Queridos irmãs e irmãos,

Ouvimos muitas vezes dizer que na nossa época faltam os mestres. Nós temos tantos especialistas, mais do que nunca a técnica e a ciência evoluíram, ganhando um espaço, um protagonismo, nas nossas sociedades. Mas faltam-nos os mestres capazes de fazer uma síntese, capazes de nos ajudar de uma forma verdadeira, sapiencial, a encontrar o sentido para aquilo que vivemos, o sentido para os nossos caminhos, para as nossas procuras e para as nossas histórias.

Eu não sei se nos faltam mestres ou não. O que eu sei é que cada um de nós é colocado perante a questão da sabedoria. Cada um de nós é chamada e é chamado a encontrar uma sabedoria para a sua vida. Isto é, a vida não pode ser apenas a soma das possibilidades que eu já tenho e estar a descontar dias num calendário. A vida tem de ser mais do que isso. Aquilo que ilumina, argamassa, dá conteúdo e alicerça a vida tem de ser uma sabedoria.

Sabedoria significa uma visão global da própria vida, não uma visão parcial. Significa uma visão de conjunto que abarque não apenas o agora mas a globalidade da nossa vida, não apenas o que nós fomos, o que nós seremos. Uma narrativa que seja capaz de conter o nosso nascer e o nosso morrer, a nossa vida e a nossa morte. E forneça uma luz que seja credível para nos iluminar. Nós precisamos de uma sabedoria, senão vivemos às cegas. Senão vivemos ora dando uma importância excessiva a isto, ora agarrando-nos àquela paixão, ao último entusiasmo, e acabamos por ficar reféns ora das nossas ilusões, ora das nossas frustrações. Mas falta-nos um alicerce, falta-nos um caminho, um caminho seguro, um caminho claro que vamos encontrando, construindo, aprofundando em cada dia. As leituras de hoje falam-nos disso.

A carta aos Hebreus diz: “A sabedoria é a palavra de Deus que nós somos chamados a acolher nas nossas vísceras, na dobradiça dos nossos ossos.” Isto é, nos pontos mais verdadeiros da nossa condição humana, nós somos chamados a receber a Palavra. A Palavra não é apenas um dispositivo teórico e ideológico que nós vamos construindo, uma série de convenções rituais que nos ajudam confortavelmente a viver, mas a palavra argamassa a mulher e o homem que nós somos.

A primeira leitura do livro da Sabedoria usa um sinónimo, em vez de Palavra de Deus usa o termo “sabedoria” e apresenta-nos o Rei Salomão. É um texto muito belo este que nós lemos, porque Salomão foi o rei mais poderoso de Israel, aquele que construiu o Templo, que viveu numa condição de prosperidade e paz política como nenhum outro rei. Salomão diz: “Eu preferi às riquezas e aos cetros a sabedoria. Ela para mim foi sempre a estrela, a coisa mais importante.” E é, no fundo, essa questão que nos é colocada: Qual é o nosso fio condutor? Qual é o nosso fio condutor? O que é que nós seguimos? Qual é a finalidade que nós sentimos para a nossa vida? Porque é importante isso estar explicitado para cada um de nós.

Não pode ser apenas chegar lá por intuição ou às apalpadelas. Não, cada um de nós tem de dizer: “O sentido da minha vida é este, aquilo que eu procuro é isto. Mais ou menos, na incerteza das minhas possibilidades, mas é isto, é isto que eu procuro. E, se eu procuro isto, então eu vou viver numa coerência, eu vou dar consistência aos meus próprios passos. Não posso acreditar numa coisa e viver de uma forma completamente contraditória com aquilo que eu persigo, com aquela sabedoria que eu identifiquei. Mas as nossas vidas são chamadas a fazer uma coisa só com aquele núcleo de verdade fundamental que para nós é a nossa âncora, é a nossa chama, é a nossa estrela.

O Evangelho dá-nos um caminho e conta-nos este encontro de Jesus com este homem bom. Este homem que procurava cumprir, procurava realizar, procurava acertar desde a sua juventude, vivia energicamente a dizer um sim. Isso era verdade nele. Quando Jesus lhe diz:

“ – Tu sabes os mandamentos, cumpre-os. Isso é um caminho.”

