Queridos irmãs e irmãos,

Nas três leituras que hoje proclamamos há uma palavra que emerge e que, de certa forma, estrutura a organização interna de cada um dos três discursos que nós escutámos.

Sem dúvida que no Evangelho de S. Mateus, nesta extraordinária passagem em que Jesus aparece revestido de uma força ética extraordinária, como o novo Moisés a falar, a refletir sobre a Lei, trazendo para a vivência da fé uma espessura moral, uma espessura ética, não basta acreditar, é preciso praticar, é preciso concretizar. Neste discurso de Jesus, sem dúvida a palavra é a Lei. E o confronto com a Lei é um confronto importante para compreendermos Jesus e para nos compreendermos a nós próprios. Porque a Lei tem uma função. A Lei organiza, a Lei baliza, a Lei protege, a Lei esclarece as situações, a Lei oferece-nos as linhas com que cosemos de uma forma equilibrada a vida, aquilo que é o equilíbrio entre os nossos direitos e os nossos deveres. De maneira que a Lei tem a sua importância. Mas a Lei pode ser uma máscara, a Lei pode ser uma cápsula, a Lei pode ser uma desculpa. Porque nós dizemos: “Eu cumpro a Lei.” E cumprimos a aparência da Lei, o formalismo da Lei. Nós sabemos como todas as leis – e esse é o seu grande pecado – assentam num formalismo muito grande de procedimentos, que muitas vezes funcionam como se tivessem vida própria e como se tudo se esgotasse ali. Como se a justiça fosse unicamente os procedimentos ligados à justiça mas não a justiça verdadeira, não a justiça em si.

A grande crítica que Jesus vem fazer ao espírito legalista da religião do seu tempo é que usavam a Lei para desobrigar-se do amor. Eu cumpro a Lei, como cumpro a Lei já não tenho de fazer mais nada. E muitas vezes fico a cumprir a Lei para que os outros vejam que eu cumpro a Lei, mas no meu coração não fui transformado por uma ideia de justiça, por uma ideia de misericórdia, por uma ideia de amor. Por isso, os legalismos são de sua natureza muito hipócritas, muito dúplices, porque ao mesmo tempo estão protegidos naquela cápsula de aparente legalidade e que ata as mãos e cria uma espécie de desmobilização moral, desmobilização ética na própria vida.

Isso é um discurso e uma crítica que Jesus faz que é também muito importante para a nossa maneira de viver a religião. Porque muitas vezes é uma aparência de religião, é uma aparência de justiça, é alguma coisa que em vez de nos mobilizar, de nos comprometer, de nos radicalizar no amor e na misericórdia pelo contrário tornamo-nos fregueses. Estamos à vontade no Templo, estamos à vontade com as coisas da religião, mas não mergulhamos no seu espírito como pergunta, como caminho, como uma exigência de amor que nunca está completamente saciada, nunca está completamente satisfeita e por isso me obriga a viver numa tensão. Aquilo que Jesus diz é: “Eu não vim eliminar a Lei, eu não vim ab-rogá-la. Eu vim exigir que ela fosse plenamente cumprida.” E ela só é cumprida quando tocar, não apenas a pele, mas quando tocar o espírito, quando nos mover por dentro, quando não nos bastar cumprir apenas a forma mas sentirmos a necessidade de mergulhar no fundo.

Os exemplos que Jesus dá são exemplos tocantes, exemplos até incómodos para nós. Porque se a exigência da Lei começa, de facto, no nosso desejo, na nossa maneira de ver, na nossa maneira de olhar, na nossa maneira de nos relacionarmos com os outros, nesse lugar (que aparentemente ninguém vê, ninguém sabe) que é o nosso coração, se é aí que tudo começa, se é aí que se decide a justiça então, de facto, nós metemo-nos em trabalhos sem fim. Mas é isso que Jesus vem fazer, porque Jesus não vem apenas para satisfazer uma regra, a regra número um da expectativa messiânica. Jesus veio para salvar o Homem, para transformá-lo, para tocar o seu coração. É isso que nós temos de sentir, rompendo muitas vezes com o caminho mais cómodo da nossa vida que é o caminho da Lei, que nos deixa muitas vezes isentos e neutros em relação a deveres mais profundos, a atitudes mais radicais, a transformações porventura mais necessárias, mais comprometedoras, que no fundo são aquelas que Jesus diz que fazem acontecer o Reino na nossa vida. Porque nós podemos cumprir todas as regras, todos os mandamentos e depois no fim Jesus dizer: “Não te conheço, não te conheço.”

O que é que nos torna conhecidos por Jesus? É essa verdade de fundo, é essa radicalidade, é o contrário de um certo descomprometimento, de um certo alívio que o cumprimento de uma regra nos dá e depois nos demite da coisa fundamental. Da coisa fundamental que é o encontro, da coisa fundamental que é a construção de uma relação verdadeira, da coisa fundamental que é ir até ao fim, cumprir até ao fim este chamamento ao amor e ao dom que Jesus faz a cada um de nós.

