Queridos irmãs e irmãos,

Eu já falei aqui, penso que muitos conhecem, até já leram os diários e as cartas desta autora, Etty Hillesum. Etty Hillesum era uma rapariga judia, da burguesia de Amesterdão, que vivia uma vida um bocadinho dispersa. Tinha muitos talentos mas não sabia bem o que é que a vida havia de ser. Estudou Direito, depois abandonou Direito, gostava muito de literatura mas não sabia se era para ser professora, se queria ser escritora. Estava assim naqueles momentos da vida em que podemos ser tanta coisa e não sabemos bem qual é a nossa vocação.

Ela era judia de nascimento e de família, mas era também muito secularizada. A religião era uma tradição familiar, não era uma experiência vital para ela. E isto passava-se no período antes da Segunda Guerra. Quando começa a emergência do nazismo na Alemanha começam a chegar à Holanda muitos judeus fugidos da Alemanha e, entre eles, chegou um psiquiatra, discípulo de Jung, chamado Julius Spier. Era um homem com uma grande capacidade de perceber a linguagem simbólica, a linguagem da vida, um homem com um sentido religioso muito natural. Etty Hillesum conhece-o, primeiro como paciente, e depois mantêm uma relação amorosa. Este encontro vai mudar a vida de Etty Hillesum. Porquê? Porque, no fundo, ele vai, de certa forma, abrir a alma dela para a história que viria. Ela não sabia qual era o seu destino, qual era a sua vocação. Depois vai perceber que a sua vocação é dar a vida pelos outros. Depois oferece-se como enfermeira voluntária para o campo de concentração, e depois fica prisioneira e morre no campo de concentração. É uma história que nós podemos ver como uma história terrível, numa das horas mais negras do século XX, mas ao mesmo tempo é uma das histórias mais extraordinárias. Porque aquela mulher no campo de concentração, no meio da miséria, no meio da lama, rezava de madrugada na latrina do campo de concentração porque era o único lugar onde estava sozinha. Ela criava duas flores no meio do lixo porque ela precisava de beleza. Mas, no meio do tormento inimaginável que nós sabemos ser o de um campo de concentração, e isto é um escândalo, aquela mulher foi feliz. Etty Hillesum foi feliz, no meio daquela coisa medonha.

Ela no seu diário falando deste Julius Spier, deste primeiro encontro, usa uma expressão muito bonita, e foi por causa dessa expressão que me lembrei de falar dela hoje. Ela diz: “ Ele foi o parteiro da minha alma, o parteiro da minha alma, porque me preparou para um grande amor. O amor que eu vivi com ele preparou-me para um grande amor.”

Nós precisamos de parteiros para o nosso corpo, para nascermos, mas depois, ao longo da nossa vida, precisamos de parteiros para a nossa alma que nos ajudem a nascer. E muitas vezes nós somos instrumentos de Deus na vida uns dos outros, para sermos parteiros da vida uns dos outros.

Ainda ontem, por exemplo, fui ver o filme do Nanni Moretti “Minha mãe”. Um filme que eu recomendo muito e que, do meu ponto de vista, não é um filme sobre a morte da mãe mas é um filme sobre a transmissão da vida – como é que aquela mulher em fase terminal, numa cama do hospital, consegue transmitir vida à mistura com muitas lágrimas, com muito sofrimento, com muita dor. Ela transmitiu vida. Ela transformou a vida de cada um, transformou a vida da sua neta que passou a olhar para o latim de outra maneira, transformou a vida da sua filha, transformou a vida do filho. Aquela mulher na cama do hospital a morrer, a descobrir-se numa situação dramática, estava a ser a parteira da alma deles todos.

Não temos de imaginar uma situação ideal para pensarmos no nascimento e na transformação que acontece na nossa vida e na vida uns dos outros. Deus é o parteiro da nossa alma, Deus é o parteiro da nossa alma.

Hoje nós celebramos a Imaculada Conceição de Maria. O que é isso? É dizer isto: Deus preparou Maria para a história de amor e de dor, porque as histórias de amor são também histórias de dor, Deus preparou Maria para a sua história. Deus preparou-a para que ela pudesse ser mãe, para que ela pudesse ser mãe daquele Filho, para que ela pudesse entrar como protagonista no interior daquela história, uma história fascinante e exigentíssima como nós percebemos a olho nu olhando para o presépio.

Olhamos para o presépio e percebemos que aquela história não é uma história simples de viver, não é uma história simples de protagonizar. Como as nossas histórias não são simples de viver. O que nos é dado para viver não é simples, não é evidente. Mas Deus é parteiro da nossa alma, Deus prepara-nos, Deus prepara-nos para podermos viver o que nos é dado viver, e que muitas vezes nós não escolhemos, mas vem a o nosso encontro, é-nos anunciado.

Muitas vezes é-nos anunciado por um Anjo, outras vezes é-nos anunciado por um médico, outras vezes é-nos anunciado pelo nosso chefe, outras vezes é-nos anunciado por um irmão, por um amigo, outras vezes é anunciado por alguém de quem não gostamos, mas é-nos anunciado, é-nos anunciado. E nesse anúncio percebemos que alguma coisa na nossa vida se transforma. Mas é importante nós sentirmos, e é o motivo desta festa, sentirmos que Deus está-nos a preparar, está a preparar a nossa alma para tornar possível.

