade.

Fica, para nós, o alerta: como não sabotar o nosso desejo mais profundo? Como ativar em nós o dom da partilha, da riqueza distribuída, de acrescentar vida a quem é mais frágil e carente? Porque riqueza não partilhada é, evangelicamente, uma profunda pobreza, morte antecipada, porque nega a circularidade da vida que é relação, encontro, distribuição, partilha, acrescento.

E digamos nós também com o salmista: ««Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração».

Pe. António Martins, Domingo XXVIII do Tempo Comum

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