Queridos irmãs e irmãos,

A narrativa de S. Lucas que hoje lemos mostra-nos como o mundo não estava preparado para o nascimento de Jesus. Não havia lugar para Ele na estalagem, Ele teve de nascer naquela espécie de relento, naquela terra noturna por onde girovagavam os pastores.

O mundo não estava preparado e de certa forma o coração do homem também não está preparado. Porque há momentos da nossa vida em que parece que nos é mais fácil acreditar na noite do que na luz, em que parece que é mais fácil acreditar nas lágrimas do que nos sorrisos, em que parece que é mais forte acreditar num calçado de guerra, no rumor das batalhas do que acreditar no anúncio da paz e na voz que anuncia a paz. O nosso coração não está preparado e, contudo, Deus não desiste de nós, Deus não desiste de nascer mesmo no impreparado da nossa vida, mesmo tendo de convencer o nosso coração da paz que Ele é portador, mesmo tendo de exortar cada um de nós a alegrar-se, a acreditar na alegria.

Qual é o argumento de Deus? Não é um argumento abstrato, não é uma ideia. O argumento de Deus é a Sua própria humanidade. É Ele assumir a nossa condição, a nossa carne, a nossa vulnerabilidade, é Ele estar connosco, é Ele ser o Emanuel, o Deus connosco, o Deus que nos vem para acompanhar. Nós não estamos preparados, o mundo não está preparado mas Deus vem na mesma e quer fazer um caminho com cada um de nós. Por isso, Ele nasce para nos ajudar a nascer, no Seu presépio Ele dá-nos o mapa, dá-nos o teto, a altura de uma vida nova, de uma vida onde a esperança é possível.

O Senhor vem para limpar as lágrimas dos nossos olhos, para partilhar os nossos lutos, para estar connosco nos momentos de tristeza, para ajudar-nos no provisório e no imperfeito da nossa vida. Ele vem para nos levar ao colo, Ele vem para nos abraçar, para nos consolar. Ele vem para nos colocar de pé todas as vezes que forem precisas, Ele vem para nos fazer olhar para a nossa própria humanidade com os olhos de Deus, não já apenas com os nossos olhos que veem sempre tão pouco, mas para nos ajudar a ver-nos a nós próprios, vermos os outros, a vermos os acontecimentos do mundo com os olhos de Deus.

Por isso esta noite, queridos irmãs e irmãos, é uma noite mística, é uma noite em que a palavra é suplantada pela força da Presença, em que o Verbo se torna carne, se torna gesto, se torna completude no meio de nós. Por isso, o importante é este acontecimento performativo que é estarmos aqui, à volta de um presépio, de uma criança que nasce, escutando no seu gemido, no seu choro, na sua alegria, no seu espanto de estar sobre a terra, a glória do próprio Deus. Essa glória que cercou os pastores naquela noite é a mesma glória que cerca cada um de nós e diz: “Não temas, não temas, nasceu para ti hoje um Salvador.”

Queridos irmãos, um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Sintamos o dom de Deus como oferta para fazermos um caminho, o Natal não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. Deus faz-Se frágil, Deus faz-Se pequeno, Deus faz-Se do nosso tamanho, Deus faz-Se mais pequenino do que nós para nos ensinar que os nossos começos humildes são aos olhos de Deus pontos de partida esplendidos para dar força ao pouco, ao medo, ao inacabado que existe em cada um de nós. Sintamos por isso que esta Noite Santa é uma noite que nos envolve, é uma noite que nos coloca no coração de Deus, é uma noite para sentirmos a festa, a alegria.

Hoje nós temos de ouvir a voz do profeta Isaías que diz: “Rejubilai, acreditai na alegria.” Temos de ouvir a voz dos anjos que falaram aos pastores: “Venho trazer-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: hoje nasceu para vós um Salvador.” E se o nosso coração olha com receio, se o nosso coração não está preparado para esta alegria do Natal abramo-lo com confiança, demos uma oportunidade a Deus, a Jesus nas nossas vidas. E sintamos esta alegria que não é fruto nosso mas é este dom de consolação que Deus dá, que Deus oferece à vida de cada um de nós. Hoje, como diz o poeta: “Só quem dançar é que sabe, só quem bater as palmas é que sabe, só quem se alegrar é que sabe, só quem se colocar em silêncio diante do presépio é que sabe, só quem cair de joelhos diante de Jesus é que sabe, só quem sentir que esta palavra é o mapa da sua vida é que sabe, só quem sente que hoje é o primeiro dia da sua história é que sabe, só aqueles que no meio desta noite forem capazes de acender uma luz, uma frágil luz e que sabem, esses são o que é o Natal.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Missa da Noite de Natal

PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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