Queridos Irmãos e Irmãs

S. Gregório de Nisa apresenta a vida cristã como uma ascensão, entre luz e trevas, feita de permanentes recomeços. Cada etapa alcançada origina nova escalada. Aqui estamos todos nós, após o descanso do verão, para dar continuidade ao ritmo da nossa vida, e também da nossa vida como comunidade do Rato. Para mim, é um tempo inteiramente novo: avanço com o entusiasmo e a determinação dos inícios, consciente de que o caminho tem desafios e riscos.

1. O evangelho marca o ritmo da nossa vida. Com a palavra que é Jesus Cristo, fracionada em cada domingo, vamos consolidando a nossa inteligência crente e afinando (corrigindo) o nosso agir. O texto de hoje, do evangelho de Marcos, apresenta Jesus em movimento com os discípulos nos arredores de Cesareia de Filipe, no norte da Galileia. Estão «em caminho».

«No caminho, fez-lhes esta pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?”». Jesus, com eles, vai perguntando. Num primeiro momento, sonda-os sobre o que a opinião pública diz sobre ele (os outros, o sentir dos afastados, o pensar comum dominante). Num segundo momento, mais certeiro e direto, confronta os seus discípulos com uma pergunta provocatória: «E vós quem dizeis que eu sou?». Há uma pedagogia intencional nas perguntas de Cristo. Jesus oferece-se a nós como pergunta a suscitar a elaboração de uma resposta pessoal, a partir da carne da própria vida. Convoca-nos à passagem de um dizer a partir de outros (dos lugares comuns dominantes, dos textos oficiais…) para um dizer próprio, em primeira pessoa, que nos compromete por inteiro. Um dizer que seja a expressão da qualidade e da experiência, vital e concreta, da nossa relação com o Senhor: «E vós quem dizeis que eu sou?».

O caminho, além de ser corpo em movimento, e corpo comunitário (Jesus e os discípulos), é um lugar itinerante de questionamento, de colocação de perguntas, de procura de respostas. O caminho diz a nossa condição itinerante de crentes. Queridos Irmãos e Irmãs, bem o sabemos e experimentamos, acreditar é um movimento, entre perguntas em aberto e respostas provisórias, nunca definitivas. E o que dizemos hoje pode ser desmentido, corrigido e aperfeiçoado no futuro pelos nossos gestos e atitudes práticas. A vida (e igualmente a vida cristã) é um caminho em aberto. Como pergunta a desafiar respostas, é o modo como Jesus se dirige a nós. A deixar a nós, no risco da liberdade e da inteligência, a elaboração da nossa resposta, que é a aventura e o compromisso de uma inteira vida. Porque cada etapa da vida, cada nova circunstância, cada crise atravessada são novas etapas, por vezes dolorosas, no dizer da nossa resposta ao Senhor. Pobres e insensatos são aqueles que se acomodam, blindados, a respostas feitas, definitivas, sem discussão.

Jesus e os discípulos a caminho, numa relação (numa comunicação) entre perguntas e respostas. Creio que podemos encontrar aqui um critério para nos cumprirmos também como comunidades do Rato: uma comunidade a caminho, que aceita pôr-se em questão, ser continuamente questionada por Cristo, corrigida, convocada para mais longe. Uma comunidade que está atenta ao dizer exterior, ao dizer (razões) daqueles que estão fora, que pensam de modo diferente. Uma comunidade que não se fecha em si mesma, mas que aceita ser interpelada pelas grandes questões do nosso tempo que afetam a sociedade e a Igreja. Uma Igreja/comunidade a caminho, a caminhar em conjunto, com os contributos de todos os que se sentem comprometidos com a procura de uma resposta à provocação de Jesus. É para este estilo de Igreja sinodal (em caminho), corresponsável, em permanente procura, que vos convoco.

