Queridos irmãs e irmãos,

Se nós pensarmos no processo da Paixão de Jesus, tudo correu mal na relação dos discípulos com ele. Jesus chamou aqueles homens para viverem com Ele uma experiência de comunidade, revelou-lhes o fundamental do Seu projeto, deu-lhes sinais, ajudou a consolidar a sua convicção mas na hora decisiva eles demandaram. Traíram-no, foram cobardes, pensaram em si mesmos, em salvar a sua pele, deixaram-No sozinho, disseram que não O conheciam de lado nenhum. E, quando chegou a hora da cruz Ele estava sozinho, tinha as mulheres. E as mulheres foram as primeiras testemunhas da Ressurreição porque elas não tinham nada a perder, elas viviam aquele amor por Jesus e queriam perfumar o Seu corpo, queriam visitá-Lo, queriam chorar junto da Sua tumba. Mas os homens não, os discípulos tinham todos fugido, tinham-se refugiado, pensado agora é o fim, “nós vamos apanhar a ressaca de tudo isto, vamos também ser perseguidos, sabe-se lá o que nos vai acontecer.” E estavam longe.

Nós ouvíamos os discípulos de Emaús que imediatamente deixaram Jerusalém e foram para um lugar mais seguro na periferia e pensamos: como é que depois vai ser o primeiro encontro com Jesus? Quer dizer, Jesus vem ao encontro destes que o abandonaram, destes que O negaram, destes que O traíram. Como é que vai ser o encontro de Jesus com estas pessoas? E o que é maravilhoso é percebermos que Jesus vem ao encontro deles na paz, na reconciliação, no perdão. Jesus não vem para um ajuste de contas. A Ressurreição não é um ajuste de contas, não é um triunfo sobre a fragilidade dos discípulos. Pelo contrário, é um alargar, é um reforçar, é um encher, é um abraçar as lacunas, é um dialogar com aqueles que O haviam abandonado. Jesus não abandona aqueles que O haviam abandonado. E isto para nós é Ressurreição pura a acontecer. Porque, o que é para nós a morte é a lógica do ajuste de contas. O que não nos deixa saída, o que não nos dá futuro é quando nós pagamos o mal com o mal. O que para nós é um vicolo fechado, uma rua estreita é quando, perante o sofrimento que os outros nos infligem, nós queremos fazer o mesmo. A Ressurreição é uma rutura com a lógica do olho por olho, dente por dente, com a lógica do egoísmo, com a lógica da vingança, da revanche, é uma rutura com isso.

Jesus vem e eles têm as portas fechadas e Jesus vem na mesma. E vem dizer: “A paz esteja convosco.” A Ressurreição é esta capacidade de criar a paz em situações, em ambientes, onde parece que a paz já não é possível, onde a rutura se consolidou. Mas Jesus não aceita o irremediável da vida, não aceita o irremediável da nossa história e vem dizer: Não, Eu vou-me pôr no meio e vou dizer “a paz esteja convosco”. E depois Jesus faz um gesto: sopra sobre eles. E este sopro é a Vida, é a transmissão do Espírito, é a nova criação. Como Deus insuflou o ar nas narinas do primeiro Adão que moldou da terra, Jesus também insufla o Seu Espírito nestes discípulos para que eles possam verdadeiramente ser. Então, a vulnerabilidade, a fragilidade, a miséria dos discípulos não impede a Ressurreição.

Queridos irmãs e irmãos, nada impede a Ressurreição, a força da Ressurreição, o poder da Ressurreição. Não são as nossas portas fechadas que impedem Jesus de vir, de soprar sobre nós e de nos recriar. O tempo da Ressurreição, o tempo Pascal é tempo para nos sentirmos novos, renovados, recebendo um Espírito novo. Que é um Espírito que vai para lá da nossa fragilidade, que vai para lá das próprias feridas que trazemos. Jesus é capaz de fundar uma nova etapa e de trazer a paz, de encher o coração de paz, dar a força que precisamos e isso é Ressurreição e isso é Ressurreição a acontecer.

Se calhar, neste momento das nossas vidas nós estamos de portas fechadas, se calhar, neste momento das nossas vidas nós estamos acossados com medo, se calhar, neste momento da nossa vida nós vivemos a ressaca disto, de cobardias, de traições, de abandonos, de incompreensões e Jesus vem para soprar sobre nós, para transmitir-nos o Seu Espírito. Este é o primeiro momento.

