Queridos irmãs e irmãos,

Aquilo que S. Paulo diz neste discurso nos Atos dos Apóstolos é exatamente o modo como nós devemos sentir o encontro com a Palavra de Deus no aqui e no agora das nossas vidas, porque Paulo diz aos seus auditores que “A nós é que foi dirigida esta Palavra de Salvação.” E, de facto, nós somos convidados a fazer deste momento de escuta da Palavra um momento de vida em que nos apropriamos desta Palavra como alimento, como luz para aquilo que somos e para aquilo que vivemos.

Eu gostaria de destacar das leituras de hoje três elementos que me parecem especialmente significativos, ou que hoje a mim me tocam especialmente.

O primeiro tem a ver com o Salmo 138 (139) que nós hoje proclamamos.

Estes dias tive mais uma apresentação do livro “Elogio da Sede” e no final uma senhora já com muitos anos pediu para comentar comigo qualquer coisa. Ela esperou pacientemente que tudo acabasse, e no final veio ter comigo com uma pergunta que à primeira vista parecia estranha, mas depois eu percebi bem o significado e hoje voltei-me a recordar dela. Ela veio ter comigo e disse: “As roupas que hoje certos jovens vestem, umas roupas todas rasgadas, todas esgarçadas, o que é que acha que isso é?” Eu fiquei assim a olhar para ela, mas ela depois continuou, e eu percebi que era um momento muito especial o que ela me estava a oferecer, porque ela disse:  Acha que é porque eles se sentem assim, que eles se sentem assim descosidos, rotos, fragmentados?  É que quando eu tinha 20 anos, era assim, precisamente, que eu me sentia… ”

E, de facto, ao longo da nossa vida muitas vezes nos sentimos assim. Sentimo-nos como se nos faltasse alguma coisa, como se um mal nos acompanhasse, não nos sentimos filhos, sentimo-nos órfãos, não nos sentimos de casa, sentimo-nos estranhos, sentimos que merecemos não ser amados.

Há uma espécie de desconfiança que nós alimentamos em relação à nossa própria vida. E sobretudo aquilo que nos pesa é o pecado, é a sombra de uma qualquer maldição, e não a alegria e a esperança de uma bênção que Deus faz reclinar sobre nós. Tantas vezes nós caminhamos pela vida com este peso, como se armadilhássemos o nosso próprio caminhar…

Aos 20 anos aquela senhora sentia-se assim, mas é possível sentir-se assim aos 40, aos 60, aos 80, aos 10, ao longo de toda a vida.

Por isto este Salmo maravilhoso é uma oração que nós precisamos urgentemente de rezar. Porque é a oração que fala da maravilha que Deus faz em nós, das coisas maravilhosas que Ele dedicou a cada um de nós: do cuidado, da ternura, do entusiasmo, do amor, da confiança, do deslumbre, da delícia que Deus coloca em cada vida, em cada existência.

Lembro-me muito bem de uma pessoa que eu acompanhei, com uma grande falta de confiança e de amor, e quando aos poucos a fui encaminhando para a descoberta do Amor de Deus e a ajudei a rezar especificamente este Salmo que hoje nós lemos, eu lembro-me de uma conversa em que ela diz: “Sabe, a coisa que eu mais lhe agradeço é ter-me dado a compreensão de que Deus me fez maravilhosamente…”

Porque às vezes nós olhamos para nós e só vemos a pedra, não vemos a obra, só vemos o monte de confusão e não vemos a criatura, só vemos o mendigo e não vemos o filho. E é tão importante esta mudança a acontecer em nós!

De facto, Deus fez maravilhosamente cada um de nós, e se nós formos capazes de sentir isso, não como uma vaidade, não como um orgulho (que isso é uma coisa tão tola!), mas como uma verdade natural que nos funda, que nos arquitecta, então somos capazes de viver a vida com outra liberdade, com outra naturalidade, com outra confiança. Porque é este olhar de Deus que confirma cada um de nós que nos ajuda verdadeiramente a ser, que nos desimpede o caminho e os nós que sem querer nós carregamos anos e anos e depois percebemos que não fazia sentido, que não era aquilo, que aquilo não nos ajudava e que aquilo não tinha nada a ver com Deus…

É importante sentir isto, sentir a força incondicional do Amor de Deus que é oferecido a cada um de nós. E que nós descobrimos não apenas a acontecer a meio da vida mas percebemos depois que é desde sempre, que esse Amor foi o primeiro pensamento que Deus teve acerca de nós e que a nossa vida é uma vida cuidada, é uma vida amparada, é uma vida embalada, é uma vida sustida pelo Amor de Deus.

