Queridos irmãs e irmãos,

No mistério do Natal, celebrando a Encarnação do Senhor, nós não celebramos apenas este assumir por Deus da nossa humanidade: Jesus que Se faz um de nós, que toma a nossa carne, que é um corpo. Celebramos também o facto de Deus ter querido pertencer à família dos homens e ter integrado uma família, como cada um de nós integra uma família. E ter mergulhado nesse laboratório de amor e de vida, nessa escola de caridade e solidário cuidado que é uma família.

Jesus não podia simplesmente tomar a nossa carne. Ser uma pessoa humana, ser uma mulher, ser um homem é passar também pela experiência de uma família, ser uma família, construir uma família. E por isso, os laços familiares são laços tão estruturantes daquilo que nós somos e certamente foram também na vida de Jesus. Ele certamente teria parecenças com a Sua mãe, teria um modo de ser, um modo de trabalhar, de enfrentar as dificuldades, de olhar para os desafios que tinha a ver com José. E isso, é alguma coisa que nos faz entender o que é uma família.

Nós hoje precisamos dar graças pela nossa família, dar graças. Uma família é um conjunto de gerações, não é apenas uma geração. Uma família dá-nos essa experiência mais profunda do tempo e daquilo que é a existência. Uma família lembra-nos que a nossa vida é dom, que a nossa vida é desejada, que o fundamental da nossa vida é aquilo que recebemos no nascimento de cada um. Talvez tenha sido, não sei, o facto mais importante da nossa vida, o nosso nascimento. Nós não fomos ouvidos nem achados, fomos colocados neste mundo. Alguém conspirou, alguém sonhou, alguém desejou, alguém nos amou. Sem nos conhecer, sem nos ver, alguém nos desejou com esse amor incondicional para nos colocar sobre este mundo. Nós não sabíamos de nada, quando damos por nós já estávamos ao colo de alguém, embalados pelos sorrisos, pela felicidade de alguém. E isso é o mistério da própria vida.

Uma família faz-se de nascimentos, faz-se de maturação, de crescimento. São etapas tão fundamentais acompanhar as várias estações de uma vida – a primeira infância, a adolescência, a vida adulta com os seus desafios. Depois, acompanhar, como os textos nos recordam, a vida avançada, a velhice, estar presente nas doenças, nas grandes alegrias. É de facto um presépio permanente, um presépio todo o ano a família. Porque, ali nós experimentamos de uma forma muito concreta, como protagonistas, o que é a construção solidária, colaborativa da nossa própria humanidade.

Numa família, nós experimentamos três coisas que as leituras da Palavra de Deus de hoje nos ajudam a ver. Começamos por perceber que o mais importante é o ato. Não são as palavras. Por exemplo, os pais. Os pais são pais. Aqueles pais que às vezes querem ser os grandes educadores, os grandes professores, os grandes amigos. Isso tudo está muito certo mas, antes de tudo, os pais são pais. E o que é ser pais? O que é ser mãe? O que é ser pai? É falar pelo ato, pelo ato. Mais do que pelas lições que se dão, pelas abstrações, pelos conceitos, é mostrar a vida a acontecer, é mostrar a importância da vida nas suas coisas mais simples. Pôr uma mesa, levantar uma mesa, limpar, cuidar, fazer, empenhar-se. A grande herança, a grande lição que os pais dão é essa paixão pela vida, esse amor pela vida que os faz viver. Quando o fazem eles não pensam: eu estou a fazer isto para dar um testemunho. Quem pensa isso não dá verdadeiros testemunhos.

Os pais têm de viver, têm de ser. E depois, mais tarde, nós filhos vamos olhar e vamos perceber os testemunhos que eles foram, as lições que eles nos deram. Talvez em coisas que os pais nem se apercebem mas que nos marcaram. Cada um de nós, fechando os olhos, entrando no seu coração, pode perceber tantos testemunhos que recebeu de atos e vida, de alianças de vida. Ver o nosso pai acordar cedo e ir trabalhar, o amor com que trabalhava. O amor com que a mãe acompanhava cada dia da nossa vida. Essa infatigável ternura, esse incansável amor com que nós fomos criados. Isso fazia parte e faz parte do nosso quotidiano, da nossa rotina numa casa, numa família. Mas depois nós percebemos que esse é um testemunho de amor, é como uma luz que não se apaga. Porque uma família, antes de tudo é ato não é uma teoria, não é um conceito, é um acontecer, é um acontecimento.