Ele diz:

” – Eu já tenho cumprido tudo isso desde a juventude.”

Jesus olha para ele e olha com simpatia, vê que é verdade – há ali uma situação de empatia. Jesus estava perante alguém que fazia da sua vida uma obra sábia, uma obra sapiente, uma obra de respeito. E tem simpatia por ele. Mas diz-lhe esta palavra: “Falta-te uma coisa, falta-te uma coisa.” Porque mesmo nas vidas que parecem acabadas e completas falta uma coisa.

É interessante que muitas vezes no Evangelho, e aqui se vê o jeito sapiencial de Jesus, Jesus é um verdadeiro mestre das nossas vidas, muitas vezes Ele deixa-nos com uma frase assim. No episódio de Marta e Maria, por exemplo, Jesus vira-se para Marta atarefada, só a pensar no fazer, no fazer, e Jesus diz: “Marta, Marta só uma coisa é necessária.” E isto é uma chamada ao contrário das nossas dispersões. Fazemos isto e aquilo, e aquele outro, e só uma coisa é necessária. A pergunta é se nós estamos a fazer em cada momento a coisa necessária, e se nós estamos a optar pela coisa necessária, a dar-lhe a prioridade devida. Hoje, Jesus diz uma outra coisa, diz: “Falta-te alguma coisa.”

A verdade é que a cada um de nós falta alguma coisa. Falta fazer, falta sobretudo ser alguma coisa. Não podemos pensar na nossa vida como um parque de estacionamento onde já chegámos e vamos vivendo mais ou menos, com maior esperança, com maior inocência ou com maior cinismo. Vamos vivendo a nossa vida porque já sabemos tudo o que vai ser. Não, “falta-te uma coisa”, e se queremos levar esta aventura humana até ao fim falta-nos uma coisa. Jesus para aquele homem diz-lhe: “Falta-te uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, vem e segue-Me com maior radicalidade.”

Porque não há liberdade sem desprendimento, não se pode pensar que a liberdade nos é dada. Não, a liberdade não nos é dada, a liberdade é conquistada, é conquistada. Ninguém nos dá a liberdade. Podem-nos dar uma liberdade de fora, um quadro da liberdade, mas nós podemos estar completamente presos e manietados num quadro de liberdade, ou num quadro libertário até. A liberdade é conquistada e a liberdade, antes de tudo, é uma atitude interior. Porque nós vemos na primeira geração dos cristãos, eles estavam presos, acorrentados e estavam livres. E S. Paulo escreve a Timóteo: “Ninguém põe grilhões na palavra de Deus. “ Isto é, nós podemos estar numa prisão e estar livres, porque a liberdade não é um condicionalismo exterior, a liberdade é uma conquista do nosso coração.

E como é que a liberdade se conquista? Eu não conheço outro caminho senão pelo desprendimento. Pelo amor, pelo abandono, pela entrega, pela convicção, pela fé, mas também pelo desprendimento. Para eu escolher uma coisa tenho de deixar outras, não posso levar tudo. A vida espiritual não é um grande carro de mudanças, é uma bicicleta. O homem e a mulher espiritual andam de bicicleta, não andam de camião a querer levar tudo atrás de si. Nós temos de carregar connosco aquilo que cabe numa bicicleta, a vida mínima, o essencial. Mas isso é uma escolha, é uma escolha difícil de fazer porque nos prendemos verdadeiramente, há prisões.
Nós vemos, por exemplo, com os ricos. Podíamos pensar que quem tem muito dinheiro a dada altura deixa de preocupar-se com dinheiro. É o contrário, quem tem muito dinheiro só pensa em dinheiro, e torna-se obcessivamente preso àquele dinheiro. Quem tem muito quer ter ainda mais, não quer partilhar, não quer fazer alguma coisa com aquilo – salvo raras, honrosas, generosas exceções. Mas isto que Jesus critica, estes ricos que podemos ser nós, que pode ser a riqueza material e as outras riquezas existenciais que transportamos, estes ricos são aqueles que ficam presos, fazem do que têm a sua prisão. Esta arte do desprendimento, como arte espiritual que nós temos de praticar, é fundamental.