Na leitura de Ben Sira a palavra que emerge é a palavra liberdade. O autor de Ben Sira é muito claro: “Depende de ti, depende da tua vontade, depende da tua liberdade o seguimento que fazes de Deus. Deus coloca diante de ti o fogo e a água: a escolha é tua.” Nós temos de sentir isto: que a escolha é nossa. Por isso, o nosso viver tem de ser um viver desperto, e temos de sentir que estamos a escolher dia a dia, na forma como vivemos nós estamos a escolher. Parece que só estamos a ir ali ou a cumprir aquilo, parece que é apenas a máquina da vida a funcionar mas não é. Por trás dela estão as nossas escolhas, está a nossa liberdade. E a experiência da fé é também uma experiência de liberdade.

Os grandes crentes, as grandes mulheres, os grandes homens crentes são exploradores da liberdade. Muitas vezes até são libertinos do espírito, completamente libertários, são pessoas fora da caixa, fora do sistema, mais apaixonados por uma trajetória de liberdade e uma liberdade singular que os faz ser a cada momento. Nós caminhamos arrumadinhos no rebanho e muitas vezes esquecemos que a fé é, de facto, uma aventura de liberdade em que nós temos de dizer: ”Eu quero, eu estou aí, eu vou, eu sigo.“ Não é apenas o caminhar sonolento do ir por ir. Não, é uma decisão que me compromete, é uma decisão que eu repito a cada momento, é um “sim” que é um “sim” e é um “não” que é um “não”. E esta clareza, esta limpidez que a liberdade nos dá é fundamental para construirmos também um itinerário de fé.

Na Carta de S. Paulo aos Coríntios neste trecho a palavra que emerge é a palavra sabedoria. Podem imaginar que Paulo está a dizer isto em Corinto que era a segunda cidade grega. Era uma cidade que rivalizava com Atenas, fica a cento e poucos quilómetros de Atenas, para sul. É claro, não tem a grande escola de Platão, de Aristóteles, mas tinha também ali outros filósofos, os cínicos por exemplo partiam muito de Corinto, e havia ali também uma sabedoria, uma quantidade de templos. De maneira que a palavra mágica no mundo grego é a palavra “sophia”, a palavra sabedoria. Todos andavam à procura de uma sabedoria, todos pregavam uma sabedoria, todos viviam galvanizados por uma sabedoria. E Paulo também fala de uma sabedoria, mas fala de uma sabedoria diferente, fala da sabedoria de Deus. Aquela sabedoria que habita o interior de Deus. Paulo poderia ter perdido a cabeça por causa desta frase que ele diz: “Esta sabedoria nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu.” Por esta frase Paulo podia ser morto logo ali. Porque dizer isto é dizer, por exemplo, que o imperador de Roma não conheceu a sabedoria. Como é que é possível? O imperador? Acreditava-se que ele era o filho de deus, que ele era o homem mais sábio, que ele detinha tudo e Paulo diz: “Não, os príncipes deste mundo não conheceram a sabedoria. Porque se tivessem conhecido a sabedoria não teriam crucificado o Senhor da sabedoria, o Senhor da glória.”

Então, esta sabedoria de Deus, esta sabedoria da profundidade de Deus é uma sabedoria que nos é revelada e traduzida por Jesus Cristo no seu mistério pascal, na sua morte, na sua ressurreição. Há uma sabedoria, há um conhecimento, há uma ciência na cruz, no mistério da cruz.

É essa ciência, essa arte, essa nova forma de entendimento da realidade, essa chave de compreensão do mundo a que nos temos de agarrar, temos de pedir a Deus que nos dê essa sabedoria. Que não é apenas aquela sabedoria que encontramos nos nossos membros, na nossa carne, no nosso corpo, na nossa inteligência. Desde o braço que sabe fazer isto à inteligência que tem as ideias, ao corpo que parece que anda por si. Há uma sabedoria que nós já encontramos instalada nos nossos membros mas é outra sabedoria. Nós temos de pedir esta que não temos, esta que vem de Deus, esta que o Espírito instala em nós, esta que tem no mistério pascal de Cristo o seu núcleo fundamental, o seu núcleo mais ardente.

Por isso, Paulo está a pregar numa terra de filósofos, domingo passado ele dizia: “Eu estou aqui, no meio de vós com temor e tremor.” Mas há uma só coisa que Paulo vai pregar: a Cruz de Cristo como mistério de sabedoria de Deus. Isto é uma transformação, é uma reviravolta da história, é uma maneira completamente nova, é uma rutura de pensamento, mas é isso que nós precisamos – essa transformação, essa rutura que o Espírito nos permite revelando-nos a ciência da Cruz, a sabedoria da Cruz.

Vamos pedir ao Senhor que estas três palavras: a palavra “Lei”, a palavra “Liberdade”, a palavra “Sabedoria” nos acompanhem. E que o Senhor nos ajude a vivê-las, nos ajude no processo de conversão, nos ajude num caminho autenticamente cristão.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo VI do Tempo Comum

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