É muito belo o diálogo de Maria com o Anjo. Porque, no diálogo dela, nós temos as três etapas de todos os processos de nascimento da alma ao longo da nossa vida.

A primeira etapa é a etapa da surpresa, da surpresa. E uma surpresa que não é só surpresa é mixed feelings, tantos sentimentos ali: é surpresa, e é medo, e é desconcerto. Mas o que é isto? Um espanto. Mas, comigo? Mas, não houve engano? Mas, não se enganaram? É essa a primeira reação. Maria ficou perturbada com as palavras, mas a palavra do Anjo é a palavra que é dita a cada um: “O Senhor está contigo, o Senhor está contigo.” Podemos ficar perturbados, assustados, desconcertados mas é importante sabermos isso: naquele momento o Senhor está contigo, o Senhor está contigo.

O segundo momento é o momento da dúvida radical. Maria diz: “Mas como é que isso pode ser? Como é que isso é possível? Eu não vejo, eu não vejo como possa prosseguir.” Quando o Anjo lhe diz: “Não, a tua história vai prosseguir. Tu vais ser mãe, vais crescer, vais dar à luz, vais conceber, vais maturar.” Ela diz: “Eu não vejo como isso seja possível.” Porque entre aquilo que somos chamados e o conhecimento das nossas possibilidades e das nossas forças há um intervalo, há uma distância. E o que sentimos é a nossa fragilidade, a nossa incapacidade de corresponder. Porque o que nos é pedido é sempre um salto.

Por isso, a terceira palavra é: Maria ficou desconcertada, ficou assustada, Maria deitou contas à vida e disse: “Isso não vai dar. Isto não vai dar certo porque eu não sou capaz, e não estou a ver como é que isso aconteça.” E depois Maria confia, Maria abandona-se, Maria diz: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Este abandono confiado de quem, perante a vontade de Deus e perante os mistérios que Deus revela na nossa vida, se entrega, avança, diz que sim, confia. Mesmo não tendo a evidência, mesmo contando com a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, Maria confia.

E diz uma coisa muito importante, Maria diz: “Faça-se em mim, faça-se em mim.” Quando dizemos: “Deus é o parteiro da minha alma”, não é uma coisa que está acontecer através de nós, é uma mudança em nós, é uma vida em nós, somos nós que estamos em jogo, é alguma coisa que vai acontecer em mim. “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” Então não é uma coisa que passa por nós, é uma coisa em nós, em nós.

Quando celebramos a Imaculada Conceição, podemos encarar esta festa de muitas maneiras: falar dos privilégios de Maria, falar da isenção de Maria. Eu penso que o mais importante é perceber que Deus prepara Maria, Deus prepara-a para a sua história singular como Deus nos prepara para as nossas histórias singulares, porque Ele é, de facto, o parteiro das nossas almas, Ele assiste ao nosso nascimento.

O importante é cada um de nós poder percorrer estas várias etapas, que são as etapas do nosso percurso, da nossa trajetória de fé, da biografia da nossa fé. Percorrermos estas três etapas e, no final, colocarmo-nos com a atitude de Maria. Porque é a atitude desta mulher que não sabe como mas confia, mas que acredita que aquilo que aos nossos olhos, tantas vezes e de muitos modos, nos parece impossível a Deus é possível, a Deus é possível. E, no fundo, é esta confiança naquilo que só em Deus é possível, só em Deus é possível.

Nós, nas duas leituras anteriores, tivemos o livro do Génesis, que é a construção de um embaraço, de um obstáculo, de uma falta original, e depois temos a leitura da Carta de S. Paulo aos Efésios que é dizer: “Não, nunca nos faltou a bênção de Deus, a santidade é uma chuva que nos inunda, que nos molha, Deus está sempre, desde o princípio, vede com que admirável amor o Pai do céu nos abençoou com todas as bênçãos espirituais.”

Quer dizer: nunca nada nos faltou, Ele esteve sempre connosco. Nós só compreendemos isto por debaixo da pele, por debaixo, às vezes, de muitas dúvidas, por debaixo de muito estremecimento, por debaixo de muito questionamento. Mas é importante sabermos isso, que Ele esteve sempre connosco, que nós somos seus filhos e que nós somos seus herdeiros. E que muitas vezes no limite, na dificuldade, no questionamento radical Deus transmitiu-nos alguma coisa.

Como aquela mãe do filme do Nanni Moretti, na cama do hospital ela transmitiu tanta vida àqueles filhos porque cada um pode recomeçar, reconstruir a sua história em relação com aquilo que estava a acontecer, em relação consigo mesmos, fazendo um balanço novo da sua própria história. Deus é o parteiro da nossa alma. O tempo do Advento é um tempo que fala disto, de gravidez, de espera e de parto. É por isso, perante o nascimento, perante o nosso nascimento que nós estamos colocados.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade da Imaculada Conceição

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