2. Um segundo momento da nossa reflexão é-nos dado pela resposta pronta de Pedro, sempre o primeiro, porque primário nas decisões mas também nos equívocos e nos erros. «Pedro tomou a palavra e respondeu: “Tu és o Messias”». A resposta pronta de Pedro está atravessada por equívocos e ambiguidades, como se verifica na sequência do próprio texto e do evangelho de Marcos. O silêncio que Jesus impõe aos discípulos tem a ver com essa palavra perigosa, carregada de equívocos, que é «Messias»/Cristo. Como se Jesus estivesse a dizer a Pedro, e a cada um de nós: o que tu dizes de mim é verdade, mas é uma verdade que precisa de ser verificada na tua vida, e ainda não estás pronto para isso. Precisas de perceber que a tua conceção de Messias não é aquela que eu vou realizar e cumprir. O teu Messias não sou eu. E Pedro não estava pronto para perceber isso. Por isso há um conflito violento entre Pedro e Cristo.

No esquema mental de Pedro era impensável que o «seu» Messias se expusesse ao sofrimento, à rejeição pelas autoridades e à morte. O «seu» Messias só poderia ser um Messias vitorioso, vencedor dos inimigos, a fazer justiça às vítimas, a triunfar sobre os ímpios, os violentos e os opressores. Pedro até pensava certo segundo a catequese recebida. Não teria Pedro, como judeu piedoso, rezado tantas vezes o salmo: «Os malfeitores serão destruídos… os justos vão possuir a terra» (Sl 37,28-29)? Um Messias crucificado é para ele escândalo e loucura, pura blasfémia. Mas este pensar consolidado de Pedro não é também expressão de um pensar aninhado nos estratos mais profundos da nossa mente, o querer um Deus fácil, triunfador, vitorioso que nos torna também vitoriosos e triunfadores perante a violência do mundo? A expressão de um esquema mental em que a vida se mede sempre pelo critério da eficácia, do êxito, de vida bem sucedida e reconhecida?

Por isso Pedro «repreende» violentamente Cristo. Ele ordena a Jesus de não seguir esse caminho de escândalo e de loucura, esse caminho demoníaco. Jesus repreende Pedro, colocando em seu lugar, o lugar de discípulo, atrás do Mestre, e de um Mestre que aceita, despojado e indefeso, perder a vida para acrescentar vida aos seus irmãos. Entre Pedro e Jesus há um combate violentíssimo: dois modos de pensar e de agir se confrontam. E esse confronto atravessa-nos continuamente. É também o nosso, nos mais profundo do nosso ser.

Pela sequência dos relatos evangélicos, podemos afirmar que Pedro não mudou muito o seu modo de pensar, após este violento confronto com Jesus. Fica uma nota de realismo: como são lentos e dolorosos todos os nossos processos de conversão. Afinar a nossa resposta com Jesus é um processo pascal (de morte e ressurreição), que exige tanto tempo. Na hora decisiva da cruz, a hora da rejeição, da prisão e da condenação à morte de Jesus, Pedro nega a sua relação com esse Messias débil; recusa-o e rejeita-o: «Não conheço esse homem»; «não compreendo o que dizes». Até aqui está a ser coerente consigo mesmo. É o cantar do galo que desperta nele a memória das palavras de Cristo, e acorda nele a profundidade da sua traição: negando a Cristo, estava a negar-se a si mesmo, na sua mais profunda vulnerabilidade. «E começou a chorar».

Por quantos caminhos de falsificação de si mesmo, de crise das suas representações sobre Deus, de violentos confrontos, de fracasso, não tem de passar um crente para se reconhecer, na carne da sua própria vida, incondicionalmente amado por Cristo, e poder dizer com todo o seu ser: «Tu és o Messias»? Que percurso caminho não atravessa cada um de nós para chegar ao banho batismal das lágrimas e experimentar o abraço da misericórdia?

Pe. António Martins, Domingo XXIV do Tempo Comum

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