Depois, o outro passo que Jesus nos ajuda a dar é o passo da dádiva, do dom: “Vende tudo o que tens.” Isto é, “desprende-te.” Cada vez mais radicalmente, e nós sabemos que é assim, temos que nos desprender mais para ser mais livres, senão não experimentamos uma verdadeira liberdade e uma verdadeira sabedoria.

Mas depois, nós desprendemo-nos para viver a experiência da dádiva, a experiência do dom, do dom. A nossa vida fica como o pão duro no saco, que acaba por ser deitado fora, se nós não colocamos esse pão sobre a mesa. Isto é, se nós não nos colocamos como o pão sobre a mesa para que os outros comam. Aquilo que nós não damos, perde-se. Nós só possuímos, nós só encontramos, nós só somos a vida dada, a vida partilhada, e é essa a grande lição de Jesus. Ele está todo neste pão que nos oferece como alimento. A vida de cada um de nós é chamada a ser dom, dom. Uma vida onde não há dádiva é uma vida que está a perder-se, é uma vida que é vivida sem a sabedoria de Jesus. Nós temos de redescobrir o dom na nossa vida – o dom, o serviço, a oferta, o comprometimento, o empenho. Aquele ícone do lavar os pés uns aos outros, que S. João nos dá na última ceia, deve ser a imagem que cada um de nós persegue.

Depois Jesus diz: “Dá aos pobres, aos pobres.” Há um encontro com os pobres que todos nós somos chamados a ter. A pobreza entendida de diversas formas, é verdade. Mas cada um de nós tem de ter um encontro com os pobres.

Eu lembro-me (penso já ter contado esta história) de uma pessoa que conheci que teve uma carreira política, internacional, académica absolutamente notável, distintíssima. Ele, quando se reformou, disse-me: ”Padre Tolentino, a minha vida tem sido uma vida realizada, cheia, só tenho a agradecer. Mas falta-me uma coisa, e que toda a vida, em todos estes cargos que eu tive, nunca tive a oportunidade de fazer: encontrar-me com os pobres.” Ele passou de um cargo internacional muito importante para a Conferência Vicentina da sua paróquia, para ir ao encontro dos pobres. E, neste homem, nós reconhecemos um cristão, reconhecemos um cristão. Porque é preciso uma liberdade enorme e um ouvir continuamente no seu coração esta Palavra de Jesus: “Falta-te uma coisa, falta-te uma coisa.” Ele sabia que lhe faltava ir ao encontro dos pobres.

Esse encontro não é um encontro que nós podemos não realizar. Há uma página do Evangelho que os pobres guardam, escrita nas suas vidas. E se nós a quisermos ler, temos de os servir, temos de os encontrar, temos de os acolher, temos de os ouvir para entender essa página do Evangelho.

Depois, Jesus diz: “Feito isto, vem e segue-Me.” O seguimento de Jesus é assim um seguimento que transforma a nossa vida. Nós não podemos pensar que estamos a seguir Jesus e a nossa vida contínua incólume, continua a mesma, continua a vida que a gente quis, a vida que a gente escolheu, a vida que a gente sonhou. Bem-aventurados aqueles a quem a vida deu o que eles não sonharam, que tiveram de viver o que eles não pediram, que tiveram de gerir aquilo que eles não estavam à espera. Mas a abertura, a hospitalidade, a esse inesperado da vida, a isso com o qual não contávamos mas temos de amar, temos de abraçar, temos de servir é que nos torna seguidores de Jesus.

Queridas irmãs, queridos irmãos, há uma sabedoria que é o próprio Jesus. Jesus é a sabedoria do Pai. Nós precisamos de olhar para Jesus não apenas como o nosso salvador que deu a vida por nós, que dá a vida por nós, mas temos de olhar para Jesus também como a nossa sabedoria. Isto é, o nosso mapa, o nosso mapa. Todos os dias nós somos viajantes, somos peregrinos, Jesus é o nosso mapa nas atitudes de viver, nas escolhas mais simples ou mais decisivas da nossa vida, Jesus dá-nos o critério, Jesus dá-nos a chave. Nesse sentido, passo a passo, todos juntos, caminhamos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXVIII do Tempo Comum

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A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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