A segunda experiência da Ressurreição é aquele encontro pessoal com Tomé. E Tomé diz: “Não, eu preciso de ver. Eu duvido, eu não acredito que isso seja possível.” E Jesus não tem medo das dúvidas de Tomé, Jesus não as desconsidera. Jesus toma a sério a palavra de Tomé. E isto para nós é muito importante, porque como é que a nossa fé se constrói? A nossa fé constrói-se porque Deus toma a sério as nossas dúvidas, a nossa incapacidade de acreditar, de ir mais longe. Ele toma a sério e traz precisamente aquilo que Tomé pede, “Eu preciso de ver as feridas”. Então Jesus traz as Suas feridas, “Então toca nestas feridas”, e esta disponibilidade de Jesus para caminhar segundo o nosso passo, para vir ao encontro. Por mais absurdos que sejam o tipo das nossas reivindicações, é a força da Ressurreição a entrar na nossa vida.

Normalmente, as feridas continuam a ser uma marca do conflito. Nas feridas nós lemos as nossas lágrimas, as nossas dores, a agressão. As feridas são uma espécie de documento da guerra, daquilo que aconteceu. Jesus transforma as feridas que são inapagáveis, Jesus transforma-as numa fonte de encontro. E isto também para nós é Ressurreição. A Ressurreição só acontece com a transformação das nossas vidas, do sentido das nossas feridas. Temos de deixar de olhá-las apenas como uma coisa que nos foi tirada, como a coisa que sofremos e olhar para as feridas como a marca do nosso dom, da nossa dádiva, da nossa entrega, da oferta de nós mesmos. Como Jesus olha agora para as suas feridas, não como a vitalidade que Lhe foi tirada mas, pelo contrário, são o documento de um amor, de uma entrega, de uma paixão pela vida, de uma doação até ao fim.

Quando formos capazes de transformar o sentido das nossas feridas nós estamos a ressuscitar, estamos a ressuscitar e isso é alguma coisa que fazemos no tempo, é alguma coisa que precisamos fazer. Todos nós somos pássaros feridos, de um lado e de outro, cheios de amolgadelas. Mas que sentido é que isso tem? O que é que eu posso fazer com isso? Que património é esse? É um património apenas de dor, de sofrimento, de agressão que eu transporto pela vida fora? Ou é alguma coisa que eu ressuscito, que eu interpreto de outra forma, que eu sou capaz de dar um sentido? Á maneira daquele sentido que Jesus deu às Suas próprias feridas. Isso também é ressuscitar, reinterpretar o nosso sofrimento, isso também é ressuscitar. Passar da lógica apenas vitimária para a lógica da doação, para a lógica do dom.

Jesus não conta a Sua vida como um sacrifício que Lhe foi infligido, Jesus conta a Sua vida como uma história de amor. E contar a sua própria vida como uma história de amor isso também é ressuscitar, é ressuscitar com Jesus.

E o terceiro aspeto desta página do Evangelho de S. João é aquela frase misteriosa que Jesus diz a Tomé, diz aos que estavam ali reunidos, aos onze: “Tu porque viste, acreditaste. Felizes os que acreditam sem terem visto.” Aqueles que vivem uma dinâmica da Ressurreição na história, no mundo, ao lado uns dos outros são aqueles que acendem a luz da esperança, acendem a luz da promessa no seu coração. E não precisam de ver para lutar. Não precisam de ver para permanecer fiéis numa esperança, numa espectativa, aqueles que vivem a história não a partir do terreno seguro de uma história cheia de garantias, mas aqueles que avançam no tempo da incerteza que é o nosso com o coração colocado mais adiante. Sem garantias, sem certezas. Mas o amor é também o risco de ser, a fé é também o risco de viver. E a Ressurreição também é um risco. É viver a vida arriscando, acreditando que pode ser assim, que vai ser assim. E é esta fé quando é o motor da nossa vida que se torna também uma máquina de ressuscitar vida, de alargar horizontes.

Queridos irmãs e irmãos, a tarefa é nossa. Nós estamos aqui e sobre nós desce o Espírito do Ressuscitado. Quer dizer, Jesus vive em nós. Ele está vivo em nós, Ele está vivo em cada um de nós. E como é que isso se vê? Como é que isso se toca? Como é que isso se torna motivo de fé? Ele está vivo em cada um de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Páscoa

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