Queridas Irmãs e Queridos Irmãos

Perante a complexidade da vida de casal hoje, com as suas feridas e roturas na promessa do amor mútuo, os desencontros e separações, o número, as palavras de Jesus, no evangelho deste domingo, podem resultar duras e difíceis.

Esta é uma das passagens bíblicas que fundamenta a doutrina católica sobre a indissolubilidade do casamento. Aplicada de forma rigorista, a passagem pode provocar na vida de muitos fiéis um profundo sentimento de exclusão. Por isso deve ser lida e proposta com clareza mas também com prudência. Na vida da Igreja contemporânea quantas pessoas não experimentam a dor da separação matrimonial acrescida da dor da exclusão da comunidade cristã?

Quando confrontado pelo grupo dos fariseus sobre a possibilidade de divórcio, previsto no Livro do Deuteronómio e que era prática corrente no judaísmo do tempo, Jesus reenvia para a intenção original de Deus: «no princípio da criação, “Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne”». «No princípio», aí onde Deus assinala o seu projeto de vida e de amor, em que o amor humano do casal se torna imagem viva e encarnada do próprio amor fecundo de Deus comunhão de pessoas, já numa leitura cristã.

O evangelho de hoje é lido a partir dos Génesis. A primeira leitura reenvia-nos para o mistério e para a promessa das relações. Com a sua linguagem poética própria, cheia de plasticidade figurativa, o texto do Génesis assinala que é a relação, o encontro, o face-a-face que nos salva de uma mortal solidão: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Outra possível tradução, mais ambígua mas também mais realista, propõe: «Farei para ele uma ajuda contra ele»; «Farei para ele uma ajuda que lhe esteja face-a-face».

«Uma ajuda» assinala logo uma condição de carência e de incompletude que só a vinda de uma outra pessoa, com a sua alteridade tão próxima e tão diferente, pode completar. O realismo bíblico apresenta a nossa profunda condição de carência e a relação como socorro, ajuda e salvação para a nossa humanidade exposta à própria falência. Essa ajuda (a mulher) é apresentada ao homem numa relação rosto-a-rosto, face-a-face, de mútua correspondência; mas esse face a face, na ambiguidade do texto, tem já contida uma dramática: é, ao mesmo tempo, encontro e confronto, face-a-face e enfrentamento, ajuda e ameaça. Aqui está assinalada a poética/a invenção das relações que todos experimentamos. E quem arrisca viver em casal conhece na própria carne a promessa e a tensão desse face-a-face quotidiano.

Essa promessa originária de Deus é reafirmada por Jesus: «Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne». Um e outra deixam as suas origens para dar origem a uma nova realidade, «uma só carne». Deixam seguranças, para se colocarem em êxodo, em caminho de futuro, abrindo-se ao porvir de uma promessa: «os dois serão uma só carne». Para construir um único projeto de vida na singularidade complementar de duas diferenças de género, de personalidade, de história de vida. Que mistério, que aventura, que risco!
Sublinho ainda no texto o realismo do termo carne: indica vulnerabilidade, exposição ao risco, carência, mas também vida em relação, pertença mútua («carne da minha carne, osso dos meus ossos»). Mas nessa vulnerabilidade inscreve-se a encarnação da própria imagem do Deus Trino: dois em um, vida que dá vida, amor fecundo aberto ao futuro. Se esta aventura de «uma só carne» não for feita com humildade, perdão mútuo, com aquele amor que tudo suporta, perdoa e crê, a vida de casal pode tornar-se num inferno insuportável, num violento campo de combate.

No evangelho de hoje Jesus acrescenta uma novidade, não prevista nas sociedades da época profundamente machistas: tanto ao homem como à mulher são pedidas as mesmas responsabilidades, numa espantosa igualdade de exigências. À mulher, a parte mais débil, não lhe era permitido repudiar o marido. Jesus eleva a mulher a igual dignidade. O evangelho reconhece, e previne, que toda a promessa de fidelidade traz consigo uma possibilidade de adultério e de traição, a solicitar da nossa parte uma vigilância e um cuidado contínuos.

Se, como dissemos, a passagem evangélica de hoje funda a doutrina católica da indissolubilidade do matrimónio, a mesma passagem não pode ser aplicada como um chicote para julgar e castigar situações de fragilidade relacional de tantos casais separados e que constituíram novas relações. A experiência dolorosa de situações de rotura nas relações e de exclusão numa vida eclesial mais comprometida tem suscitado, nos tempos recentes, uma cuidada reflexão por parte do Magistério (dois Sínodos dos Bispos), com propostas prudentes de avanços pastorais.

A exortação apostólica Amoris Laetitia (A alegria do Amor) para isso nos convoca: «a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança» (AL 291). Propõe-se um discernimento caso a caso, a nível do foro interno (de consciência), num processo de diálogo entre o sacerdote e cada crente, tendo em vista uma progressiva integração na vida eclesial, sem excluir a participação na eucaristia. Dentro das indicações do Papa Francisco e de D. Manuel Clemente, estou disponível, junto de quem o desejar, para acompanhar esse processo de discernimento.

Para mim e para todos vós peço a bênção de Deus.

Pe. António Martins, Domingo XXVII do Tempo Comum