No Profeta Isaías, nós temos uma daquelas expressões de lamúria e de cansaço que tantas vezes é a nossa, que nos sai com muita espontaneidade. O Profeta diz: “Cansei-me inutilmente, em vão e por nada gastei as minhas forças”. Nos balanços que nós fazemos da nossa vida (o que é que valeu a pena, o que é que não valeu, o que é que eu fiz, o que é que eu consegui, o que é que continua, o que é que fica para trás) muitas vezes os anos nos vão fazendo entrar num pessimismo muito carregado. Olhamos para a vida ou com um cinismo ou com uma dor, incapazes de abraçar isto em nós que nos desgosta, isto que parece que foi inútil, que não valeu a pena.

O Senhor ajuda o Profeta a perceber a sua vida como um caminho. Mesmo estes momentos de cansaço em relação à vida, de desânimo profundo são chamados a uma projetualidade que os redime.

Deus não nos deixa ficar no desânimo, Deus não nos deixa com os braços caídos. Deus quer que nós percebamos, na humildade e na simplicidade da nossa vida, que somos chamados a ser luz, a experimentar a salvação, a saborear a salvação de um modo que muitas vezes não é aquilo que nós sonhámos, não é aquilo que nós pensámos. Mas temos também de ser chamados a fazer um caminho e a não ficar no desânimo, a não ficar no cansaço… é claro, nós chegamos a esta altura do ano, à beira do verão e das férias, e só pensamos na muralha de cansaço, nos escombros, em tudo aquilo que nos pesa neste momento.

Nós somos chamados a olhar a vida de outra forma e isso é também uma conversão ao Amor de Deus, não é apenas um trabalho psicológico, é um trabalho espiritual. É uma reconstrução espiritual da vida que nós precisamos que aconteça. Porque a nossa vida não é só o resultado dos fatores e das variantes que nós dominamos. A nossa vida não é pré-determinada. Às vezes pensamos: “ Com o que eu fiz, com o caminho que eu tive, com as opções que eu tomei, agora o resultado é este, acabou!” Achamos que a vida se tornou irreversível, que a vida agora é atuada por uma espécie de fatalismo que necessariamente nos vai confirmar no desânimo…

Ora, quando aquela mulher estéril dá à luz um filho é preciso pôr-lhe um nome. Hoje nós sabemos como os casais têm imensa dificuldade em porem um nome, porque o nome é uma coisa muito importante. Pôr um nome a um filho é uma coisa muito importante. E naturalmente, isso ainda acontece hoje, vai-se buscar um nome de um parente, um nome de uma família, um nome que transporte a memória de uma determinada história.

Isabel e Zacarias vão pôr ao filho um nome que não tem nada a ver com o seu passado, não tem nada a ver com a sua família, não tem nada a ver com a sua história. Vão buscar um nome inédito, um nome novo, um nome que é um nome de começo, é um novo princípio, é alguma coisa que não é herdada do passado, mas é uma manifestação do futuro, é emergência pura do futuro.

E toda a gente diz: “Mas o que é que vocês estão a fazer, isso não bate certo!”

Também a nossa vida nós não podemos olhá-la apenas como um pré-determinismo, não podemos olhá-la apenas como uma consequência do seu passado, uma consequência dos fatores que estão em ato. A vida também é um salto, a vida também nos chega do futuro, não nos chega só do passado. O hoje não é só o que tem a ver com o ontem, o hoje também é a surpresa de Deus, é este futuro de Deus que se abeira da soleira da nossa porta, da soleira deste instante que nós somos. E é a abertura de coração também a esse futuro, a essa novidade, a esse lado inédito da vida, que nos faz começar a cada momento uma nova história, e nos faz acreditar que é possível, que é possível, que é possível…

Hoje nós celebramos a Festa do Nascimento de S. João Batista. Isto é muito importante porquê? A fé tem protagonistas concretos, a fé não é uma abstração em movimento na história. São vidas concretas, nomes concretos, mulheres e homens que nascem, amam, amadurecem, partem em Deus, mas que no aqui e no agora são capazes de corporizar esse desejo de Deus, esse sonho de Deus.

Por isso, a vida de cada um de nós é muito importante. Aquilo que somos é muito importante! Nós não fomos feitos para a sombra da maldição, mas fomos feitos para a luz de uma bênção.

Cada um de nós se sinta por isso iluminado por esta Palavra que hoje, vinda de Deus, se torna caminho concreto, se torna manifestação de confiança de Deus ao coração de cada um de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade do Nascimento de São João Batista

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