Queridos irmãs e irmãos

Hoje, na leitura do Evangelho de S. Marcos, nós temos a primeira palavra de Jesus, a palavra inaugural. É uma palavra que dá que pensar, Jesus diz: “Cumpriu-se o tempo.” O tempo chegou à sua plenitude, ao seu cumprimento : “Está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”

É uma palavra que dá que pensar porque Jesus começa com uma reflexão sobre o tempo, com uma declaração sobre isto no qual a nossa vida está, isto que é a nossa vida, porque nós somos feitos de tempo, e temos, para viver, uma determinada conceção, uma determinada ideia de tempo.

A ideia mais corrente que temos de tempo é aquela que o relógio marca, um segundo a seguir ao outro, um minuto, uma hora a seguir à outra, um dia a seguir ao outro, anos, séculos. É essa a ideia do tempo. Os gregos representavam-no como um deus que come os seus próprios filhos, Chronos.

É em parte essa a ideia que temos do tempo: ninguém consegue parar o tempo, o tempo está sempre a correr, o tempo é umas coisas a seguir às outras. De certa forma, esta conceção cronológica do tempo acaba por marcar muito a visão do que é a nossa vida e do que deve ser, de como construímos a nossa felicidade, ou como tomamos consciência da nossa fragilidade, da nossa vulnerabilidade.

Tempus fugit, diziam os romanos. A experiência que fazemos como mulheres e homens é que não possuímos o tempo, não conseguimos agarrar o tempo, ele foge de nós. E então, a nossa vida é uma corrida, é uma aceleração, é um galope, queremos apanhar alguma coisa mas parece que a estrada, debaixo dos nossos pés, corre mais do que a nossa corrida. Por isso, muitas vezes, a sensação profunda que nos vem de uma vida vivida é de um vazio, uma coisa que não se consegue agarrar, uma coisa que não se consegue realizar, uma coisa que não se consegue tocar na sua plenitude.

E, contudo, Jesus diz: “Cumpriu-se o tempo.” O tempo chegou à sua plenitude. Sem dúvida que Jesus fala do tempo com outro olhar. Com outro olhar porque, para Jesus, o tempo claramente não é este tempo que corre, este tempo que passa e que os relógios medem. O tempo, na conceção de Jesus, é o tempo oportunidade, o tempo ocasião para ser. Este momento nós temos de olhá-lo não apenas como uma porção de vida que passa, que foge, mas temos de olhá-lo como uma oportunidade. Ela está aqui, diante dos nossos olhos. E nós temos de agarrar a oportunidade, temos de agarrar o momento, temos de colher este instante como lugar de recriação da nossa própria vida, como lugar de encontro profundo connosco mesmos, como lugar onde a plenitude não é uma utopia inalcançável, mas onde a plenitude é uma experiência, é um sabor, é uma promessa. Nesse sentido, esta primeira palavra de Jesus constitui, para nós, um ponto muito importante de conversão.

Porque é que nós somos chamados a mudar o nosso olhar sobre o tempo? Nós somos chamados a fazê-lo porque veio o Messias. Com Jesus começa um tempo novo, começa o tempo messiânico.

Hoje, 25 de janeiro, nós celebramos da conversão de S. Paulo. Não celebramos liturgicamente, porque estamos a celebrar o terceiro domingo comum. E Paulo foi, talvez, aquele que primeiro compreendeu todas as consequências concretas, históricas da pessoa de Jesus, do acontecimento de Jesus. Paulo percebeu isto à luz da sua mentalidade judaica e da sua capacidade de cruzar mundos, o mundo helénico, o mundo romano. Paulo percebeu isto: que, chegado o Messias, a lei antiga, o tempo antigo, cessou. Porque a lei existe para regular o tempo e a vida enquanto não chega a plenitude. Mas se a plenitude, que é a pessoa do Messias, chega, então a Lei já não é a nossa forma de viver. A Lei já não é aquilo que nos marca. Já não vivemos segundo a Lei, vivemos segundo um acontecimento que é o da pessoa de Jesus, que nos inspira o novo estilo, uma nova maneira de ser, uma nova visão das coisas, um novo entendimento, uma nova compreensão, uma nova compreensão do mundo.