Depois, uma família é o lugar da fé. E da fé não no sentido imediatamente religioso, por ser um lugar onde se reza, mas no sentido estrutural. Numa família nós crescemos, e cresce cada um à sua maneira, e vive cada um da sua forma, e cada um tem uma história. A família não é o lugar da previsão, não há um mapa, não há um modelo para dizer a minha família vai ser assim: eu quero que os meus filhos cresçam desta maneira e quero que eles sejam isto ou quero que eles sejam aquilo. Não podemos dizer isso. Podemos guardar, podemos acompanhar, podemos servir os sonhos, o desejo, a singularidade que se vai despertando na vida dos outros. Na vida, por exemplo, dos nossos filhos. E daí nós dizermos: tu não vais ser isto, não vais ser aquilo – colaborar para que possa acontecer aquilo que é, na aceitação, no amor, no investimento de fé, de confiança que fazemos naquele desejo. Na formulação daquele desejo nós possamos ajudar, colaborar para que cada um possa viver plenamente a aventura de ser.

Por isso, os pais não são donos dos filhos. No fundo, são seus companheiros, são a sua raiz, são o seu sustento. E o que é um filho um pai não sabe, os pais não sabem. Um filho é a maior surpresa para os próprios pais que o criaram, a maior surpresa. Mas assim está bem, porque um filho pede a fé. Eu vou ter fé em ti, eu vou confiar em ti. E é essa confiança primeira que nós recebemos, é essa confiança que recebemos em família que nos dá aquela autorização necessária para ser. Às vezes veem-se pessoas que claramente não foram autorizadas no amor, porque o amor dá-nos autorização para ser. Um olhar de amor é dizer: eu quero que tu sejas, eu amo-te como tu és, eu quero que tu sejas assim, confia, acredita em ti. Isto é a autorização que o amor nos dá. E quando essa autorização não acontece, ou não se dá de uma forma que impregne o nosso ser, nós ficamos sempre a vacilar, nós andamos sempre um pouco perdidos, um pouco hesitantes.

Por isso, é importante sabermos que não há pais perfeitos, não há famílias perfeitas, não existe isso. Os pais muitas vezes falham e muitas vezes erram. Mas isso é claro, isso acontece todos os dias. Mas, qual é a missão dos pais? A missão dos pais é transmitir esta fé inabalável no filho, é transmitir este amor incondicional ao filho. É saciar o coração do filho de fome de mãe e de fome de pai. Se ele estiver saciado ele vai perdoar todos os meus erros, todos os meus enganos, todas as minhas insuficiências que são tantas. Mas ele vai ter aquela fé necessária para poder existir.

A família é o lugar do ato, a família é o lugar da fé e a família é o lugar da promessa, é o lugar onde se vive a promessa. Porque não é porque nós nos amamos numa família que não vão acontecer coisas difíceis. Não é porque nós nos damos bem e somos família e partilhamos os mesmos valores que não vai haver sofrimento, vai sempre haver. Vai sempre haver sofrimento, lágrimas, vamos sempre embater perante coisas que não conseguimos resolver, e temos de aceitar e temos de amar. Vamos sempre passar por momentos de doença, de sofrimento, de fragilidade, de vulnerabilidade extrema. Coisas que nós não queríamos mas a vida é assim, a vida continua, a vida constrói-se dessa forma.

Mas, o que nós podemos dizer uns aos outros, pais e filhos, é o valor da promessa. Quer dizer, aquilo que nós experimentamos, aquilo de simples, de pequenino, aquele ato que nós celebramos juntos, aquele ato de amor que nos funda como família. Isso é uma promessa que no tempo se há-de sempre desenvolver. Uma promessa que nos há-de expandir. Uma promessa é começar de forma muito humilde, mas depois há-de encontrar a sua concretização.

Por isso, na família nós dizemos uns aos outros que não somos filhos da maldição, mas filhos da promessa. E quando um pai olha para um filho, olha com muita pobreza. Porque, no fundo, o que lhe pode dar é a promessa, a promessa de um amor que o há-de acompanhar sempre, mas essa promessa que parece uma coisa muito frágil. Nós pensarmos o que podemos dar uns aos outros é a partilha da promessa. Parece uma coisa muito frágil e é frágil. Mas é a ponte de corda que tantas vezes nos sustenta ao longo do abismo, é a pequena luz que tantas vezes nos acompanha ao mais fundo da noite. É a palavra que tantas vezes nos recupera, tantas vezes nos redime nos silêncios abissais da nossa história.

Por isso, demos graças a Deus pelas nossas famílias. Na sua perfeição e na sua imperfeição, na sua dor, na sua promessa, que ela seja de facto esse lugar em que, de olhos postos na família de Nazaré, nós somos ato, nós somos fé, nós somos uns para os outros promessa.

Pe. José Tolentino Mendonça, Festa da Sagrada Família

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