Nesse sentido, é muito importante a pequena passagem do capítulo sétimo da Primeira Carta aos Coríntios, que hoje lemos. E que a tradução passa um bocadinho por cima das brasas, porque ouvimos ler: “O tempo é breve.” Verdadeiramente, o que está lá escrito é: “O tempo foi abreviado.” O tempo foi tornado mais pequeno, mais breve. Quer dizer, houve uma intervenção no tempo. Por Jesus ter vindo, o tempo passou a ser outra coisa, passou a ser visto de outra maneira, e passou a ser breve. Breve, no sentido de sentirmos que é agora, é este o momento, é esta a oportunidade, é este o lugar. Por isso, S. Paulo retira consequências dizendo: “Aqueles que têm, vivam como se não tivessem, os que choram vivam como se não chorassem, os que andam alegres como se não andassem, os que compram como se não possuíssem.” O que quer isto dizer? Que, agora, a nossa vida já não é determinada pela experiência do tempo, já não é simplesmente uma consequência do tempo; mas a nossa vida é chamada a desprender-se das malhas do tempo, das malhas da Lei e a assumir plenamente esta novidade, esta possibilidade que Jesus traz à vida de cada um de nós. Por isso eu sou chamado a viver neste mundo, no esquema deste mundo, na forma deste mundo, sabendo que ele já foi relativizado. E foi relativizado por quem? Foi relativizado pela pessoa de Jesus, pela figura de Jesus.

Queridos irmãs e irmãos

Isto pode parecer um bocadinho abstrato, um bocadinho conceptual, mas toca o âmago da realidade de cada um de nós, que andamos tantas vezes escravizados pelo tempo, reféns, capturados na nossa esperança por um tempo que nunca é o nosso, que nunca nos pertence, que nos foge completamente. E Jesus vem dizer: “Não. Não é o tempo que te domina. Tens que te libertar do tempo. Tens de viver neste tempo como se não dependesses dele.” Porquê? Porque a plenitude já chegou, porque a promessa já se realizou. Porque Jesus liberta-nos da escravidão, da fatalidade da Lei e dá-nos a possibilidade de viver segundo a liberdade, segundo a promessa, segundo essa plenitude de que Ele se torna o grande transmissor.

Sintamos esta palavra de Jesus como um verdadeiro chamamento. A vida não é uma coisa adiada. O tempo leva-nos a adiar talvez as coisas mais importantes da nossa vida. Nós temos tempo para tudo mas não temos tempo para o mais importante, não temos tempo para o amor, tempo para ser feliz, tempo para a gratuidade, tempo para o encontro.

Temos tempo para tudo mas não temos o tempo, o tempo que era capaz de nos dar o sabor da salvação. Ora, é preciso inverter esse olhar, é preciso anunciar que nós não vivemos escravizados neste tempo e na lei do tempo, mas que somos chamados a olhar cada instante como um lugar, como uma oportunidade, como ocasião por onde esta voz de Jesus passa, nos chama e nos congrega para vivermos uma história.

É muito belo este arranque do Evangelho de S. Marcos porque Jesus passa pela vida daqueles homens e mulheres concretas e diz-lhe: “Olha, vem e segue-Me, vem e segue-Me, vem e segue-Me.” O que é que está a acontecer? Está a acontecer a relação. No fundo, o que vai ser o caminho de cada um dos discípulos? Colocar o que eles são numa relação viva, criativa, confiada com a pessoa de Jesus. É isso que também, no início de um ano, nós somos chamados a fazer. O tempo não é só o tempo, o tempo não é o relógio que o marca, tem de ser marcado pela fé. Pela fé na pessoa de Jesus e na capacidade que Ele tem de transformar a minha vida. Se assim for, nós vamos olhar para este momento como uma oportunidade, vamos viver o tempo como um lugar não condenado, o tempo não como lugar onde experimentamos o vazio, a condenação e o juízo, mas o tempo pode ser reversível – como Nínive na pregação de Jonas: Deus volta atrás, há uma reversibilidade na própria palavra.

Quando olhamos para o tempo de outra forma, percebemos que ele não é um funil onde estamos cada vez mais afunilados e vamos sair na nossa morte, somos expelidos do tempo. Mas, pelo contrário, que o tempo, este tempo da minha vida, este tempo que eu vivo, este tempo que é o meu, este tempo com as suas fragilidades, com as suas esperanças, com os seus impasses, este é um tempo aberto. É um tempo aberto porque é um tempo onde Deus coloca o seu perdão, a esperança que Ele tem na mulher, no homem que nós somos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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